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A felicidade abafa as contradições

Luís Paulo Domingues
| Tempo de leitura: 3 min

Em contatos eventuais com leitores de meus textos, descubro coisas interessantes. Outro dia, diante de uma crítica de um estudante de jornalismo da USC, conheci o escritor Michael Oakeshott, descrito como um dos pensadores mais reacionários do século XX. Esta semana, diante da crítica de outro estudante de jornalismo da mesma instituição, deparei-me com outro escritor: o "magistral" Robert Musil.

Ao contrário de Oakshott, gostei do que li sobre ele. Principalmente do fragmento que reproduzo abaixo, cujo título é "A felicidade abafa as contradições":

"Na maior parte dos casos, a condição primordial para a felicidade não consiste em resolver contradições, mas em fazê-las desaparecer, do mesmo modo que numa alameda comprida se fecham as lacunas. E tal como por toda a parte as relações visíveis se deslocam diante dos nossos olhos para que surja uma imagem que eles possam abarcar, onde o que é premente e próximo parece grande e ao longe até as coisas enormes parecem pequenas, onde as lacunas se fecham e o todo se mostra como algo de acabado e ordenado, assim também acontece com as relações invisíveis, que a razão e o sentimento afastam tanto que daí resulta inconscientemente uma situação em que sentimos que a dominamos completamente." Não conheço o restante da obra "magistral" deste escritor. Aliás, tanto Oakshott quanto Musil estão em falta nas bibliotecas e nas cabeças dos profissionais de ciências humanas do meu círculo de convivência. Porém, se tomarmos o fragmento acima como modelo, concordo com Robert Musil.

Se disfarçarmos as contradições e os abusos de nossa sociedade, se virarmos as costas para a exploração contida no jogo político mundial, haverá uma sensação de conforto e felicidade. Porém, essa felicidade só existirá enquanto tais contradições não forem vistas ou sentidas.

Para o estudante de jornalismo, que recebe uma educação oferecida em um molde trabalhado por aqueles que se dedicam (pelo menos é o que parece) a manter a "ordem" e os "bons costumes", este é um mundo de oportunidades. Haverá postos de trabalho de sobra para tal pensamento nos veículos de comunicação tradicionais.

A última edição da Veja, por exemplo, traz um tipo de estudo sobre a história do seguro. São várias páginas que só trazem matérias sobre como as companhias de seguro são importantes e como são imprescindíveis para o mundo de hoje. Entre as matérias, é lógico, veem-se anúncios de grandes companhias de seguro. Pergunto agora aos socialistas bocós (que é como nosso Reinaldo Azevedo bauruense define quem cita o socialismo, a social democracia e até mesmo o capitalismo de bem estar social): há possibilidade de tal revista oferecer algum grau de isenção?

No momento em que escrevo este texto, na sala dos professores da escola em que trabalho, há uma tela aberta no computador ao lado, com a notícia:

"Trabalhadores gregos entraram em greve contra medidas de austeridade nesta sexta-feira, ancorando navios e paralisando o transporte público, horas após os ministros das Finanças da zona do euro dizerem que Atenas precisa implementar mais cortes para convencê-los a liberar ajuda financeira.(...) Mas essas exigências podem ter ido longe demais. Muitos gregos, já sofrendo com cinco anos consecutivos de recessão, estão cada vez mais irritados com as medidas, que não devem trazer alívio à economia, em que um entre cada cinco gregos está desempregado, lojas fecham uma após outra e famílias estão apertando seu orçamento."

Percebi que nosso Diogo Mainardi de Bauru acabou acertando, sem saber, no final de sua aventura textual. Escreveu que o problema da Europa era com o fisco, não com os bancos. E é mesmo. O povo europeu não quer aceitar que o mercado financeiro decida o que os governos farão com o dinheiro de seus impostos.

Pensei em terminar esta tréplica com outra notícia, sobre a renúncia do premiê da Romênia, mas seria enrolação. O enredo é idêntico ao da Grécia. Portanto, cito novamente o "magistral" Robert Musil: "Não há descoberta sem transgressão".


O autor, Luís Paulo Domingues, é professor de História e colaborador de Opinião

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