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Solidariedade se transforma em lares

Bruna Dias e Lilian Grasiela
| Tempo de leitura: 8 min

Mais do que a cidade “Coração de São Paulo”, Bauru também deveria ser conhecida como a “Cidade da Solidariedade”. Graças a este sentimento, e a união de pessoas que não medem esforços quando o assunto é ajudar ao próximo, a pequena Ana Lara Francisco, 5 anos, portadora de leucemia, agora terá um lar, bem como uma família assistida pelos Vicentinos, que ganhou uma casa, ontem, na Vila São Manoel, região da Vila Falcão em Bauru. 

 

Desde que o JC divulgou a história do oficial de Justiça, Roberval Soares, que se negou a cumprir uma ação de despejo contra a família de Ana Lara, em dezembro do ano passado, depois de descobrir que a garotinha estava em uma sessão de quimioterapia no Hospital Estadual (HE), muitas pessoas se interessaram em ajudar no caso.

 

A família recebeu vários donativos, dentre eles, cestas básicas, roupas, sapatos e brinquedos para a pequena Ana Lara. Muitos advogados se interessaram pela causa e, um deles, que pediu sigilo da identidade, ficou responsável por intermediar a negociação com o empresário que pediu a retomada do terreno.

 

Ainda sem uma definição sobre as negociações com a família, que quase eram nulas, o empresário do ramo imobiliário ajuizou novamente pedido de despejo de Ana Lara. “O terreno era da minha sogra, que faleceu há quatro anos e depois disso ficou difícil pagar o parcelamento do imóvel, porque ela nos ajudava”, contou Tamara Francisco da Silva, 21 anos, mãe de Ana Lara, em entrevista recente ao JC.

 

Neste segundo pedido de despejo da família, Roberval, oficial designado ao caso pelo juiz da 5ª Vara Cível da Comarca de Bauru, não poderia intervir. Ao se negar em cumprir a ordem, poderia sofrer punições por prevaricação e até perder o emprego.

 

 

 

Valor perdido

 

Os R$ 2 mil que a avó de Ana Lara teria pago como entrada no valor do imóvel, foram dados como perdidos pelo juiz da causa. Por isso, novo valor foi ajustado para que o terreno pudesse voltar às mãos da família: R$ 18 mil. As últimas duas semanas foram de desespero para a família, que estava com medo de nova ação de despejo e retomada do terreno.

 

Então o advogado começou a negociação junto ao autor da ação, que cedeu por mais alguns dias para que o dinheiro fosse “levantado”. Um grupo de amigos solidários, que pediram sigilo da identidade, se sensibilizaram com a história da menina noticiada pelo JC no último dia 20 de abril, se mobilizaram, e, em seis pessoas, conseguiram angariar o montante de R$ 18 mil.

 

“A Ana Lara não será mais despejada. Nós compraremos o terreno e colocaremos no nome dela. Isso deve acontecer dentro de 15 dias, porque precisamos reunir o pai e os tios dela para que assinem um termo autorizando a transferência e o desinteresse no imóvel futuramente. Já está tudo certo, conversamos também com um cartorário que dará a escritura e eu mesmo pagarei pelo registro”, disse um deles.

 

 

 

Alívio

 

A equipe de reportagem do JC entrou na noite de anteontem em contato com a família e contou sobre a compra do terreno. Quando ouviu a notícia de que não corriam mais o risco de perderem o terreno e serem despejados, Tamara Francisco da Silva, 21 anos, mãe de Ana Lara, se emocionou. “Verdade? Não acredito! Muito obrigada”, agradeceu.

 

Infelizmente ontem não foi possível ter contato direto com a família já que Ana Lara estava internada no Hospital Estadual (HE) de Bauru com complicações de gripe. “Ela está internada porque piorou e estava com febre, viemos na madrugada”, disse a mãe. Graças à solidariedade, agora Ana Lara tem um lar.

 

 

 

Com a ajuda de vicentinos, família ganha uma casa

 

Após anos vivendo de aluguel, uma família carente de Bauru realizou ontem o sonho da casa própria graças à solidariedade dos vicentinos do Conselho Particular de São Benedito, que atua junto à Paróquia de mesmo nome, na vila Falcão. Em seis meses, num verdadeiro “mutirão da solidariedade”, dezenas de voluntários, com ajuda dos próprios moradores, ergueram o imóvel, que passou a ser o novo lar de um casal, quatro filhas e um neto.

 

Durante a solenidade de entrega das chaves e bênção da moradia, a dona de casa Márcia Terezinha Mariano, 38 anos, e o seu marido, o aposentado José Aparecido de Oliveira, 50 anos, juntos há 24 anos, não conseguiam esconder a alegria. “Foi uma emoção total porque, por mim e por ele, nunca íamos conseguir uma casa dessas. Nós estávamos vivendo de aluguel há cinco anos”, conta. “Agora, é só curtir o lar da gente, uma coisa que a gente já tinha perdido as esperanças. E seguir em frente, cada vez mais”.

