Um caso de saúde pública. Depois de muitas denúncias que apontavam irregularidades, a Vigilância Sanitária Municipal interditou o depósito de um comércio atacadista de alimentos localizado na Vila Coralina (próximo à Vila Cardia), em Bauru, na tarde de ontem. Por estar funcionando apenas como reservatório dos alimentos e ter pouca movimentação, ratos "tomaram conta" do local e começaram a invadir as casas de vizinhos, o que motivou a reclamação (leia mais abaixo).
Há alguns anos, moradores da rua Rio Grande do Sul convivem com a empresa instalada no numeral 1-31 da mesma via. Com o depósito, também vieram os ratos, que não pararam de aparecer nas casas dos vizinhos. Segundo os populares, houve contato com o representante da empresa que, por várias vezes, prometeu aos moradores que iria solucionar os problemas.
"Primeiro registramos boletim de ocorrência por conta do barulho dos compressores e da sujeira que havia no local. Começou a aparecer ratos nas nossas casas e como ninguém tomava providência decidimos procurar a polícia", contou a moradora Maria Inês de Andrade Marques, 59 anos.
As reclamações e solicitações de vistoria foram protocoladas junto à Vigilância Sanitária, mas nada era feito, segundo moradores. Com o tempo, a situação teria piorado. Trabalhando com arroz, feijão, açúcar, café, farinha, fubá, milho, entre outros alimentos, a procriação de ratos em local fechado, inadequado e sujo, - conforme constatado pela equipe de reportagem do JC -, ficou mais fácil.
?Achei que era um gato?
Foi assim que Geni Fabri, 66 anos, moradora da rua Rio Grande do Sul há 39 anos, se expressou ao contar à equipe de reportagem do JC como os ratos começaram a aparecer em sua residência.
Ela conta que deixa todas as janelas da casa fechadas por medo de que os roedores invadam o espaço onde mora, sozinha, e recebe a visita dos filhos e netos.
"No dia 17 de dezembro eu estava com meus filhos aqui em casa e, logo no início da noite, os ratos começaram a passar em fila em cima do muro. A primeira vez que vi, achei que era um gato, depois que eles apareceram com mais frequência eu percebi que eram ratos", contou Geni.
No quintal de sua casa, ela mostrou à equipe do JC por onde os ratos entram, já que o muro dos fundos de sua casa faz divisa com o depósito da distribuidora de alimentos. Mesmo limpando o local todos os dias, as fezes dos roedores sempre aparecem no chão. Um rodo fica à mostra. Assim que um rato aparece, Geni o "ataca".
"Eu morro de medo, fico tremendo, mas também não quero que ele entre em casa porque transmite doenças. Então, deixo este rodo aqui para matar quando eles aparecem. Também fervo água quente todas as tardes porque, se eles aparecerem, eu jogo. Depois lavo tudo com água sanitária e desinfetante".
No meio da madrugada...
Era por volta das 4h da madrugada do dia 22 de dezembro quando David Chiochette, 34 anos, escutou um barulho no momento em que dormia. "Eu achei que alguém tinha entrado em casa, mesmo com os sensores. Fiquei escutando e notei que o barulho vinha do banheiro. Foi quando olhei e vi o rato, enorme, na janela", disse David.
O rato saiu pela janela quando notou a presença de David. No momento em que o roedor entrou de novo pelo mesmo local, David o prendeu pelo rabo. Foi assim que conseguiu se livrar o invasor.
"Eu não tenho medo nenhum, e mato se aparecer em casa. No dia 23 apareceu outro atrás da máquina de lavar e eu matei com uma vassoura. Não tenho medo de pegar doenças, mas isso não pode acontecer porque ali dentro daquele depósito estão alimentos, e eu tenho filhos pequenos", criticou.
Representante da distribuidora diz que a região é ?problemática?
Na tarde de ontem, a reportagem do JC entrou em contato com o representante da empresa, que pediu sigilo da identidade e também do nome do comércio atacadista até que a situação seja esclarecida. Ele afirma que realizava a desratização e dedetização mensalmente para evitar problemas, já que a área, próxima à rodovia, possui problema constante com ratos.
