Robert Musil, na sua magistral obra "O homem sem qualidades", dizia que não há um pensamento importante que a burrice não saiba usar e que, portanto, a verdade estava sempre em desvantagem em relação à burrice porque esta poderia vestir todos os trajes daquela, que, por sua vez, conseguia apenas vestir um traje de cada vez. Na terça-feira (07/02), o professor Luís Paulo Domingues escreveu um artigo intitulado "Onde está a verdade?", mas, apesar da procura, certamente ela não estava em seu texto.
Com um tom entre o saudosismo e o delírio, Domingues diz que o mundo de hoje voltou suas costas para a questão social, coletiva, se comparado aos anos do pós-guerra, em que vigoravam o socialismo soviético e a social-democracia. Ora, tirante o fato de que o primeiro sistema, que Otto Bauer apropriadamente chamou de "hierarquia bolchevique" tamanha a centralização burocrática em torno da nova classe dominante, foi responsável pela morte direta de 35 mi lhões de pessoas, razão pela qual não encontrou guarida em outras plagas, urge indagar ao nobre mestre em quê as políticas do atual governo brasileiro se distanciam dos princípios da democracia social, ou do governo dos democratas de Obama, dos países escandinávos e da própria China, cujo partido único ainda conserva o tal "comunismo" no nome, isso para citar apenas os países que encabeçam os rankings de economias bem desenvolvidas.
No entanto, talvez esse tipo de governo social-democrata que tanto desperta saudades no professor não seja de fato aquele que ele considera como modelo. Este estaria em Cuba, Venezuela e Bolívia, sistemas exemplares, de excelsa eficiência, não fosse o famigerado embargo econômico, argumento repetido como cantilena pela militância esquerdista bocó. Pois, se embargo houvesse, o Brasil não manteria financiamentos milionários e relações comerciais com os três países, ademais, inexiste obrigação legal ou moral a que corporações e países estejam sujeitos a seguir para manter relações com as referidas nações.
Oras, acaso alguma empresa americana teria que transacionar com um país cujo presidente disse para a Exxon Mobil "Yankees go home"? A questão ganharia contornos de insensatez se fosse analisada a própria lógica socialista que fundamenta os governos bolivarianos: o capitalismo estaria obrigado a salvar o sistema que surgiu para substituí-lo. Para encerrar, talvez o professor ainda não tenha entendido que a causa da crise européia é o fisco, não o mercado financeiro.
Pedro Luis Bueno Berti - estudante do curso de jornalismo da USC