São oito horas da manhã e M. se prepara para tomar o ônibus rumo a Campinas, onde tentará retomar a vida e arrumar um trabalho na construção civil. Aos 45 anos, leva nas costas muito mais que o peso da pequena mochila com algumas trocas de roupas que recebeu de volta após passar mais uma noite em albergue.
Natural de Aquidauana, Mato Grosso do Sul, mas com família residente em Bauru, diz que não quer ficar na cidade, ao menos por enquanto, por desentendimentos com parentes. As idas e vindas também estão marcadas no corpo, crivado de tatuagens. As cicatrizes coloridas denotam as diversas moradias gradeadas por onde ele passou, mas também remontam ao divisor de águas que mudou sua vida... e tirou outra. M. cumpriu 18 anos de prisão, integralmente em regime fechado, por homicídio.
Numa noite de sexta-feira, dia 5 de junho de 1992 (lembra com exatidão), viu toda a sua trajetória de vida, e a morte de outra pessoa, serem definidas, literalmente, em apenas uma tacada.
Boia-fria, trabalhava nas lavouras de cana da região. Naquele dia, como em diversos outros, colocou o facão no saco e encerrou o expediente. Entre um trago e outro em um bar do Parque Santa Edwirges, o que era para ser um divertimento se transformou em cena de sangue.
Djalma, um pedreiro moreno, na faixa dos 20 anos, era o oponente na mesa. A discórdia entre ambos por causa do jogo (e também pelos goles a mais, admite) também foi encerrada com uma tacada, lembra M. O taco de madeira quebrou na cabeça do pedreiro, que, apesar de socorrido, morreu no hospital. “Saí da cana para a ‘cana’”, relaciona o ex-presidiário.
Nas grades, crack
Para M., duas décadas depois do ocorrido (sem mais nenhuma passagem pela polícia, assegura), o peso ainda maior do que carregar o final de uma vida por meio de suas mãos, está o do vício no crack, adquirido atrás das grades. “Já tentei me livrar, para trabalhar ou estudar. Mas continuo vegetando”, confessa ele, que, antes do homicídio, tinha passagem por furto, quando ainda era menor.
Remorso, segundo M., existe. Contudo, não se trata de arrependimento, e sim, pelas palavras do sentenciado, ressentimento. “Naquela situação era uma briga, era matar ou morrer”, considera. “Sinto mesmo é pela minha família, que não me acompanhou quando eu precisava”, diz.
Vício e remorso
Na mesma situação de M., outras pessoas que tiraram a vida de alguém também alegam que, se não derramassem sangue alheio, o delas é que jorraria. É raro algum acusado ou condenado por homicídio topar relembrar a triste página. No caso do ex-albergado em Bauru, não houve embaraços.
O mesmo não se pode dizer de outros dois personagens, um em tratamento para se livrar do vício em entorpecentes na comunidade terapêutica Esquadrão da Vida e outro, já livre da dependência química, mas que também evita tocar no assunto.
Ambos ainda não completaram 30 anos - o que permanece em tratamento tem 24 anos e o segundo está com 28 - e também já carregam o fardo de uma morte nas costas.
O jovem que ainda está sob os cuidados da comunidade terapêutica, durante uma briga por namorada, matou um indivíduo na base do canivete.
Já o outro rapaz, a exemplo do ex-cortador de cana, também eliminou seu oponente na base das pauladas na cabeça. O crime foi cometido durante uma disputa por domínio em ponto de venda de drogas.
Nenhum dos dois quis falar diretamente com a reportagem. Ambos alegam que a dor de ter tirado a vida de alguém é muito forte e que o sentimento é acentuado no peito sempre que relembram o assunto.
Segundo a pastora evangélica Sara Rodrigues Silva de Melo, que aconselha os atendidos pela instituição filantrópica, o arrependimento entre ambos é enorme, algo que, considera, justifica o receio de ambos em falar abertamente. “Um deles sente a vida totalmente vazia e sabe bem que a pessoa (morta por ele) não retornará. Quer apenas encontrar paz”, narra.
Sobra para o pai
De acordo com ela, não apenas homicidas “diretos” buscam alento. Outras pessoas que “indiretamente” causaram mortes, sempre impulsionados negativamente pelo efeito das drogas, também carregam o mesmo fardo. “Temos casos de filho que causou enfarte no pai ou morte de parentes na estrada”, lembra Sara, na instituição há 12 anos.
O efeito da droga, salienta a conselheira, tira a pessoa de órbita, propiciando a agressividade. Contudo, passado o transe, o arrependimento é ainda maior.
“O indivíduo perde o domínio de suas emoções”, observa ela, citando que, junto a luta para sair do vício, essas pessoas - sem isentá-las perante à Justiça (ambos cumprem pena no regime semiaberto) - ainda carregam a sina matadora nas costas.
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