"O depósito não está lacrado, está aberto. Inclusive estamos trabalhando ali, só que mudamos a empresa de lá no mês de junho de 2011. Ficamos ali por 10 anos e mudamos para um lugar maior. A região próxima à rodovia Marechal Rondon é muito problemática e dá muito trabalho com rato nesta região. Por mais que feche as portas, sempre dá problema. Acho que vem pelo esgoto, pelo telhado", justificou.
O representante da empresa explicou que o produto que estava no depósito estava ali por motivos de troca e que já iria ser descartado. "O nosso produto é revendido no atacado, cozinhas industriais, comércio em geral. Quando estávamos lá, a dedetização e desratização era feita uma vez por mês. A última aconteceu em 20 de setembro de 2011. Estes alimentos não seriam vendidos porque o arroz, por exemplo, estava carunchado e velho. Então, vamos levar tudo para o aterro sanitário", acrescentou.
O homem frisa que esta providenciando toda a documentação referente às dedetizações e desratizações para encaminhar à Vigilância Sanitária.
Ratos podem transmitir leptospirose
Segundo dados do Ministério da Saúde, ratos podem transmitir leptospirose, doença infecciosa causada pela bactéria chamada leptospira, presente na urina do rato. Qualquer pessoa que tiver contato com a urina do rato ou água e lama contaminada pelo dejeto pode se contaminar.
Segundo a médica infectologista Maristela Pastore, nesta época do ano o contágio por leishmaniose pode aumentar por conta das chuvas e enchentes. "É importante que as pessoas saibam que o rato transmite a leptospirose por meio da urina. Se o local por onde este rato passar estiver limpo com água sanitária diluída, a chance de contaminação diminui muito", destaca.
Os principais sintomas da doença são: febre, dor de cabeça, dores pelo corpo, principalmente nas panturrilhas, podendo também ocorrer icterícia (coloração amarelada da pele e das mucosas). Nas formas mais graves são necessários cuidados especiais, inclusive internação hospitalar.
"O tratamento é bem simples, com antibiótico e hidratação. O período de incubação pode ser de 1 a 30 dias. Por exemplo, se eu fui infectada hoje, posso começar a ter os sintomas em 30 dias. A pessoa adquire a doença se a pele tiver lesionada ao ter contato com a urina do rato".
A leptospirose não é contagiosa, ou seja, não há transmissão de uma pessoa para outra. É transmitida apenas entre os animais e dos animais para o homem, sempre pelo contato da urina do animal com a pele do homem. Os ratos podem também ser transmissores de raiva, caso haja mordida ou contato com a saliva.
Maristela aponta que o roedor só fica em local que tiver comida e usa o ambiente ao redor para exploração. "Os ratos só ficam em local sujo, com acúmulo de papel, por exemplo, ou onde há comida. Por isso a higiene é muito importante. Neste caso, se as residências onde os ratos estão aparecendo permanecerem limpas, os ratos não ficarão", finalizou.
Empresa terá que se adequar em 48h
O grande número de queixas dos moradores à Vigilância Sanitária Municipal motivou uma visita dos agentes ao depósito da empresa no Jardim Coralina, na manhã de anteontem. A espera por alguém que abrisse o imóvel para inspeção foi de mais de duas horas.
Em nota, a assessoria de imprensa da Prefeitura Municipal informou que, após vistoria em conjunto das divisões de Saúde Ambiental e Sanitária, o local que servia como depósito foi interditado e foi dado ao responsável o prazo de 48 horas para retirada e encaminhamento de todos os produtos armazenados para o aterro sanitário, além da desratização.
O responsável pelo depósito foi autuado e, após análise, serão definidas as penas. As multas por parte de ambas as divisões podem variar entre R$ 150,00 e R$ 4,1 mil, podendo ainda os valores totais das multas iniciais serem cobrados quantas vezes houver a reincidência.