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A guerra no futebol

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

Arriscar a vida é excitante. O homem ama o combate. O desejo de violência do homem, em particular seu desejo de violência coletiva, seu lado animal, de rebanho, só se satisfaz com o confronto. Como não temos guerra e nem revolução no Brasil, seria necessário ao povo encontrar um canal de escoamento para esse desejo de violência. Um dos pais da sociologia, Auguste Comte (1798-1857), cujo pensamento teve papel importante na formação deste país, dizia que na era industrial esse embate deveria acontecer na área econômica. A concorrência comercial, no entanto, pode ser excitante para uma parte ínfima de empresários ou executivos que participam dos investimentos. Eles brigam pelos lucros. Diferente de uma guerra física que aumenta a taxa de adrenalina não só dos generais como também dos simples soldados.

Aqui no Brasil, terra de "ordem e progresso", segundo o lema positivista de Comte, a maior "guerra" que tivemos foi a de Canudos (1893), que Vargas Llosa romanceou em "Guerra do Fim do Mundo". Na verdade, uma rebelião de famintos no sertão da Bahia, tida como uma revolta antirrepublicana que precisou de três expedições com canhões e mais de cinco mil soldados para ser contida. Vinte e cinco mil maltrapilhos liderados pelo beato Antonio Conselheiro, fugidos dos latifúndios vizinhos se organizaram em uma comunidade autônoma. Euclides da Cunha, em Os Sertões, descreve dramaticamente essa revolta dos miseráveis. Segundo o autor, o desfecho da guerra encontrou apenas quatro sobreviventes em Canudos: "Um velho, dois homens feridos e uma criança, à frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados". Antonio Conselheiro, morto e enterrado pelos seus seguidores, foi exumado para ter a cabeça cortada.

Hoje não temos mais enfrentamentos com forças republicanas ou ditatoriais pelo desejo de liberdade. No campo econômico muito menos. Os empregos existem, os salários têm poder de consumo, o crédito é fácil e cada vez mais barato. Seria necessário encontrar um canal de escoamento para esse desejo de violência. E parece que o encontramos no futebol. Esse esporte permite a praticantes e assistentes uma liberação de adrenalina real, embora menos poderosa que a de uma guerra armada. Oferece um suspense claramente mais forte do que o de qualquer filme imaginável, enquanto a guerra real é na maioria das vezes relativamente entediante. Vide Iraque, Afeganistão, Síria.

O futebol permite a reconstituição da identidade nacional lúdica - "a pátria de chuteiras" -, porque temporária e facultativa. Portanto, tem um caráter de distração, na medida em que a identidade clubística substitui as frustrações da democracia, "o pior dos regimes, exceto os outros", segundo Churchill. Mas, é o que de melhor soubemos inventar.

Dizem que Woody Allen pensa em filmar no Brasil, a exemplo do que fez na Espanha (Vicky Cristina Barcelona), na França (Meia-noite em Paris) e agora na Itália (Para Roma com Amor). A cidade brasileira a ser focalizada seria o Rio, com seus cartões postais. O roteiro satírico de Allen, sempre inusitado e por vezes surreal com toda certeza incluiria o futebol. Imagino o diretor, que também trabalha como ator, saindo do estádio perdido na multidão em meio a fumaça e sem entender porque torcedores com a mesma camisa brigam entre si se o seu time ganhou. Esse realismo fantástico é comum no Brasil. Corintianos ganham a Taça Libertadores e ainda saem quebrando tudo. Enfrentam balas de borracha e o gás lacrimogêneo da polícia.

Dizem os sociólogos franceses que o processo de "atomização social" está a ponto de atingir seu estágio final. Está em regressão aquele indivíduo alienado que basta-se a si mesmo, em vez de se unir numa classe social, como queria Marx. O brasileiro encontrou um substituto ideológico na união em torcida organizada. Fanáticos compõem um conjunto magnífico quando cantam e executam coreografias ensaiadas nas arquibancadas. Uma obra de arte coletiva. Pena que esse processo criativo dure só os 90 minutos de uma partida de futebol. Quando muito, os torcedores ainda ensaiam uma baderna na dispersão, depois do jogo. Woody Allen vai encontrar bons argumentos no realismo fantástico do futebol, para uma comédia de costumes sobre o Brasil.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC

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