Preguiças e Barreirinhas: passeio condiz com o nome do rio
Os macacos-prego são os primeiros a dar boas-vindas ao turista. Eles ficam ali pelo entorno do Barracão da Graça, quiosque onde, se já for o caso de almoçar, você deve escolher uma mesa e se acomodar para provar receitas da culinária local como o robalo com arroz de cuxá e o camarão pitu. Tudo muito fresco, tirado do rio a poucos metros dali.
O passeio pelo Rio Preguiças corresponde completamente ao nome, mesmo feito em voadeiras. Nos 42 quilômetros do trajeto, a graça é observar a vegetação das margens - palmeiras carnaúba, buriti e juçara (de onde se extrai o açaí), além de igarapés - e jogar conversa fora com moradores nos povoados à beira d?água. Caso de Vassouras, o lar dos macacos-prego e primeira parada.
Lá, você pode escalar uma duna de 15 metros agarrado a uma corda para admirar, do alto, uma lagoa transparente. E depois, caminhar até a Tenda dos Macacos, outro bar-restaurante cheio destes simpáticos animais, à distância de uma duna.
Com bastante disposição, a opção é seguir a pé até Espadarte, o próximo povoado ribeirinho. Ouça histórias de pescadores e aproveite para sair de lá com camarão fresco, vendido a R$ 5 um balde de cerca de um quilo.
Vencido mais um trecho pelo rio, chega-se a Mandacaru. A atração é o farol erguido em 1909. Em plena atividade, o equipamento continua a orientar navegantes a um raio de distância de 43 milhas (ou 69 quilômetros). E atrai turistas pelo mirante, a 35 metros de altura, de onde se vê o encontro do rio com o mar e as primeiras dunas do parque nacional. Um ponto e tanto para fotos panorâmicas. Mas subir exige fôlego: são 160 degraus.
Sentado à porta do farol e quase indiferente ao movimento de turistas, "seu Zé Lico", neto do primeiro faroleiro civil da região, João Resende, é o atual guardião do equipamento. Ele diz que o trabalho é tranquilo. Se esquiva do convite para subir ao mirante com um evasivo "estou trabalhando". E simplesmente continua sentado.
Caburé é a última parada da expedição pelo Rio Preguiças. Quase colada ao Oceano Atlântico, está a cerca de 300 metros do mar. Ali também existe um restaurante, na Pousada Porto do Buriti, com redes convidativas para um cochilo.
Sentido oposto
Rio acima, outro passeio leva à comunidade do Tapuio, onde cerca de 2 mil pessoas vivem da fabricação de tijolos e do cultivo de banana e da mandioca brava.
O coração da vila é a Casa de Farinha, usada por todos os moradores. José Maria Diniz, que mora no sítio onde fica a casa, explica o processo de fabricação artesanal da farinha: desde a moagem no catitu (ralador) até a desidratação no tapiti (tubo feito de palha de buriti) e a torrefação no forno a lenha.
O tucupi, outro produto feito da mandioca brava, também é tema das explicações de Diniz. Extraído do processo de desidratação da mandioca brava, o caldo só pode ser usado na culinária depois de muito bem cozido, para eliminar o ácido cianídrico, tóxico, de sua composição. Daí o "brava" no nome Diniz fala ainda da importância da farinha de mandioca na dieta e na composição da renda dos moradores do povoado.
Em Marcelinas, a próxima vila no roteiro, a atração é o artesanato produzido pelas mulheres que moram ali. Com seus teares e mãos habilidosas, elas fabricam acessórios usando como matéria prima as fibras da palmeira buriti.
A responsável pela Casa das Artesãs, Sônia Batista Cabral, guia a visita. A demonstração começa na extração da matéria-prima das árvores - ela garante que se respeita um período de descanso de três meses para cada planta. Segue com a coloração das fibras com o uso de substâncias extraídas do urucum e do sururu. E o visitante ainda pode se sentar ao lado das artesãs para ver como transformam tiras de fibra disformes em artigos de moda praia.
Depois, é claro, vem a lojinha. Aproveite para comprar ali lembrancinhas - os artigos são vendidos por preços que variam entre R$ 5 e R$ 20.
Praia de Caburé vai acabar
Meros 300 metros separam o Rio Preguiças, à esquerda, do Oceano Atlântico, à direita. Na faixa de areia que fica no meio, a tranquila Praia de Caburé, dentro do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, sobrevive como pode. E convive serenamente com a certeza de que, daqui a alguns anos, não estará mais ali.
O prognóstico é da Universidade Federal do Maranhão. Caburé existirá pelos próximos cinco anos, aproximadamente. E a fatalidade não tem nada a ver com o aquecimento global. Os pesquisadores chegaram à conclusão de que o destino da praia se deve a um processo erosivo natural. Faz pelo menos 40 anos que o mar avança lentamente em direção à margem do rio. Gerente de uma das pousadas da vila, Enoque Lima recorda que, durante sua infância, a distância entre o mar e o rio era bem maior. "Tanto que dava preguiça de ir andando", diz.
A pousada de Lima já teve de mudar de lugar algumas vezes. Não apenas para escapar do avanço das águas, mas também pelo movimento das dunas, que pouco a pouco soterram as construções. Mas, ao contrário do esperado, ele conta tais histórias sem tristeza. Acredita que se trata apenas da natureza seguindo seu curso.
Enquanto a praia ainda está lá, suas águas escuras e calmas são ótimas para quem quer sossego e calmaria. As pousadas locais são simples e a energia elétrica que alimenta todo o povoado é mantida por gerador. Durante a noite, o equipamento é desligado, criando o ambiente ideal para longas sessões de observação da lua e das estrelas. Diversão? Sim, existe: animadas rodas de viola formadas pelos pescadores da região recebem muito bem os turistas que quiserem se aproximar para uma cantoria e um dedo de prosa.