Polícia

Tio-avô estupra criança de 3 anos

Vitor Oshiro com Redação
| Tempo de leitura: 6 min

Com uma fralda de pano nas mãos e tentando subir nas cadeiras do Plantão da Polícia Civil estava, na manhã de ontem, uma garota de apenas 3 anos. A visível inocência contrastava com a dor dos familiares presentes no local. A pequena é mais uma das vítimas de violência sexual em Bauru. O acusado do estupro é o tio da mãe da criança que, de acordo com a polícia, confessou o crime.

Quem descobriu o fato foi uma professora da garota na última quarta-feira. Enquanto fazia a higiene pessoal da menina, ela reclamou de dor nas partes íntimas. Indagada, teria narrado que o “tio” colocava o pênis e os dedos nela. Imediatamente, a docente acionou a Polícia Militar (PM) e a mãe. Naquele dia, de acordo com os policiais, a genitora disse não saber o fato e pediu para que a avó paterna buscasse a criança na escola.

A PM descobriu o endereço da criança. Lá, ela moraria com a mãe e com o tio-avô, que foi localizado ontem quando saía do trabalho. Ele foi conduzido por policiais militares ao Plantão da Polícia Civil, onde confessou o crime.

“Ele disse que abusava da criança há seis meses. Inclusive, o último abuso teria ocorrido no dia 14 de maio”, afirma o delegado plantonista Paulo Calil, que registrou o caso. “Ouvimos ainda uma farta quantidade de testemunhas, como a professora e familiares”, complementa.

O delegado revela que, durante a confissão, o homem teria narrado a violência sexual contra a garota. “Ele disse que introduzia os dedos nas partes íntimas da criança”, conta. No boletim de ocorrência, ele conta que, no primeiro abuso, “até sangrou”.

Ainda no começo da tarde, a pedido da Polícia Civil, a Justiça expediu o mandado de prisão temporária do acusado. Ele foi encaminhado ainda ontem para a Cadeia Pública de Barra Bonita.

 

Dor familiar

Visivelmente chocados com a revelação, os familiares da criança foram ouvidos pelo delegado Paulo Calil. A mãe, uma repositora de supermercado de 24 anos, disse que nunca desconfiou de nada. “Eu trabalho em um supermercado das 14h à meia-noite e, por isso, minha filha fica em horário integral na escolinha. O tempo que sobra, eu confio sua guarda à minha tia e ao marido dela”, disse.

Questionada sobre alguma desconfiança em relação ao tio, ela nega. “Eu cresci ao lado dele; nunca imaginei que ele fosse capaz de algo assim. Estou revoltada e em estado de choque. Confiei em minha família e veja o que aconteceu”, complementa.

Ela relatou que a única anormalidade foi uma pequena vermelhidão nas partes íntimas da filha, entretanto, achou que era algo comum. “Passei uma pomada e sumiu. Achei que era reação alérgica, porque ela estava “deixando’ de usar fraldas”.

Ontem, o delegado Paulo Calil afirmou que a garota passou pelo exame de corpo de delito. Porém, o laudo não foi divulgado até o fechamento desta edição. O caso foi registrado como estupro continuado de vulnerável, cuja pena mínima é de 6 anos de prisão.

 

Denuncie

Quem for vítima de abuso ou conhecer alguém que passa ou passou por esta situação, pode acionar o Disque Denúncia Nacional pelo telefone 100. Outra alternativa é ligar para o Disque Denúncia da Polícia Civil por meio do 181. O sigilo da denúncia é garantido em qualquer um dos casos.

 

Pais: fundamentais para curar feridas

Cuidado redobrado. É isto que, de acordo com a doutora em psicologia Regina Paganini Furigo, é preciso para que as “feridas” da criança de 3 anos vítima de abuso sejam curadas. A cautela é exatamente por conta da idade da menina e, neste processo, os pais são essenciais.

“A criança, nesta faixa etária, tem apenas uma compreensão relativa do ocorrido. Ela não tem toda conotação sexual e de perversidade do que passou. É por isso que devem ser amparados os danos, porém, sem criar novos. Os pais devem tomar cuidado e não ensinar para a criança algo que ela nem tinha noção”, explica Regina Furigo, que também é coordenadora do curso de psicologia da Universidade Sagrado Coração (USC).

Ela recomenda aos pais que “tratem a criança como criança”. Desse modo, não é só a vítima que precisa de acompanhamento profissional, mas os familiares também. “A criança, nesta idade, pode passar por uma ludoterapia (terapia por meio de brinquedos) para ‘desgastar’ o acontecido. Porém, os pais precisam saber como agir. Eles não podem rotular ou superproteger estas crianças”, ressalta.

Seguidos estes procedimentos, a psicóloga é otimista em relação à recuperação total da vítima. Algo que é mais complexo quando a violência ocorre posteriormente. “Aos 6 ou 7 anos, a criança começa a entender melhor a violência sofrida. E isto, sem tratamento, pode marcá-la por toda a vida. Além de insegurança, desconfiança e agressividade, o maior prejuízo é na autoestima. Ela se sente um lixo”, conclui a psicóloga Regina Furigo.

 

‘Não consigo acreditar’, desabafa o pai da vítima

Em meio às lágrimas, o relato é do pai da vítima, que descobriu o abuso na manhã de ontem. Inconformado, o recuperador de crédito de 25 anos, que não é casado com mãe da criança, disse que a garota já se queixava de dores nas partes íntimas. “Sempre dou banho nela em casa e, às vezes, ela reclamava de dores. Achei que fosse algo sem importância, de criança, sabe? Eu perguntava se algo estranho estava acontecendo, mas ela sempre negou.”

Chorando, ele contou que teve um relacionamento de quatro anos com a mãe da criança. “Não sei o que pensar. Estou me segurando para tentar manter a calma. Não consigo acreditar que algo desse tipo poderia acontecer com a minha filha.”

 

Professores devem ficar atentos

O estupro da garota de 3 anos, que de acordo com a polícia vinha ocorrendo há seis meses, foi descoberto por uma professora da vítima. A própria mãe confirmou que ela passava grande parte do tempo na escola. Esta pode ser a mesma situação de inúmeras outras crianças e, por isso, os professores devem ficar atentos aos “pequenos detalhes”.

“Em muitos casos, a professora fica com a criança das 8h às 17h. Então, não só o corpo docente como os funcionários devem ficar atentos ao comportamento das crianças”, explica a secretária municipal de Educação, Vera Casério.

Ela explana algumas situações de mudanças de comportamento que podem revelar um possível abuso. “Aquela criança que era muito alegre passa a não brincar mais. Não participa das socializações. Algumas chegam a chorar na hora de ir embora, pois sentem a segurança na escola e não querem ir para suas casas”, aponta.

Além destes pontos psicológicos, é necessário se atentar para sinais físicos. No caso da garota de 3 anos, a professora descobriu o caso por conta de uma lesão na região íntima da vítima. “O primeiro passo é chamar a mãe. Caso a suspeita se confirme, chamamos o Conselho Tutelar. Hoje, a preocupação é muito grande com esta realidade”, conclui Vera Casério. 

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