Regional

Vila de Jaú vira ?point? gastronômico

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 13 min

Visitar Pouso Alegre de Baixo é um privilégio. Tem história vista a olho nu, uma igrejinha no alto da entrada do distrito, casas centenárias, pessoas simples e muita comida típica.


O bom é que o distrito fica a pouco mais de 50 quilômetros de Bauru, distância que dá para percorrer em menos de uma hora.


Chegar à antiga fazenda que é conhecida como vila de Jaú, partindo de Bauru, não é bicho de sete cabeças. Basta seguir pela rodovia comandante João Ribeiro de Barros, mais conhecida por Bauru/Jaú. No trevo de entrada de Jaú, siga a esquerda, sentido Araraquara até a primeira entrada para Bariri.


Já na estrada Leônidas de Almeida Prado siga em frente: são cerca de seis quilômetros até a entrada de Pouso Alegre de Baixo.


A estrada Leônidas de Almeida Prado é de pista simples. O asfalto está ruim, mas vale a pena enfrentar os buracos para chegar nesse centro regional da gastronomia. Você vai perceber que não errou quando fizer o trevo e ver a capela de Santa Luzia, imponente e bela.  



História saborosa


Pouso Alegre era uma fazenda em 1830 e, quando o povoado começou, passou a ser chamada de Pouso Alegre lá de Baixo - até porque havia à época outro bairro rural chamado Pouso Alegre. É considerada uma das primeiras ocupações da região.


As ruas ainda são de paralelepípedos e de terra, o que ajuda a compor uma paisagem bucólica.


Se o visitante chegar no período da manhã, vai encontrar alguns moradores sentados em bancos de madeira em frente às suas casas. São pessoas da roça que contam causos interessantes sobre a vida no campo de onde eles vieram. São 500 moradores - número que triplica nos finais de semana e feriados por conta da gastronomia.


A população flutuante chega aos 1.500, calculam os moradores.


Vale lembrar que, depois de enfrentar os cerca de seis quilômetros em pista simples e esburacada, o visitante fica sem comunicação com o mundo exterior. Banda larga tem sinal péssimo.


 Pouso Alegre de Baixo mantém o sossego, sua marca registrada. Está cada vez mais na agenda daqueles que apreciam o prato mais concorrido e que, hoje, está presente em lugar de destaque nos quatro restaurantes: a leitoa pururuca. Mineiro ou caipira, o prato tem atraído milhares de pessoas ao bairro rural que, em 2009, entrou para o calendário turístico cultural com o Festival Caipira e com o Carnaval de Mamulengos, segundo a secretaria de Cultura de Jaú. Inovar e oferecer o melhor ao visitante é o desafio que a vila se impõe para rechear sua trajetória de delícias e, claro, apreciadores.

 

Cliente: sente-se e sinta-se à vontade

Paraíso da carne suína também revela outros atrativos que fazem a alegria de visitantes da região no bairro rural

Para quem tem apetite de sobra e aprecia carne suína, Pouso Alegre de Baixo é um verdadeiro paraíso. Um bom gourmet faz a festa. São quatro restaurantes onde também se aprecia polenta frita, picanha, costela, peixe e os já famosos frango e leitoa pururuca (ou à passarinho).


Não há chefs famosos e premiados. Em Pouso Alegre de Baixo, a comida é simples, saborosa e feita com carinho. Os cozinheiros aprenderam na prática. Eles não abrem mão dos “segredinhos” que tornam o prato um dos mais conhecidos da região.  Fazem aquilo que sabem e agradam pelo estômago. O preço é outro atrativo: os pratos básicos somados aos acompanhamentos, sem bebida, custam de R$ 20 a R$ 25,00 por pessoa.


O precursor da leitoa a passarinho foi José Manzatto, pai de José Roberto Manzatto, conhecido em toda a região como Polaco há mais de 30 anos. Manzatto pai, que também era conhecido como Polaco, tinha um bar no local e começou a realizar torneios de truco. Os participantes chegavam de várias cidades. Quem perdia o jogo, pagava a janta.


“Eles começaram a pedir para meu pai fazer uma leitoinha, um franguinho. O restaurante nasceu aí. Herdei dele a receita e o apelido. Há 20 anos que eu toco o restaurante. O negócio expandiu.”



