Numa rica cidade do interior havia um padre sem paróquia, mas muito inteligente, multimidiático e influente. O padre era formado em várias faculdades, falava e escrevia em diferentes idiomas, mas lhe faltava a compreensão de que o país em que vivia era laico ("que ou aquele que é hostil à influência, ao controle da Igreja e do clero sobre a vida intelectual ou moral, sobres as instituições e serviços públicos", segundo Houaiss), o que não permitia e não aconselhava o envolvimento religioso em assuntos que não fossem do clero. Esta falta de entendimento levava o padre a se meter onde não devia, o que o tornava às vezes uma pessoa inconveniente, pois ele falava de coisas sem conhecimento de causa. Isto causava um constrangimento tanto para a Igreja como para a sociedade.
Com certeza o padre teria condições de se manifestar, por exemplo, sobre os lamentáveis escândalos relacionados aos abusos sexuais cometidos por pessoas pertencentes à sua instituição, pois seria, ou deveria ser de sua alçada, até porque estes fatos são públicos e muito debatidos. Mas de todo inaceitável que o padre viesse a pronunciar-se e tomar partido sobre casos criminais, submetidos ao Poder Judiciário, e envolvendo pessoas da sua comunidade. Um dia, nesta mesma rica cidade do interior, as pessoas acordaram assustadas com a terrível notícia de que haviam sido praticados horrorosos crimes contra a dignidade sexual, tendo como vítimas crianças de uma mesma família e como acusados os pais delas.
O tal padre então provou que era dado a bedelhar, pois se imiscuiu neste assunto, dizendo da leviandade de gente que apontava os pais como autores dos crimes hediondos, saindo em defesa dos acusados, como se advogado deles fosse. E enquanto o padre falava disso, uma voz forte veio, não se sabe bem de onde, e bradou: "Padre, por que não te calas???"
Evandro Dias Joaquim