Bairros

Neste Natal eles sonham com...

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 8 min

Mais brinquedos


Quero um fogãozinho de brinquedo e muita comida boa”.


Questionada sobre seus desejos para este Natal, a pequena Maria Clara Soares, 4 anos, não hesitou: pediu o brinquedo e ainda acrescentou que tem pressa em ser atendida.


“Queria que não demorasse tanto pra eu ganhar. É que antes eu pedi uma bicicleta, mas minha mãe demorou muito pra comprar. Tomara que eu ganhe o fogãozinho logo”, completou.


Ela estava brincando na lama produzida pela chuva na tarde da penúltima sexta-feira, dia 9, em frente à sua casa, no Jardim Nicéia, quando a reportagem do JC a encontrou.


Com os cabelos cacheados, o sorriso no rosto e as mãos sujas de lama, Maria Clara mostrou que é decidida. Respondeu de primeira que quer mais brinquedos neste Natal.


A pequena contou que não se importa em morar em uma rua de terra, não liga para a falta de estrutura do bairro onde vive e não está nem aí para o mato alto que cresce sem parar pela vizinhança.


“Eu gosto daqui. Meu pai reclama dos buracos, diz que atrapalha o carro. Ele prefere asfalto, mas eu gosto da terra. Dá pra andar de bicicleta sem problemas”, justifica ela, sob o olhar a mãe, que, ao contrário de Maria Clara, quer, sim, que o bairro tenha asfalto, melhor infraestrutura e mais segurança.

 

Um lugar limpo e seguro para brincar

É fato que toda criança gosta de brincar na terra, mas quando brincar na terra é a única opção, não é tão divertido assim. Toda criança gostaria de ter um córrego para se refrescar no verão, mas quando ele é poluído, torna-se sinal de perigo. Toda criança gostaria de ter uma praça perto de casa, mas se a praça não tem brinquedos e vive cheia de lixo, tudo perde a graça.


“Aqui no Jardim Nicéia é assim. Além do bairro não ter nenhuma infraestrutura para nós brincarmos tranquilamente, ainda vem gente de outros lugares da cidade jogar lixo por aqui. Eu queria que nesse Natal tudo fosse diferente”, sonha Matheus Prado Garcia, 12 anos, morador do bairro.


O pedido do menino é apoiado pelos amigos Vitor Calado, 6 anos, Vinícius Spinola Guandalin, 11 anos e Guilherme Prado Garcia, 9 anos, que sofrem juntos com a falta de estrutura no bairro.


A reclamação tem fundamento. O Jardim Nicéia vive com as ruas repletas de crianças, mas ainda tem lixo por toda parte, mato alto, um córrego poluído e nenhum asfalto.


“Tá vendo aqueles tubos ali?”, pergunta Vinícius, apontando para diversos tubos de concreto, espalhados pela rua. “Trouxeram aqui no começo desse ano. Disseram que iam canalizar esse córrego. Os tubos estão aí até hoje, parados. Está até crescendo árvore dentro deles. Quero só ver o dia em que resolverem fazer a obra. Nós não vamos deixar cortar as árvores”, avisa.


Embora sejam crianças, os meninos sabem bem o que querem, afinal, são eles que têm de conviver diariamente com a situação. Aliás, o cenário onde cresceram, certamente contribuiu para a formação de uma opinião crítica a respeito de tudo o que acontece no bairro onde vivem.


“Nós ficamos só observando o que acontece por aqui. Um dia, seremos nós que votaremos em quem vai governar a cidade. Aí eu quero ver...”, adianta Matheus.


Contudo, a dura realidade não os impede de sonhar. Quando questionados o que fariam com as bolinhas de gude caso o bairro fosse asfaltado, eles logo explicam: “Daí a gente brincaria na pracinha, afinal, todo bairro asfaltado tem uma pracinha!”, retruca Matheus.


“É! E daí, se eu ganhasse um carrinho de controle remoto também poderia brincar na pracinha!”, anima-se Guilherme.

 

Um pouco mais de atenção


Dezembro: mês de férias escolares e de sol quente do verão. Para muitas crianças, combinação ideal para um mês perfeito. Mas para as crianças que moram no Parque Real, isso nada ajuda na diversão.


“De que adianta estarmos de férias se não temos onde brincar? Como não tem praça aqui perto, temos de ficar na rua, andando pra lá e pra cá... O pior é que até sombra de árvore falta por aqui”, reclama Kathellen Caroline da Silva Mendes dos Santos, 11 anos.


Para ela, o bairro melhoraria bastante se pudesse contar com uma pracinha bem cuidada, com direito a academia ao ar livre e parquinho.


Mas não são só espaços adequados para brincadeiras que as crianças do Parque Real querem ganhar de Natal. Elas pedem algo bem mais simples, mas que deve ser feito durante todo o ano: atenção.


“Antes, quando existia a favela aqui na rua de cima, vinha um monte de gente aqui, fazer doações, trazer brinquedos e visitar a gente. Agora não vem mais ninguém... Sei não, mas acho que até o Papai Noel vai nos abandonar”, afirma, em tom chateado, Eduarda dos Martírios Viana, 10 anos.