Em todas as fases


Para ele, que mantém fixo o cardápio, com variação apenas aos domingos, a leitoa e o frango a passarinho realmente agradam.


“Uso 150 leitoas ao mês, aproximadamente 40 por semana. Nosso prato leva frango e leitoa a passarinho, arroz com bacon, salada e polenta frita. Aos domingos, servimos maionese e macarronada.” Polaco acredita que num final de semana atenda cerca de 1 mil pessoas.


“Tivemos que instalar dois estacionamentos para acolher os veículos de fora. Recebo gente de Jaú. Ibitinga, Barra Bonita, Bauru e da Capital. Clientes não tinham como estacionar. A vila é pequena.” Para ele, o segredo da leitoa a passarinho ficar sequinha, bem temperada e agradar tanto os consumidores começam na escolha do animal.


“A leitoa tem um tamanho ideal para ser feita a passarinho. Eu tenho um fornecedor que não é da região. Eu vou até o local e escolho. Depois levo para o abate. Eu vejo a leitoa em pé, abatida e nos tachos, fritando.”


Preço do sucesso

A vila ficou conhecida como o centro gastronômico da região e o precursor da leitoa já sofre com a falta de mão de obra especializada. “Em breve vamos ter que importar mão de obra especializada. A chegada de outros restaurantes dividiu o pessoal por aqui,” explica Polaco.


Imóveis para locação comercial? Não tem. “A vila é muito residencial. Não há salões para locação. Para montar algum negócio aqui seria mesmo necessário construir. Para mim a concorrência é boa porque atrai cada vez mais gente a Pouso Alegre de Baixo. Estamos treinando pessoal para manter a qualidade sempre preservada”, comenta.


Vai lá - Polaco


Rua José Bolete, 70, Pouso Alegre de Baixo/Jaú

Telefone: (14) 3623-1112

 

Consumo de carne suína supera os 900 quilos por semana

São quatro restaurantes que têm como prato principal a leitoa. Para que o leitor tenha uma ideia do consumo, buscamos os números. No restaurante do Polaco são cerca de 400 quilos por semana, uma média de 40 leitoas com aproximadamente 10 quilos cada uma. No Mirante do Pouso a média é de 320 quilos de leitoa, 70 quilos de picanha e 60 quilos de peixe.


No restaurante do Codatto o consumo de carne suína semanalmente atinge os 160 quilos. No Restaurante Dendo, são 50 quilos.

 

Caminho da mesa: leitoa  pede passagem em forma de porções irresistíveis

O Restaurante Codatto  já tem história. Está instalado em Pouso Alegre de Baixo há 13 anos. No local já funcionou outro restaurante, que servia frutos do mar. À época, o atual proprietário, Deusdete Codatto, trabalhava em outra área, mas quando surgiu a oportunidade da compra, ele não pestanejou: adquiriu o local e mudou o cardápio.


“Eu cheguei a trabalhar no restaurante de frutos do mar. Havia demanda, mas não era tanta e o antigo dono desistiu. Eu comprei e passei a fazer a leitoa e o frango a pururuca. Atualmente, distribuímos senhas aos domingos porque a frequência é grande e nosso espaço é para 170 pessoas.”


Para ele, o segredo do prato mais procurado está no fazer. “A diferença está na maneira de cortar, temperar e fritar. Trabalho com seis tachos, cada um em uma temperatura. Se usar um único tacho, a leitoa fica crua, encharcada de óleo e com uma aparência escura, não muito boa”, ensina.


O diferencial está no atendimento, garante o comerciante. “Temos área de estacionamento com árvores, jardim, loja de conveniência e fonte com peixes. Atendo todo mundo bem. Ofereço opções para quem não consome carne suína. Tenho o costelão no bafo, que também é bastante procurado. E tenho a picanha.”


O costelão do Codatto é algo à parte: derrete na boca e vem acompanhado de salada, farofa, feijão e arroz com bacon. “A costela é temperada antecipadamente, fica marinando, depois é feita em churrasqueira a bafo de carvão e não no gás. O ponto de retirar do bafo é o segredo, tem que estar derretendo e com tempero” comenta.


O prato é bastante pedido e semanalmente o Codatto compra cerca de 160 quilos. “Meu fornecedor é de Jaú. Não é o prato mais vendido porque a leitoa e o frango superam, mas está em terceiro lugar na preferência dos clientes.”



Vai lá - Restaurante Codatto


Terça a sábado: almoço e jantar


Domingo: almoço


Rua Antonio Antoniassi, 290, Pouso Alegre de Baixo, Jaú/SP

 

Na visão de quem mora no vilarejo

Pouso Alegre de Baixo conseguiu, graças à leitoa pururuca, atrair espontaneamente muitos   visitantes. Mantém o sossego, mas algo mudou. Tinha muito terreno, hoje tem muitos imóveis, diz o aposentado José Santo Josepim, 66 anos.


Para ele, embora a população triplique nos feriados e finais de semana, o sossego está garantido. Vem muita gente. Mas eles comem e vão embora, não incomodam em nada. O trânsito continua tranquilo.


O criador do primeiro site sobre Pouso Alegre de Baixo é Antonio Luiz Vendramini, mais conhecido por Giggio, um descendente de italiano que mora há nove meses em um sítio. “Vivi 35 anos em São Paulo. Aqui tem muitos atrativos, mas precisa melhorar a infraestrutura para receber o turista. Eu tenho tentado algumas coisas, mas encontro barreiras. Estou encabeçando um abaixo-assinado para a instalação de uma antena de celular e os moradores resistem em assinar. O caso está no Ministério Público.”

Sobre a estrada de acesso, ele diz que há promessa do governo estadual em fazer o recape. “A licitação era para ser feita em junho. Foi adiada para outubro. Se for concretizada, as obras devem acontecer entre novembro e dezembro”. Ele compara Pouso Alegre de Baixo com Santa Felicidade em Curitiba. “Não em tamanho. As duas têm origem italiana. Lá eles estão preparados para receber o turista. Aqui, precisamos formá-los.”

Sonho real: ter o negócio próprio

Com um sonho na cabeça, Sidney Miranda, 39 anos abriu este ano um restaurante em Pouso Alegre de Baixo.


Nascido e criado no vilarejo de Jaú, ele trabalhou por 24 anos na cozinha e na gerência do restaurante mais antigo do bairro. “Meu sonho sempre foi tocar um comércio próprio. Apareceu um sócio que levantou a estrutura para mim e eu estou trabalhando. Tenho know-how na área. Nosso diferencial é a estrutura, pronta em maio deste ano. O prédio foi construído para abrigar um restaurante. Tem em torno de 50 mesas e acomoda aproximadamente 340 pessoas.”


Para que o cliente não desista da espera, ele criou, como nos grandes restaurantes da Capital, o corredor de espera. “Na varanda, os clientes aguardam uma mesa. Tem bancos e mesas de madeira, onde ele pode ir tomando um aperitivo e degustando uma entrada até chegar sua vez. Acomoda até 50 pessoas.


Embora em Pouso Alegre de Baixo não falte espaço para estacionar e nem tenha problemas de segurança, Mirando construiu uma área de estacionamento para conforto do cliente. “Temos um estacionamento privado, sob as árvores que foram preservadas.”


Porém, toda a estrutura física do restaurante batizado de Mirante do Pouso não significaria  nada se a comida não correspondesse. “O segredo do nosso cardápio é o carinho. Trabalhamos em família e temos nosso jeito próprio de cortar a leitoa, deixando no tamanho que agrade o consumidor e para que fique com tempero adequado ao paladar dele.”


Para acentuar o tempero, Miranda diz que deixa a leitoa por uma semana com todos os ingredientes. “A leitoa fica no tempero por 10 dias mais ou menos. Tem que ficar bem curtidinha. Eu tempero e congelo em pacotes de três quilos. Depois vou descongelando e fazendo para deguste dos clientes.”


Os pratos mais pedidos são a leitoa e frango a passarinho, mas o restaurante oferece outras opções. “Temos a picanha e o filé de tilápia”. A leitoa e o frango são acompanhados de arroz com bacon, salada e feijão, de terça a sábado. No domingo, a salada de alface e tomate dá lugar à maionese. A macarronada e a farofa são acrescentadas ao cardápio. A polenta frita também é servida.”


