Articulistas

França: nacionalista e ideológica

Ney Vilela
| Tempo de leitura: 2 min

A Convenção Francesa, em 1793, possuía dois grandes partidos: os Girondinos, que representavam os interesses da alta burguesia; os Jacobinos, intelectuais que se imaginavam representantes dos interesses populares. A posição deles, no anfiteatro da Convenção, deu origem à terminologia de "partido de direita" para quem defende os interesses da Alta Burguesia e de "partido de esquerda" para os defensores dos cidadãos humildes.

A Revolução Francesa, ao contrário da Revolução dos EUA, não deu certo: degenerou no governo autoritário de Napoleão e no retorno do Absolutismo Monárquico, logo a seguir. É curioso constatar que o exemplo vitorioso dos EUA (que deu origem a partidos que defendem interesses econômicos e existenciais dos grupos sociais) não foi seguido, mas o exemplo francês (com partidos ideológicos alicerçados em determinismo histórico) difundiu-se por todo o planeta. Passaram-se mais de dois séculos. Tivemos guerras mundiais, experiências trágicas de governos autoritários de extrema direita e de extrema esquerda, a queda do comunismo. Por conta desses fatos, boa parte dos países - mais por força desses fatos do que por consciência - abandonou o debate eleitoral e político ideológico em favor de uma ação concertada na luta competitiva pelo poder político. Não é uma questão de concordar com esses acontecimentos, mas de constatá-los.

Mas a França continua a discutir ideologia. Nas eleições que transcorrem, os eleitores não estão em busca de respostas para enfrentar a situação de crise que o país enfrenta: estão em busca de uma teleologia, de um futuro glorioso com a superação da necessidade e do egoísmo. Os problemas reais (envelhecimento da população; pequena parcela da população em idade de trabalhar; custos de produção; falta de investimentos) são substituídos por discussões sobre a entrada de migrantes do Oriente Médio, sobre a exploração dos grandes conglomerados internacionais, sobre globalização ou integração europeia.

Os partidos de extrema esquerda e de extrema direita apresentam-se em reuniões orladas por bandeiras francesas. O internacionalismo proletário transformou-se em nacionalismo tacanho e se mimetiza à igualmente tacanha xenofobia. Juntos, a extrema direita de Marine Le Pen, a extrema esquerda de Jean-Luc Mélanchon e os soberanistas de Dupont-Aignon obtiveram 32,5% dos votos, no primeiro turno. Os extremos possuem mais votos que Sarkozy, o antipático ou que Hollande, o medíocre.

Por conta dos números, os candidatos - que poderiam construir alianças para enfrentar as questões econômicas e sociais prementes - preparam-se para enfrentar o segundo turno aproximando-se dos extremos do espectro político e queimando a possibilidade de acordo nacional. Sarkozy elogia Marine Le Pen e estigmatiza os imigrantes; Hollande afirma que vai fazer o Estado investir mais na economia e vira de costas para a União Europeia. A França está cada vez mais nacionalista, xenófoba, ideológica e burra.

O autor, Ney Vilela, coordenador regional do Instituto Teotônio Vilela

Comentários

Comentários