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O perigo do pedestre tecnológico

Archimedes Azevedo Raia Jr.
| Tempo de leitura: 3 min

É comum ver-se nas ruas, no dia a dia, pessoas, principalmente jovens, usando aparelhos eletrônicos, tais como celular, iPod, aparelhos do tipo MP3, etc. Constata-se que estes jovens se deslocam pelas vias, acessam e saem do transporte coletivo, atravessam ruas, caminham pelos passeios e praças, completamente envolvidos no som dos seus fones de ouvido. É como se não houvesse nada ao seu redor.

Pessoas passam ao lado umas das outras sem serem percebidas. Chiara Lubich, uma das grandes pensadoras dos tempos modernos, sempre foi enfática: ninguém deve passar em vão ao lado das outras. Cada ser humano é único e deve ser acolhido e não ignorado. Isto é fundamental para a construção de uma sociedade mais humana e fraterna. Um sorriso, um bom dia, um olhar afetuoso faz bem a quem dá e a quem recebe.

Esta "ausência" talvez seja uma das características da juventude do início do século XXI. Há educadores que criticam esta postura da juventude, que permanece alheia a tudo que se passa em sua volta. Não percebe uma pessoa que está ao seu lado, quase tropeça em um mendigo sentado no chão, nem olha para aquele ipê roxo totalmente florido, devido à primavera, ou uma nova construção que se eleva naquele lote que dias atrás estava desocupado.

Devido aos avanços da tecnologia, o pedestre tem às mãos, em seu próprio celular, diversas possibilidades que são sensacionais, quando usadas em momento adequado: o telefone, o jogo eletrônico, o SMS, a internet, etc. No entanto, todo esse avanço, além da questão antropológica, apresenta outra faceta nebulosa, a insegurança no trânsito.

Há décadas atrás, o tipo de pedestre que apresentava maior risco de ser atropelado era outro: o idoso, com visão reduzida ao atravessar uma via; uma senhorinha carcomida pela idade com seu andar vagaroso; ou ainda uma criança sem discernimento maior dos perigos do trânsito.

No entanto, esta realidade mudou significativamente. Hoje, os pedestres que apresentam potencialmente maior risco de serem atropelados são os jovens. Uma pesquisa foi desenvolvida no Hospital Infantil da Universidade de Maryland, nos EUA e publicada na revista britânica Injury Prevention (janeiro de 2012). Ela apontou que, entre 2005 e 2011, triplicou o número de pessoas mortas ou feridas e que ouviam sons em seus auriculares pelas ruas das cidades.

A pesquisa apontou ainda que a maioria das vítimas era composta de homens (68%) e com idade inferior a 30 anos (67%). Em 74% dos casos, as vítimas estavam usando os fones de ouvido no momento do acidente e que não reagiram ao acionamento das buzinas. Procurou-se comprovar como é perigoso ficar privado de um dos sentidos, a audição, nos deslocamentos do trânsito. "Ás vezes, a audição é mais importante do que a visão nesses casos" comentou um dos pesquisadores.

Trata-se de um risco que correm jovens e adultos jovens, os quais têm sido denominados pelos pesquisadores como "pedestres tecnológicos". Para o Dr. Richard Lichenstein, um dos autores da pesquisa, a causa mais provável desses atropelamentos é devido à distração e privação sensorial que proporciona o uso desses auriculares. Eles não permitem ouvir sons externos, que são fundamentais para a segurança na via.

Assim, a sociedade tecnológica hodierna vai produzindo seus efeitos colaterais indesejáveis. Em primeiro lugar, a insensibilidade desses jovens, que se tornam mais frios no relacionamento com as pessoas e o risco que elas se autoproduzem ao se deslocar pela cidade completamente desplugadas da realidade, principalmente, daquela relacionada ao trânsito moderno. E isto pode ser fatal!

O autor, Archimedes Azevedo Raia Jr., é engenheiro e doutor em Engenharia de Transportes, coordenador do Núcleo de Estudos em Trânsito, Transportes e Logística, professor da Universidade Federal de São Carlos e Diretor de Engenharia da Assenag-Associação de Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos de Bauru. E-mail: raiajr@ufscar.br

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