 

Ao lado das quatro filhas, de 14, 16, 17, e 23 anos, e de um neto, a mulher não parava de agradecer os vicentinos. “Eu tenho que agradecer a Deus primeiramente e, depois, ao (Conselho Particular) de São Benedito, que nos ajudou muito”, diz. Ela também ressaltou a força do marido que, mesmo enfrentando problemas de saúde, fez questão de ajudar a construir a casa. “Por mais problema que ele tem, ele também lutou bastante”.

 

Segundo Márcia, o empenho de suas filhas, que sempre se dedicaram aos projetos sociais mantidos pelos vicentinos, foi fundamental para que sua família fosse contemplada com o imóvel. “Quando elas começaram na igreja, não sabiam nada. Aí foram aprendendo a pintar e, hoje, são professoras de pintura”, conta com orgulho. “Elas também já fizeram o curso de informática e receberam o certificado no sábado passado”.

 

O padre Fábio Roberto Chella, que participou da bênção da residência após a entrega das chaves, ressaltou o apoio mensal que os vicentinos recebem da igreja, juntamente com a Casa de Nazaré e uma creche que atende mais de cem crianças. “Os vicentinos são a extensão dos nossos braços na vida das pessoas que necessitam”, define. Segundo ele, sempre que possível, o Fundo Diocesano também repassa recursos para o grupo para ajudar na manutenção dos projetos sociais.

 

 

 

História de superação

 

A dona de casa Márcia Terezinha Mariano, 38 anos, conta que conheceu seu marido, José Aparecido de Oliveira, na época com 27 anos, quando tinha apenas 14 anos. Após três meses de namoro, os dois decidiram morar juntos. Na sequência, vieram os filhos. Segundo ela, uma das maiores tristezas de sua vida ocorreu quando, aos nove anos de idade, seu único filho homem morreu atingido por uma descarga elétrica.

 

Com muita força, com o passar do tempo, a família conseguiu superar a perda. Financeiramente, a situação também nunca foi boa. De acordo com Márcia, para sustentar os filhos, ela e o marido sempre trabalharam com a coleta de recicláveis. Apesar das dificuldades, ela se orgulha ao dizer que todos os filhos frequentaram a escola. Há sete anos, a dona de casa conseguiu realizar seu sonho de casar-se na igreja. A união civil ocorreu há dois anos, selando o amor do casal.

 

A fase de construção da moradia – que tem três quartos, sala, cozinha, banheiro e lavanderia – durou cerca de seis meses. Localizada na quadra 1 da rua Coronel Gomes dos Santos, na vila São Manoel, próximo à vila Falcão, a casa foi cedida à família com reserva de usufruto, o que impede que ela seja comercializada.

 

César Benedito Siqueira, um dos membros da Sociedade São Vicente de Paulo, associação da Igreja Católica responsável pela doação (leia mais abaixo), conta que a residência pertencia a uma senhora viúva assistida pelo grupo, que morava com um irmão de idade avançada. 

 

Com a saúde frágil, a mulher pediu para ser levada para a Vila Vicentina em troca da doação do imóvel. “O grupo ajudou ela por um bom tempo, o irmão dela faleceu e, algum tempo depois, ela faleceu. Não houve tempo de levá-la para a Vila Vicentina porque ela já estava debilitada”, revela. Com a morte dela, a promessa foi cumprida.

 

A casa, então, foi alugada para uma família, que mudou-se algum tempo depois. Enfrentando problemas de invasão, os vicentinos decidiram demolir a residência. “Aí apareceu essa família, que já era assistida por uma das conferências nossas. As duas filhas fazem parte do artesanato e do projeto de informática e são bastante atuantes na igreja”, diz.  Segundo Siqueira, a escolha da família levou em conta essa dedicação e participação nos projetos sociais da Sociedade São Vicente de Paulo. 

 

 

 

Os Vicentinos

 

A Sociedade São Vicente de Paulo é uma associação da Igreja Católica que conta com 12 Conselhos Particulares e 60 Conferências na Diocese de Bauru, nas quais atuam 460 vicentinos. Um dos grupos mais antigos é o Conselho Particular de São Benedito, localizado na Vila Falcão. 

 

Com sete Conferências, esse Conselho atende hoje 17 famílias em suas necessidades mais emergenciais, mas também as promove com cursos para geração de renda nas áreas de informática, confecção de sabão e artesanato. O grupo também faz a doação de cestas básicas. Os interessados em atuar como instrutores ou doar computadores, material de artesanato, itens para o bazar da pechincha e alimentos podem entrar em contato com o presidente do Conselho Particular de São Benedito, Antonio Carlos Zaratini, pelo telefone (14) 9758-1575 ou pelo e-mail: aczaratine@uol.com.br. O Conselho fica na rua Prudente de Moraes, 8-66, na Vila Falcão.

 

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