Desde os tempos mais antigos, as tradições religiosas forneceram aos seres humanos maneiras de compreender o mundo e seu lugar nele. Ao longo dos últimos quatrocentos anos, porém, o surgimento de uma ciência moderna, com seu sucesso na compreensão, na previsão e no controle do mundo natural, apresentou sérios desafios às crenças religiosas. Ciência é a palavra latina para "conhecimento" e desde o século XVII, esta palavra se cercou de uma aura mística, mas a ciência não é nada misteriosa. Duas coisas a fazem parecer impenetrável: os problemas estudados são na maioria das vezes bastante complicados e o fato de que cada ramo da ciência adotou um jargão técnico próprio que, pouco significando para nós, nos faz sentir excluídos. No entanto, é evidente que a ciência moderna transformou nossas vida; da maneira como conseguimos comida à maneira como nos comunicamos, valemo-nos da ciência e de seus vários subprodutos tecnológicos. O poder da ciência moderna de transformar nossas vidas atingiu proporções universais.
Além do mais, a ciência é um território tão vasto que poucos cientistas entendem o que dizem outros cientistas, às vezes, mesmo no âmbito de sua própria disciplina. O doutor em zoologia pela Universidade de Nottingham, Keith Harrison, em um de seus artigos afirma que o biólogo que estuda a classificação dos pássaros não entende os termos técnicos do biólogo que se ocupa de sua fisiologia, embora sejam ambos biólogos trabalhando com o mesmo grupo de animais. O método científico, por sua vez, pode ser visualizado como um triângulo. Primeiro, observamos aquilo que nos interessa estudar. Em seguida, elaboramos uma teoria para explicar aquilo que vemos ? uma hipótese. Antes de discutir os pontos fortes e fracos da teoria, nós a testamos por meio de um experimento. Obtido um resultado, voltamos ao começo do triângulo e de novo fazemos uma observação. Imagine, por exemplo, que Você esteja descendo a rua e aviste uma bola felpuda marrom bem a sua frente. Isto é uma observação. O que é aquilo? Talvez um pequeno coco que rolou do mercado próximo, pensa Você. Aí está a teoria ou a hipótese! Você então se inclina a fim de examinar a bola e revira-a com o pé. Está, neste instante, fazendo um experimento para testar a sua teoria. Observando o resultando do experimento, Você se espanta ao perceber a bola adquirir vida e fugir para uma moita. Sua teoria estava errada, portanto, Você elabora outra: é um pequeno animal e segue-o para ver se consegue descobrir mais alguma coisa. A ciência é assim, permanece aberta à dúvida, ao questionamento, à reconsideração e ao reexame. Quer Você saiba ou não, emprega o método científico várias vezes ao dia. Você é um cientista, na verdade, somos todos homens de ciência e sempre o fomos. Por outro lado, alguns assuntos não incidem na categoria de ciência porque não se enquadram no triângulo científico. Nossas observações sobre o universo nos levam a teorizar sobre a existência de um poder superior, um Criador. Temos aí uma observação e uma teoria para explica-la. O problema surge quando tentamos elaborar um teste. Que experimento poria à prova a teoria: "existe um Criador?". Até hoje não se imaginou nenhum. Assim, religião não é ciência.
Algumas pessoas alegam que a ciência se opõe à religião e promove o ateísmo. Não é verdade. Os resultados da atividade científica não provam, nem poderiam provar, a inexistência de um Criador. Isto exigiria também a evidência de um experimento. Como diz o velho ditado: "ausência de evidência não é evidência de ausência". Os cientistas simplesmente não podem investigar a existência ou não de um Criador e por isso nada têm a dizer a respeito. Essa é uma questão de fé. Um ateu convicto é tão crente quanto um padre, um pastor ou um rabino. Estes acreditam, por um ato de fé, que há um Criador; o ateu, por um ato de fé, supõe que não há nenhum. A ciência não pode ajudar nem um nem outro. Ela é necessariamente agnóstica. Ciência e religião são complementares, têm modos paralelos de construir nossa visão do mundo; podem muito bem coexistir e prosperar. A ciência busca novas verdades e a religião tem confiança de que as novas verdades descobertas em nosso mundo físico servem para glorificar quem as criou.
O autor, Paulo César Razuk, é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru