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Órfãos digitais, o buraco no muro e a educação

Fabio Paride Pallotta
| Tempo de leitura: 2 min

Cena comum entre famílias de classe média que se preocupam com seus filhos menores de idade em tempo de violência: limitar a permanência deles nas ruas das cidades. Uma vez em casa estarão a salvo pelo manto protetor da família? Pode ser que sim, mas alguns, com livre acesso à internet nos seus quartos, estarão à mercê da falta de cuidados digitais de seus familiares. Estamos diante do fenômeno dos órfãos digitais, que aparentemente longe da violência das ruas estão entregues à brutalidade virtual das redes sociais criadas para "aproximar as pessoas".

São crianças que navegam em mares revoltos do ciberespaço, onde só poderiam estar a partir dos 18 anos de idade. São vítimas fáceis daqueles que se passam por outrem. Já é usual meninas fugirem de casa para encontrar seus "príncipes virtuais" e algumas não retornarem, ou então crianças resolverem suas pendengas escolares "trolando" horrores impublicáveis por escrito sobre colegas de classe, o que antes era decidido verbalmente e de forma passageira nos intervalos entre as aulas. A palavra publicada por escrito no mundo virtual está potencialmente à disposição de 1 bilhão de pessoas. Mas não há problemas, pois todas as redes sociais alertam que só se pode ter acesso a elas com 18 anos de idade. Será que funciona? Em contrapartida, em comunidades pobres da Índia, as crianças passam pela experiência de contato com o mundo digital através do engenheiro Sugatra Mitra, que colocou centenas de computadores em comunidades pobres para que as crianças pudessem ter contato com os computadores sem limites ou restrições (O Buraco no Muro www.youtube.com.br ). Surpresa: elas aprenderam a navegar sozinhas e algumas delas, como era de se esperar, com certa desenvoltura e genialidade. Segundo Sugarta observou nas crianças, criaram novas expressões para componentes de uso do computador que não conheciam. A flecha do cursor passou a ser SUI que em hindi significa "Ponteiro do Relógio" e a ampulheta do tempo passou a se chamar DAMRU, ou seja, o tambor de Shiva...

Temos dois usos de uma ferramenta que está mudando a vida como a conhecemos na face da terra. Qual das duas perspectivas vencerá? Segundo o médico, linguista, cineasta e professor de Harvard Michael Rich, esse caminho sem volta só será trilhado de forma adequada pela educação dessa geração de "nativos digitais" para que percebam que as palavras ferem, que o outro deve ser respeitado e que é impossível "esconder-se" no mundo virtual. Como é o processo de educação para o mundo virtual no nosso país? O que esperamos para educar os nossos filhos e lhes mostrar que é necessário uma "ética virtual"?

O autor, Fabio Paride Pallotta, é professor de história e colaborador de Opinião

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