Regional

Polícia Civil indicia suspeito de forjar suicídio da esposa

Lilian Grasiela
| Tempo de leitura: 4 min

Jaú – Ao investigar a morte de uma mulher, no último dia 11 de julho, supostamente por suicídio, a Polícia Civil de Jaú (47 quilômetros de Bauru) descobriu que o local onde ela foi encontrada havia sido forjado e que a vítima foi morta por estrangulamento. O marido dela, principal suspeito, teve sua prisão temporária decretada há alguns dias e, ontem, foi indiciado por homicídio qualificado. Divergências envolvendo a divisão de uma herança podem ter motivado o crime.

Valmira Alves da Silva, 25 anos, foi encontrada já sem vida, no final da tarde do dia 11 de julho, na residência onde o casal vivia, na rua Santa Terezinha, na vila XV. Na ocasião, o marido dela, Rogério Murça Viotto, de 47 anos, contou à polícia que teria ido a um bar nas proximidades e, ao retornar na companhia de conhecido, deparou-se com a mulher já morta, com parte de uma camisa presa na grade da janela do quarto e a outra parte amarrada em seu pescoço.

A ocorrência foi registrada como morte suspeita e a Delegacia de Investigações Gerais (DIG) instaurou inquérito para apurar as circunstâncias em que o fato ocorreu. Além do laudo do exame necroscópico do Instituto Médico Legal (IML) de Jaú, a Polícia Civil aguardava o laudo da perícia realizada pela Polícia Científica no imóvel. Os resultados fizeram com que a versão de suicídio apresentada inicialmente pelo marido da vítima caísse por terra.

 

O dia dos fatos


De acordo com o delegado de polícia Edmilson Marcos Bataier, que está respondendo pelo expediente da DIG de Jaú, investigações apontaram que o casal, que mantinha um relacionamento amoroso há cerca de três anos, discutia com frequência e que, inclusive, Valmira já havia registrado boletim de ocorrência de agressão contra Rogério.

“No dia 11, por volta das 14h, houve uma discussão, ele teria saído da casa, ido até bar nas proximidades e convidado recém-conhecido, uma pessoa que não era tão amigo dele, para ir até a casa dele”, conta, supostamente para ter um álibi.

Ao chegar ao imóvel, enquanto o colega estacionava sua bicicleta, Rogério entrou na casa e passou a gritar dizendo que sua mulher estava morta. Quando a testemunha entrou no quarto, encontrou a vítima deitada na cama, já sem vida.

 

Contradições

À polícia, o suspeito disse que, num primeiro momento, tentou soltar o nó da camisa próximo à grade da janela, mas não conseguiu. Ele alegou que, posteriormente, teria erguido o corpo de Valmira, desatado o nó que estava em seu pescoço e a colocado deitada na cama.

“Laudo do legista detecta que, na verdade, não há enforcamento, há estrangulamento”, diz. “No enforcamento, os sulcos que se formam ao redor do pescoço ficam oblíquos ao passo que, no estrangulamento, eles ficam na posição horizontal”.

Já o laudo do Instituto de Criminalística (IC), segundo Bataier, apontou que a camisa usada no suposto enforcamento não tinha sinais de vincos onde o corpo teria ficado amarrado. “Também não tinha o amoldamento e o amarrotado de um material que teria segurado um cadáver de quase 50 quilos”, afirma.

O delegado também destaca que encontrou contradições durante reprodução simulada dos fatos. “A pessoa que ele levou para ‘legitimar’ a situação diz que, entre estacionar a bicicleta até chegar dentro do local onde ele viu a moça, são quinze segundos”, conta, versão posteriormente comprovada por peritos.

“Ele, para soltar o peso que a gente simulou de 23 quilos, muito mais leve do que a mulher, demorou mais de cinquenta segundos”, declara. “Tudo o que ele falou não bate nem com a testemunha, nem com a reprodução simulada e nem com os laudos”.

 

Motivação

Segundo Bataier, o depoimento de um irmão de Rogério que, por causa de problemas de saúde, morava com o suspeito, também ajudou a reforçar a hipótese de homicídio.

“Ele fala que eles viviam tendo muitas brigas em razão da divisão da herança que o Rogério recebeu”, diz. “Ela (vítima) dizia que, por ter coabitado com ele durante três anos, teria parte nessa herança”.

Há alguns dias, a pedido da Polícia Civil, a Justiça concedeu a prisão temporária do suspeito por 30 dias. Ontem, ele foi indiciado por homicídio na forma qualificada, por motivo fútil. A pena varia de 12 a 30 anos de prisão.

 

‘Minha consciência com Deus está limpa’, diz

Em entrevista ao JC, Rogério Murça Viotto negou a autoria do homicídio contra a esposa Valmira Alves da Silva, com quem mantinha relacionamento amoroso há cerca de três anos, afirmou que sua consciência está tranquila perante Deus e alegou que ela havia tentado se matar várias vezes. “O que eu tenho para afirmar é que eu sou inocente”, diz. “Eu optei por socorrer e tirar ela da situação que ela estava. Agora, se a Justiça interpreta ou está trabalhando, não é nem por mal e nem por bem. É o serviço deles. Eu deixo no ar. Todo profissional pode cometer erros, não é perfeito nas suas atitudes”.

Rogério anunciou que seu advogado vai pedir a exumação do corpo de Valmira para que as causas da morte dela sejam esclarecidas através de novos exames. “Eu me declaro inocente e declaro que minha consciência com Deus está limpa”, revela. “Eu não sou uma pessoa violenta, não tenho esse instinto. Uma coisa eu posso falar até em nome de Deus porque minhas mãos, perante Deus, são limpas de homicídio. Eu não sou homicida, eu não sou assassino”.  

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