Fazia pouco tempo que havia me mudado para Bauru, numa das primeiras vezes que o visitei. Era uma ocasião muito especial para mim. "Zé, entrei na Engenharia, o trote já começou e escapei por pouco hoje. Faz o seguinte: já corta "careca" porque amanhã vão pensar que eu já passei pelo trote." Deu certo, os veteranos me deixaram em paz.
Os anos foram se passando, Zé e eu cada vez mais amigos, compartilhando sucessos, tristezas, histórias de vida. "Altos papos", de filosofia a pescaria, de religião a futebol. O Zé sempre me impressionou pela maneira simples, discreta e ao mesmo tempo sábia e diplomática ao tocar nos assuntos e emitir suas opiniões. Histórias de sua infância no sítio em Bariri, e eu falava das minhas em Duartina. Aprendi com o Zé que felicidade rima com simplicidade.
O salão mudou de endereço, virou a esquina, ficou bem melhor, mais confortável, agora você já podia marcar horário pelo telefone.
O Zé constituiu família, comprou e reformou sua casa, criou os filhos...
- Minha filha entrou na Faculdade!
- Poxa Zé, que legal, cara, parabéns!
O pequeno espelho mostrando como ficou a parte de trás; "Ficou bom ? Olha, tá ficando meio ralinho aqui em cima..." "É Zé, fazer o quê..."
- Zé, vou me casar!
Num sábado pela manhã cheguei lá trazendo um pequeno novo cliente. "Zé, este loirinho é o Gabriel, meu filho. Ele veio cortar o cabelo pela primeira vez."
O caixotinho para dar a altura; Zé, você se lembra como ele se comportou direitinho? Nem chorou!
Lembro-me que um dia visitei meus pais, meu pai já bem velhinho, e minha mãe me contou: "O Zé está vindo aqui em casa cortar o cabelo de seu pai."
Pouco depois ele faleceu. É Zé, eu até acho que ele chegou lá em cima e fez propaganda de você.
Zé, você faz parte da minha história. Que surpresa boa ver sua foto na primeira página do JC da última quinta-feira, 06/09. Zé, você não envelhece?
Eder Muniz Chaves