Há muito a ocorrer até as eleições, mas a primeira e inequívoca conclusão das prévias do PSDB para escolher seu pré-candidato a prefeito em São Paulo é que José Serra saiu menor do que entrou na disputa. O que era para ser o primeiro grande ato de campanha virou uma demonstração de divisão interna inimaginável até para os correligionários mais pessimistas de Serra.
Os números não mentem: ex-governador de São Paulo, ex-prefeito da cidade, ex-ministro da Saúde e do Planejamento e candidato derrotado a presidente (duas vezes) e a prefeito (duas vezes), Serra obteve 52% dos votos - ou apenas 256 votos a mais que a soma de seus dois adversários nas prévias. Os apoiadores mais otimistas esperavam pelo menos 70% dos votos. Isso mesmo com a declaração de voto do governador paulista, Geraldo Alckmin, do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o apoio do atual prefeito de SP, Gilberto Kassab.
O fato é que Serra repetiu um velho roteiro de mudança de opinião e de compromissos assumidos. Quando se elegeu prefeito, em 2004, assinou um documento dizendo que não deixaria o cargo, mas foi o que fez. Há uma semana, disse que se tratava de um papel sem valor, como se a questão fosse o documento em si e não o compromisso assumido com a população.
Fez o mesmo ao dizer que não disputaria as prévias e decidir participar do processo quando ele já estava em curso. Àquela altura, nem Kassab, nem Alckmin queriam Serra candidato, e o PSDB já se preparava para escolher outro nome. Viram-se obrigados a engolir - ou fingir que engolem - um candidato com alto grau de rejeição.
A vitória acanhada nas prévias plantou sementes de dúvida no eleitorado: se os próprios filiados ao PSDB não votaram maciçamente em Serra, por que os cidadãos deveriam votar? Quando vemos as pesquisas com baixos índices de aprovação à gestão de Kassab, sabemos da importância de haver um projeto alternativo. São Paulo precisa de caras novas, ideias novas, governos novos, e as prévias mostraram que esse sentimento existe até mesmo entre os tucanos.
Pela sua dimensão e importância, a eleição em São Paulo repercute nas demais cidades. Cabe aos partidos da base de apoio da presidenta, Dilma Rousseff, tomar consciência de que o quadro em São Paulo se avizinha propício a uma vitória. Esse deve ser o sentimento na maior cidade do país, mas também em todo território nacional. Afinal, articular o bom trabalho que vem sendo realizado no governo federal desde 2003 com experiências próximas e positivas em âmbito municipal é um desafio e uma vitória não apenas para os partidos aliados, mas da sociedade.
O autor, José Dirceu, 66 anos, é advogado, ex-ministro da Casa Civil e membro do Diretório Nacional do PT