Agora espalham a notícia de que houve uma Sra. Jesus Cristo, fato ignorado pelos quatro evangelistas, mas que já havia dado motivos para especulações anteriores. A historiadora Karen King, da Universidade de Harvard exibiu à imprensa mundial um pedaço de pergaminho escrito há 150 anos depois de Cristo, em linguagem copta ? egípcio antigo. Nesse pergaminho (10x20 centímetros) é lida a frase: "Jesus disse a eles: Minha mulher." Essa mulher, presume-se, tenha sido Maria Madalena. Vista como uma prostituta socorrida pelo Messias, conta a história que logo depois se arrependeu dos seus pecados. Não é a primeira vez que surge essa versão. No filme "A última tentação de Cristo", de Martin Scorsese, Jesus é apresentado com inconfessáveis fraquezas humanas. As revelações dessa face oculta de Cristo obedecem a uma linha lógica: se o filho de Deus foi mandado para este mundo como um humano qualquer, despido da sua divindade para poder dar exemplos de amor ao próximo, estaria então sujeito a todas as tentações como qualquer mortal. Tinha sonhos eróticos, masturbava-se, teve amores carnais, e, (por que não?) casou-se com Maria Madalena e com ela teve filhos.
Na Bíblia nada afirma que a prostituta a que Jesus ajudou seja Maria Madalena. Essa história de "vida devassa" teria surgido do imaginário cristão e incentivadas pela Igreja, que via Madalena como uma ameaça aos princípios dogmáticos da fé religiosa. No livro "O Código Da Vinci", do inglês Dan Brown, a tese da esposa do Nazareno teria sido reforçada pelos Evangelhos Gnósticos. Havia 80 evangelhos, quase todos tidos como heréticos. Muitos foram queimados. Escaparam alguns. Para o Novo Testamento só foram escolhidos os de Mateus, Marcos, Lucas e João. Estes apresentam Maria Madalena como seguidora dos ensinamentos de Jesus, a quem dava apoio financeiro, foi testemunha da sua crucificação e três dias depois a primeira a vê-lo vivo. De acordo com um dos evangelhos proscritos pela Igreja, o de Felipe, Maria Madalena era realmente consorte de Jesus, ele a beijava muitas vezes na frente dos companheiros, e dizia amá-la mais que aos apóstolos. Os "conspirólogos" afirmam que dessa união foram gerados dois filhos: Sara e Tiago. Os Manuscritos do Mar Morto, descobertos em 1947 numa caverna, na Palestina, reforçam a tese explorada por Dan Brown de que, os filhos do casal geraram uma linhagem que teria o direito sagrado de reinar sobre a França e Israel. Esses documentos, porém, nunca foram exibidos em público e estão de posse do Vaticano. Há várias igrejas na França consagradas à Maria Madalena. Uma delas aparece no filme O Código Da Vinci. Há dois mil anos uma pessoa normal não chegava aos trinta anos sem se casar. Para a cultura judaica, o casamento era necessário para consolidar e aumentar o "Povo Eleito". A esterilidade e a falta de filhos eram tidas como uma "maldição divina". Lembre-se que Deus concedeu a Sara, finalmente, a graça de um filho: Isaac. Um pouco tarde porque Abraão já havia dormido com sua escrava e com ela procriado. Mas, o celibato pode ser encarado como uma renúncia voluntária a um grande bem e ao gozo; um sacrifício para atingir outro bem ainda maior, o da entrega absoluta ao apostolado. Nenhum dos quatro evangelistas fala do casamento de Jesus. Também é verdade que eles não falam dos filhos de Pedro e de nenhum apóstolo. Simplesmente porque o casamento fazia parte da normalidade.
Aquele pedacinho de pergaminho mostrado pela historiadora norte-americana não tem importância central, mesmo que possa ter fé histórica. Em nada compromete as bases do cristianismo. O que pode estimular é a volta da velha discussão sobre o celibato obrigatório na igreja católica. Se nem Jesus era virgem, porque os seus representantes aqui na terra devem ser? Fora disso, a polêmica só serve para que alguns ganhem dinheiro. "O Código Da Vinci" vendeu mais de 40 milhões de exemplares. Dezenas de livros foram escritos por católicos e protestantes contestando as afirmações antidogmáticas daquele best-seller. O filme foi sucesso de bilheteria. A historiadora de Harvard também está escrevendo um livro e já embolsou dois milhões de dólares em adiantamento, pagos pela editora e detentora dos direitos internacionais de distribuição. Segue o andor. Sem chacoalhar muito, que o santo é de barro.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC