Polícia

Fio é usado para estrangular vítima

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 4 min

Antônio de Fátimo da Silva Inhesta, 58 anos, trabalhava como porteiro em um motel, levava uma vida pacata e era considerado uma pessoa tranquila por amigos e colegas de trabalho. De maneira assombrosamente inesperada, ele foi estrangulado com um fio de ferro de passar roupa e morto dentro de sua casa, na madrugada de ontem, em Bauru. Como pertences da vítima foram levados do local, a polícia trabalha com a hipótese de latrocínio, mas não descarta que o crime venha a se configurar em homicídio seguido de furto.

Inhesta era homossexual, mas não há indícios de que a morte tenha ocorrido por homofobia.

A vítima morava sozinha em uma quitinete da rua Demétrio Arieta, no Jardim Carolina. Na madrugada de ontem, um homem teria sido visto saindo do imóvel, horas depois de uma acalorada discussão que foi ouvida por vizinhos. O suspeito teria deixado o local carregando algumas sacolas, a bordo do carro de Inhesta, um Renaut Clio de cor branca.

Em seguida, moradores acionaram a Polícia Militar (PM), que encontraram a porta do apartamento trancada. Com a ajuda de um chaveiro, o imóvel foi aberto por volta das 7h e o corpo do porteiro, encontrado no chão do quarto, ainda fio de ferro atado ao pescoço.

“O cômodo estava todo revirado, o que indica que houve luta corporal entre vítima e o autor do crime, que muito provavelmente se conheciam”, adianta, com cautela, o delegado Kleber Granja, titular da Delegacia de Investigações Gerais (DIG), que apura o caso. Até o momento, nenhum suspeito foi preso. Além do Renault Clio, ele teria levado um aparelho celular e cerca de R$ 1 mil que a vítima utilizaria para pagar aluguéis atrasados.

Granja destaca que farto material foi recolhido do local para análise, como meio para tentar identificar o responsável pela morte. “Também coletamos diversas informações testemunhais e o que posso dizer é que as investigações estão bem adiantadas. Nosso objetivo é esclarecer o caso o mais rápido possível”, frisa.

 

Pessoa do bem

Segundo familiares e conhecidos, Inhesta levava uma vida pacata. Trabalhava em um motel da cidade no período da tarde e noite e, no caminho de volta para casa, costumava frequentar  um bar onde conhecia parceiros eventuais.

“Ele bebia socialmente, era uma pessoa do bem, sem vícios e muito tranquila. A única coisa que ele tinha de diferente era que gostava de se relacionar com homens bem mais novos”, relata uma amiga, que conhecia a vítima há mais de 20 anos. “Ele era uma pessoa maravilhosa e sempre me ajudava”, completa.

De acordo com ela, Inhesta tinha pouco contato com os três irmãos e morava sozinho desde a morte de sua mãe, há cerca de cinco anos. Recentemente, estava se relacionando com um rapaz, mas o envolvimento, segundo a amiga, não era sério.

Um dos irmãos, Geraldo Antonio Inhesta, 59 anos, esteve na cena do crime e disse estar chocado com a forma brutal com que Antonio foi morto. “Fomos todos pegos de surpresa. A gente não tinha muito contato com ele, mas ele era trabalhador. Ninguém esperava que algo desse tipo pudesse acontecer”, afirma.

O corpo de Inhesta está sendo velado Centro Velatorial no Cemitério da Saudade e será sepultado ainda hoje, no Cemitério do Jardim Redentor.

 

Caso Evelyn: tentativa de homicídio? Não mais 

O comerciário Carlos Augusto Jeronymo Pinto, 31 anos, não está mais sendo processado por tentativa de homicídio. Em fevereiro deste ano, ele agrediu brutalmente a travesti Evelyn, cujo nome verdadeiro é Erik Ribeiro, 20 anos.

Além de ser espancada, esfaqueada no pescoço e nas costas, ela foi abandonada em um matagal na Vila Viação B, em Bauru, depois de acertar um programa com o comerciário por R$ 50,00. Mas, por decisão do juiz Ubirajara Maintinguer na 4ª Vara Criminal de Bauru, o crime foi desclassificado de tentativa de homicídio para lesão leve, que prevê pena de três meses a um ano de prisão.

“O crime atribuído ao acusado não era um crime contra a vida, já que a tentativa de homicídio não foi comprovada”, resume. O entendimento, segundo apurou o JC, foi de que os ferimentos provocados na vítima foram superficiais. A vítima, entretanto, ainda poderá recorrer da decisão.

 

‘Não houve homofobia’

As investigações da Polícia Civil de Bauru já estão adiantadas e tudo leva a crer que o assassinato de Antônio de Fátimo da Silva Inhesta não será caracterizado como crime de ódio.

Tem a mesma convicção o presidente da Associação Bauru pela Diversidade (ABD), Rick Ferreira, que acredita que o caso não tenha sido provocado por prática de homofobia.

“Pelas declarações das testemunhas e por todas as evidências que a polícia já tem em mãos, a morte do Antonio nada tem a ver com crime homofóbico. É algo muito diferente do que ocorreu, por exemplo, com a (travesti) Safira (executada com cinco tiros, no início do ano, nas imediações da avenida Nações Unidas)”, observa.

Rick revela que Inhesta não era conhecido da ONG e não frequentava a casa noturna da qual é proprietário.

“Talvez ele tivesse dificuldades para se aceitar e isso pode tê-lo feito procurar pessoas para se relacionar em locais não muito confiáveis. Ele pode ter levado um criminoso para dentro de casa”, diz.

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