Articulistas

Aos que não recebem salário

Alberto Braede Leite
| Tempo de leitura: 2 min

Criado para reverenciar o Trabalho, o 1º de Maio virou Dia do Trabalhador, consagrado mais às greves e mobilizações sindicais do que como momento de reflexão. Não é de admirar, portato, que nesta terça-feira as praças e avenidas sejam tomadas por manifestantes, debates acalorados nas negociações salariais. Sim. A efeméride parece estar reservada mesmo às discussões da relação capital-trabalho como um todo, tendo de um lado os empregadores, patrões, e de outro, os empregados. A Espanha, como se sabe, está vivendo um dos piores momentos de sua história, onde o desemprego atinge mais de 20% da população economicamente ativa! Mas o que gostaríamos de enaltecer é a nobreza do trabalho, como instrumento de progresso humano, social e cultural, e como ação profilática para a alma.

Quem trabalha mantém a mente ocupada. E por isso não tem tempo para doenças, já ensina um ditado popular de grande sabedoria. A capacidade do trabalho mostra a semelhança entre criatura e Criador. Jesus mesmo o disse: "Meu Pai trabalha sem cessar. E eu também". A Natureza, que tem o autógrafo de Deus em tudo, está cheia de exemplos: o passarinho que constrói o próprio ninho; a aranha que tece a teia, sem falar das formigas e sua organização admirável... Não estou menoscabando o trabalho remunerado, que também dignifica o homem e cuja atividade as leis humanas tratam de proteger e garantir direitos. Mas não esqueçamos o trabalho-abnegação, o trabalho-devotamento, que vai além da remuneração estabelecida no contrato assinado entre patrão e empregado. Refiro àquele trabalho que, muitas vezes, o dinheiro da Terra não tem como ressarcir. Falo do trabalho da enfermeira que aceita a jornada extra para que um paciente não sofra ainda mais. Falo do empregado que, sem pedir quaisquer bonificações, cumpre uma tarefa que não é sua, porque sabe ser útil em todas as horas. Falo do aposentado que, mesmo na fase que seria de descanso, dispõe-se a auxiliar no seu Sindicato, na sua Igreja ou mesmo na sua comunidade.

Refiro-me ainda ao trabalho informal, que, mesmo à margem da lei, dignifica o suor dos que sobrevivem à custa de atividades não regulamentadas, embora também dignas, como os vendedores ambulantes, os cuidadores de idosos e os que prestam serviços voluntários em instituições nobres como Médicos Sem Fronteiras, Cruz Vermelha, Centro de Valorização da Vida (CVV) e outras tantas. Que este 1º de Maio, portanto, seja consagrado a eles, os trabalhadores sem remuneração, os trabalhadores sem salário, muito embora mereçam o galardão dos justos e as compensações dos céus.

O autor, Alberto Braede Leite, 60, é terapeuta holístico, residente em Campinas

Comentários

Comentários