O mesmo colégio, a mesma classe, a mesma série. A mesma faculdade, a mesma turma, a mesma sala. O mesmo estágio, o mesmo "TCC" com fundamentações e práticas específicas, onde passei a ela os meus relatórios e ela os seus a mim, pois eram trabalhos complementares e longos. A mesma crença em Jesus Cristo, Senhor e Salvador de nossa vidas.
Morávamos na mesma rua (éramos vizinhas), as mesmas caronas, a mesma Kombi, o mesmo tipo de roupa (anos 60). Em 1964 (época de Revolução), esvaziamos a biblioteca da faculdade, escondendo tudo em carros (algumas já possuíam), pois era material considerado "subversivo". Fomos desbravadoras e corajosas, sempre lutando pela política da assistência social com direito, e não com "benesses".
Certa vez, tremendo de medo, fomos, durante a noite, num local abandonado, conhecer as apostilas escritas por Paulo Freire. Isso era proibido e poderíamos, inclusive, termos sido presas, como aconteceu com uma supervisora nossa. Mas como isso era importante para nós! Formamo-nos juntas e ingressamos no mesmo ano em serviços públicos similares, ela em nível municipal e eu no âmbito estadual.
Fomos pioneiras, pois juntas executamos o mesmo Plano Municipal de Promoção Social para Bauru, que culminou com o surgimento da Sebes. Na vida particular, amigas e confidentes, namoramos e nos casamos na mesma época e tivemos três filhos. Participamos da trajetória da assistência social no município de Bauru, o que nos proporcionou, em 1977, escrevermos um livro, juntamente com mais cinco colegas.
Participamos de cargos de direção, assessoria e supervisão trocando ideias sempre, lutando juntas para a profissionalização do serviço social e desfrutando de cargos de confiança nos Conselhos Municipais da Assistência Social e da Criança e Adolescente. Fomos protagonistas da assistência social em Bauru, procurando superar desafios e prosseguir avançando.
Ela foi muito mais corajosa ? continuou até 2012 construindo e ensinando novas práticas no enfrentamento da pobreza, exclusão e subalternidade das populações. Eu me aposentei definitivamente bem antes dela, mas sua aposentadoria, no final no dia 24 de junho, nos traz à memória fatos passados, podendo analisar o presente, prever o futuro e já vislumbrando o legado deixado pela assistente social Egli Muniz, a quem eu sempre "tirei o chapéu" e lhe daria, sem sombra de dúvida, o título de "assistente social pioneira exemplar de Bauru e região".
A primeira grande contribuição à cidade de Bauru, através de alunas e supervisoras da Faculdade de Serviço Social (ITE), foi a pesquisa realizada nas vilas periféricas do município, por solicitação da prefeitura, visando estabelecer convênio com o Banco Nacional de Habitação para a implantação dos primeiros núcleos habitacionais para as classes populares. Das 18 alunas convidadas, estávamos juntas participando e realizando estudo socioeconômico de 28 bairros do município. Após essa pesquisa, instalou-se em Bauru a Cohab. Salvo engano, Egli era nascida em Duartina, mas era autêntica "cidadã bauruense" e hoje cidadã do Céu, com toda a certeza.
Osny Machado Neves