 

A visita do Papai Noel

Rodrigo Axel Barga de Assis, 9 anos, mora no Núcleo Ferradura Mirim e, neste Natal, sonha com a visita do Papai Noel. Mas ele avisa que é a última chance que dará ao Bom Velhinho de se redimir das faltas que teve nos natais anteriores.


“Quero que ele venha e me traga um radinho portátil e um pen drive. No ano passado ele se esqueceu de mim. Trouxe presente só pra minha uma de minhas irmãs. Vamos ver esse ano... Se ele não aparecer, não acredito mais”, adverte o menino.


Rodrigo mora em uma casa de dois cômodos com a mãe, duas irmãs e o padrasto. Durante o dia, vai à escola, ao projeto e gosta de soltar pipa e jogar bolinha de gude com os amigos do bairro.


Diz que não tem o que reclamar do lugar onde mora. A casa, apesar de pequena, comporta a família e isso, segundo ele, é o que importa.


No bairro, ele se incomoda apenas com a violência e com o egoísmo das pessoas. Por isso, sempre que pode, participa do projeto, que funciona no horário oposto à escola.


“Muitas crianças do meu bairro tem o radinho que eu quero mas ninguém me empresta. No projeto, é diferente. Lá eu aprendo muitas coisas e tenho vários amigos”, conta.

 

Mais respeito, educação e calma

Se as pessoas tivessem mais respeito umas pelas outras, fossem mais calmas e pensassem que não estão sozinhas neste mundo, tudo seria bem melhor. Por isso, neste Natal, quero que as pessoas tenham mais respeito, educação e calma”.


A frase acima poderia ter saído da boca de qualquer adulto, contudo, foi dita por Leonardo Willian Marinho, de apenas 11 anos.


O menino tem uma justificativa clara para o pedido de Natal. É que, na rua onde ele mora, no Jardim Vitória, fica difícil brincar com os primos por conta dos carros que passam em alta velocidade pelo local, desrespeitando as regras e as placas de trânsito.


“Não dá nem pra gente andar de bicicleta tranquilo porque os carros viram a esquina a mil por hora. O pior é que eles ainda ficam bravos com a gente! Que culpa temos se não existe uma pracinha aqui perto pra gente brincar”, reclama Leonardo.


Ele e os primos Celso Gomes Laranjeira, 7 anos, e Caio Gustavo da Silva, 11 anos, moram no Jardim Vitória. Quando querem brincar com tranquilidade, precisam andar cerca de 15 quadras para chegar à praça que existe em frente à Sociedade Hípica de Bauru. O problema é que nem sempre tem um adulto disponível para acompanhá-los.


Mas a falta de respeito de que os meninos tanto reclamam não acontece somente no trânsito. É geral.


“As pessoas deviam ser mais calmas e educadas. As brigas acontecem por conta de coisas bobas. Eu não gosto disso”, reclama Leonardo.

 

Um bairro sem lama e sem buracos

Ruas de terra, com lixo e mato alto não fazem parte do sonho de nenhum morador de Bauru. Elas causam transtornos como buracos, sujeira, aparecimento de animais peçonhentos e dificultam o acesso a outros lugares.


O que pouca gente nota é que, em bairros onde moram um grande número de crianças, a falta de asfalto e limpeza pode trazer traumas ainda maiores. E, infelizmente, essa é a realidade de quem mora na parte baixa do Jardim Europa.


“Eu estudo na escola Christino Cabral e preciso pegar ônibus todos os dias para chegar lá. Quando chove é terrível. É impossível chegar na escola com o uniforme limpo. Tem vezes que, na volta pra casa, a gente tira o sapato no meio do caminho, para não encher de lama...”, conta Larissa Cristina de Souza, 10 anos, que pediu ao Papai Noel um kit com materiais escolares da personagem Pucca.


“Eu adoro estudar... se o Papai Noel trouxer vou ficar muito feliz”, justifica.


Larissa mora em um terreno que abriga diversas casas, todas de madeira e recheadas de crianças e sonhos. No quintal, muita sombra, risos e diversão. Fora dele, desilusão.


“É preciso tomar cuidado quando a gente sai na rua. Outro dia, eu estava andando de bicicleta e, sem querer, o pneu bateu em um buraco. Eu cai e me machuquei”, conta Denner Roque Rodrigues Moreira, 12 anos, primo de Larissa, que também já correu o risco de ser picado por uma cobra dentro de casa.


A reclamação é endossada por Thaís Lopes Velasco, 10 anos, que a exemplo da prima Larissa, quer ganhar um kit te material escolar da Thinker Bell.


“Algumas quadras para baixo tinha uma ponte. Ela está quebrada há um tempão e ninguém resolve. Se a gente quiser ir brincar na rua do Villagio, temos de dar uma volta enorme. Além disso, o carro do meu pai já quebrou várias vezes por causa dos buracos. E aí, quem é que fica com o prejuízo?”, questiona.


Nesse cenário, desejos de dias melhores e um lamento por notar que preocupações como estas deveriam fazer parte da rotina de adultos, e não de crianças. Essas deveriam ter seus direitos garantidos e gastar tempo e energia apenas pensando nos estudos e nas próximas brincadeiras.

 

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