Aos domingos e feriados é aconselhável que o visitante de primeira viagem faça reserva ou chegue até 11h30. “De terça a sábado servimos jantar.”



Vai lá - Mirante do Pouso


Rua Olindo Sorani, 150 Pouso


Alegre de Baixo/Jaú


Telefone: (14) 3623-1533

Leitoa e frango ‘dançam’ em vários tachos

Para ficarem cozidos por dentro e crocantes por fora, tanto o frango quanto a leitoa “dançam”  em vários tachos de óleo. O primeiro deles cozinha as carnes de dentro para fora. O último, em torno de 180 graus, é o responsável por pururucar o couro do suíno.

Opinião de quem prova e aprova

O microempresário jauense Rodrigo Cassaro não dispensa uma boa comida e procura Pouso Alegre de Baixo com frequência. “Faz 10 anos que venho aqui com minha família. É tranquilo, tem comida boa e o preço é bom.”  


O cabeleireiro Joacir Carlos Colonhezi e sua, mulher Isabel Cristina M. Colonhezi, moram em Bauru, mas não se furtam de juntar a família para comer um frango e leitoa a passarinho em Pouso Alegre de Baixo. “Servem bem e o preço é compensador”.

 

Restaurante  instalado em sítio familiar

Para chegar ao Restaurante do Dendo não tem segredo, ele está instalado logo na entrada de Pouso Alegre de Baixo e uma grande placa indica a estrada de terra que leva ao sítio. Há oito anos no mercado, Thomáz Gomes Monteiro Jr. (Dendo), 49 anos e filho de bauruenses, admite que resolveu montar o restaurante na “cola” do Polaco.


“O Polaco é o precursor. Percebi que a frequência era grande e muitos clientes ficavam esperando em filas. Abri o meu, assim como outros dois que também se instalaram por aqui. Eu acredito que ainda vai abrir mais restaurantes na vila porque se tornou um centro gastronômico regional.”


Para não ficar só com os pratos tradicionais, o comerciante inovou. “Eu tenho peixe, picanha e faço porco no rolete para turmas pré-agendadas. Para isso criei um espaço privativo para festas, fica próximo do tanque de pesca que funciona só no verão. No inverno eu fecho os tanques porque o cliente fica bravo se não conseguir pescar”, explica.


Para dar atrair os clientes com filhos menores, ele criou espaços diferenciados. “Tenho mesas embaixo de frondosas árvores onde as crianças podem brincar. Temos carneiro, porco, galinha, pavão, pato, ganso, peru e um mini-pônei para as crianças que não conhecem esses animais.”



Com a natureza


A ideia do comerciante deu certo. Muitos frequentadores optam pelo espaço para que as crianças entrem em contato com a natureza e brinquem com os animais.


O guia turístico Valdeci de Oliveira leva turistas de Jaú até a vila para apreciarem a leitoa e o frango a pururuca. Quando chega o final de semana, ele volta lá, desta vez para levar a família e fazer a alegria da neta, Maria Eduarda Gabina de Paula, 4 anos.


“A comida é boa, o preço agrada e minha neta fica feliz porque brinca com os patos e gansos que vivem soltos”, resume.  


“A tendência é a vila receber outros investimentos na área gastronômica, me parece que este ano vai abrir mais um. Todos na mesma linha porque as pessoas vem para cá para comer frango e leitoa, arroz com bacon, polenta frita”, retoma Dendo.  



Frango, quiabo...


Dendo ressalta que com reserva antecipada é possível fazer outros pratos.


“A rabada com polenta, o frango com quiabo e outros pratos da cozinha caipira. Nosso feijão é comprado direto do produtor de Poços de Caldas. A sobremesa é cortesia que vem da mesma cidade, doce maravilhoso. Temos também pinguinha do engenho do Bessi, produção de Pederneiras.”


O espaço é para 160 pessoas ao mesmo tempo e funciona de terça a domingo. “Também temos o filé de tilápia. Nossa leitoa e frango também são fritos em tachos. Eu trabalho com oito e consumo uma média de 50 quilos de leitoa/semana.”

 

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