O Conselho Tutelar chicoteia as pessoas durante seus atendimentos? A pergunta, propositadamente colocada de forma absurda, pasme, ainda frequenta o imaginário de parte da população. E essa visão errônea pode ser confirmada na prática. Na última quinta-feira, uma adolescente de 14 anos fugiu das mãos do órgão (leia mais abaixo). Para mudar esse pensamento, o conselho de Bauru começou a investir em alguns projetos tanto em instituições de ensino quanto nas redes sociais.
Segundo a presidente do Conselho Tutelar 2, Viviane Scarabelo, as ações começaram este ano. Ela, que é idealizadora das iniciativas, explica que o objetivo é divulgar qual a função do conselho e como ele age.
“Nós precisamos divulgar o trabalho que fazemos. O Conselho Tutelar só serve para tirar crianças da rua? Não. Nós servimos para prevenir, orientar e encaminhar”, destaca a conselheira.
Segundo ela, o órgão está com a agenda aberta para a realização de palestras em instituições como entidades sociais, creches e escolas. “O Conselho Tutelar ainda dá medo. Nosso objetivo é mostrar que somos um ‘amigo’ da sociedade. Com essas palestras, iremos expor nosso trabalho e ainda nos aproximar da população para mudar essa ‘cara’”.
As palestras podem ser direcionadas tanto às crianças quanto aos pais de alunos e devem ser agendadas no telefone do próprio conselho (veja no quadro ao lado).
Em convergência com essas palestras, está em produção o livro infantil “Conselho Tutelar o que é? E para que serve?”. A obra, que deve ficar pronta no começo do ano que vem, terá linguagem apropriada e ilustrações para crianças.
“O livro conta a história de Gabriel, um garoto que recebe a visita do conselho em sua escola. Quando ele conta para a família, todos ficam com medo. Aí, ele mesmo começa a explicar para seus familiares o que o conselho faz”, explica Viviane Scarabelo, que é a autora do livro.
Na internet
Outra frente de ação do Conselho Tutelar é a internet. O trabalho passou a ser divulgado nas redes sociais e no canal de vídeos do Youtube. “No blog do conselho, a população pode, por exemplo, conhecer quem são os 10 conselheiros de Bauru”, explica.
Além da blogosfera, o conselho também tem uma página no Facebook. “A população tem acesso de forma facilitada a informações que são muito necessárias. Mas é muito importante destacar que as denúncias não podem ser feitas na internet. As denúncias continuam só pelos nossos telefones ou pelo Disque 100”, complementa Viviane Scarabelo.
Estrutura
Apesar da nova roupagem que visa assumir, o Conselho Tutelar ainda enfrenta outro problema: a desconfiança da população em relação à estrutura do órgão. Questionada sobre esse fato, a presidente do Conselho Tutelar 2, Viviane Scarabelo, afirma que o quadro de funcionários e a estrutura são suficientes.
“Atualmente, trabalhamos com todo nosso efetivo, que são 10 funcionários. Em Bauru, são dois Conselhos Tutelares. Cada unidade conta com cinco cada e estamos dando conta da demanda”, conclui a presidente, que ainda exalta as parcerias positivas com as secretarias do Bem-Estar Social, Saúde, Educação e Cultura.
Adolescente retorna às ruas e adia novamente sonho de um final feliz
Na última quinta-feira, uma adolescente de 14 anos foi acusada de tentar roubar um aparelho celular. Conduzida ao Plantão da Polícia Civil, ela foi liberada ao Conselho Tutelar. A jovem, porém, enganou a conselheira responsável e conseguiu fugir. O caso foi noticiado pelo Jornal da Cidade no sábado. A surpresa desagradável foi a protagonista da história.
Trata-se de Fátima (nome fictício), que voltou às ruas. Ela faz parte de um caso emblemático na cidade e que é acompanhado pelo JC. Em novembro de 2010, a garota foi encontrada em um depósito de lixo da Unidade Básica de Saúde (UBS) do Jardim Europa.
Após muita resistência, a menina, que é usuária de crack e, segundo relatos, se prostituía para alimentar o vício, foi internada no hospital psiquiátrico Tereza Perlati, em Jaú. Após ser liberada, ela foi morar com a família, de onde fugiu novamente.
O Conselho Tutelar diz não poder comentar o caso e nem a fuga da garota das mãos do próprio órgão. A única informação é que o conselho está realizando um acompanhamento.
Já o Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps/AD) informou ontem, por meio da assessoria de comunicação, que Fátima não é mais atendida pela instituição, “uma vez que terminou o tratamento e mudou-se da cidade”.
Ela, contudo, realmente está em Bauru e em situação de risco. Além do nome registrado no boletim de ocorrência (BO), a reportagem a encontrou no fim de semana cuidando de carros em bares da zona sul da cidade.
Em fevereiro do ano passado, em um dos raros momentos que demonstrava forças para sair do vício, Fátima conversou com o JC. Na ocasião, ela disse que ficaria longe das ruas e das drogas. Uma semana depois, porém, fugiu de casa. É apenas mais um capítulo de uma história que parece estar longe de um final feliz.