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Depressão não é frescura!

Maria Cristina Boniotti
| Tempo de leitura: 3 min

Considerada o mal do século 21, a depressão não escolhe idade, raça e classe social. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), 11% da população brasileira sofre com esse distúrbio e esses dados tendem a crescer cada vez mais, tornando-se em 2020 a segunda maior causa de incapacidade no mundo, perdendo apenas para as doenças cardiovasculares. Dados mais preocupantes mostram que 15% das pessoas que apresentam essa doença cometem suicídio.

Pesquisas realizadas nos Estados Unidos e na Inglaterra apontam uma predisposição genética para a depressão, ou seja, analisaram uma diferenciação genética no cromossomo 3, que estaria diretamente ligado ao surgimento dessa doença. Outros estudos apontam um desequilíbrio químico no cérebro de pessoas depressivas. Comecei destacando dados estatísticos para tentar esclarecer às pessoas que consideram a depressão frescura ou falta de uma religião e de vontade. Esse sofrimento existe e digo, por experiência própria, que é algo que vai muito além de uma simples tristeza. Esses sintomas não passam somente com pensamentos positivos, mais sim com tratamento médico, psicológico, exercício físico, alimentação balanceada e muito apoio. Segundo a OMS, somente 25% das pessoas com depressão no mundo recebem o tratamento adequado. Agradeço por ter uma família que pode custear meu tratamento, que não é nada barato.

Vale a pena ressaltar que o tratamento medicamentoso torna-se outra grande luta para o paciente, uma vez que somente 70% dos depressivos respondem aos antidepressivos. E o restante dos 30%? Pois é aí que surge o meu questionamento. Optei por um tratamento mais rápido chamado estimulação transcraniana magnética, que, diferentemente dos medicamentos que demoram de 2 a 4 semanas para surtirem efeito, apresenta benefícios já nas primeiras aplicações, sendo também indicado para outros transtornos psiquiátricos como o transtorno bipolar, esquizofrenia, transtorno obsessivo compulsivo (TOC), síndrome do pânico, entre outros. Atualmente, esse aparelho, que custa em média 30 mil dólares, não está acessível a todos. Como sabemos da precariedade do nosso serviço de saúde, somente aqueles que possuem condições financeiras conseguem se beneficiar com essa nova tecnologia, através da qual se tem obtido resultados positivos e animadores no universo psiquiátrico.

Estou enfrentando essa doença e sei que o tempo de espera por resultados dos medicamentos é doloroso e algumas pessoas levam anos para descobrir qual medicamento se adequa melhor ao seu organismo. Por esse motivo venho expressar o meu desejo que essas novas tecnologias cheguem aos postos de saúde, proporcionando uma melhor qualidade de vida para aqueles que tanto sofrem. Estamos em épocas eleitorais. Pretendo enviar esse artigo para todos os candidatos de nossa cidade e mobilizá-los da importância de investimentos em novas tecnologias na área da saúde mental. O tratamento psicológico também é muito importante, pois os medicamentos aliviam os sintomas, enquanto a terapia consegue trabalhar com as causas, as raízes da depressão. Uma alimentação adequada, rica em ômega 3, também vem sendo muito indicada. Enfim, os portadores de transtornos mentais necessitam de vários cuidados e assistência para obter uma real melhora. Não podemos mais mascarar esse problema e privar os necessitados de um tratamento digno.

A Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) enviou uma proposta ao Senado com a intenção de incluir a psicofobia ? preconceito e discriminação aos portadores de transtornos mentais ? no código penal. O presidente do Senado, José Sarney, atendeu ao pedido da ABP e marcará uma audiência pública na comissão de direitos humanos para debater a psicofobia.

Será um grande avanço na luta contra o preconceito aos distúrbios mentais, visto que em nossa sociedade ainda existe um descaso e preconceito com essas pessoas que lutam diariamente para superar seus problemas, tentando mostrar sua importância e participação na sociedade. Até quando iremos fingir que esses distúrbios não existem e negligenciar um tratamento adequado para todos que precisam de ajuda?

Maria Cristina Boniotti

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