Malavolta Jr. |
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Idade mais baixa convive com alto consumo de álcool
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Adolescentes e jovens com menos ou na faixa dos 20 anos consomem álcool mais cedo, em maiores quantidades e com outras substâncias. É o que apontam especialistas nas áreas de psicologia, psiquiatria, além de pesquisas de instituições como Universidade Estadual Paulista (Unesp) e Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
A balada em boates e bares, antes tão temida pelos pais, agora já não é o único local de consumo, que ocorre cada vez mais em casa, o chamado “esquenta”, ou “pré-night”. Nessas ocasiões, cerveja é acompanhada por bebidas destiladas e outros produtos, como energéticos ou até drogas ilícitas. O coquetel, salientam especialistas, resulta numa mistura explosiva, ainda mais em organismos muito jovens.
É o que alerta a psiquiatra Florence Kerr Correa. Professora-doutora na disciplina de Psiquiatria do Departamento de Neurologia, Psicologia e Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Unesp/Botucatu, ela trabalha na área de dependências químicas. “Tem quem use o energético, que estimula o sistema nervoso central, achando que vai conseguir driblar o sono”. Engano, alerta a médica: “o risco é não dormir e ainda permanecer sob embriaguez por mais tempo”, esclarece.
Segundo a especialista, além de beberem mais, os jovens, em contingente maior, saem com o objetivo: embriaguez. “O consumo na rua ou em casa tem o propósito: ficar bêbado”, atenta. “Seja saindo ou nos chamados ‘esquentas’, o primeiro contato com o álcool é mais precoce, na faixa dos 12 anos”, observa a psiquiatra. “Entre a camada mais pobre da população, ocorre até antes”, acentua.
Quanto mais cedo, mais estragos, observa a especialista. De acordo com a psiquiatra, o cérebro humano está em pleno desenvolvimento até os 18 anos. “Antes dos 15 anos, dependendo da quantidade ingerida, o risco de dependência é maior”, especifica.
Contudo, para ela, a alteração de sentidos causada pelo álcool, em si, ainda mais entre menores, já é estarrecedora. “O pior fenômeno é a embriaguez. Mata neurônio, aumenta risco de quedas, brigas, acidentes e mata neurônio”, acentua.
Beber em casa, antes mesmo da balada, é praxe entre os adolescentes e jovens na faixa dos 21 anos. Festas particulares, especialmente, são “copo” cheio para o consumo e impedem uma fiscalização mais eficiente, atenta o promotor da Infância e Juventude, Lucas Pimentel de Oliveira. “A dificuldade em fiscalizar é maior nesse tipo de ocasião, seja em casas ou chácaras alugadas”, observa.
‘Quase todos deixam’
Mesmo dividindo o cenário com eventos particulares, boa parte dos estabelecimentos comerciais em Bauru ainda ignora a legislação estadual conhecida também por “Antiálcool” e segue com a venda de bebida para menores, aponta o promotor da infância e juventude de Bauru, Lucas Pimentel de Oliveira.
Além da lei estadual, sancionada ano passado pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB), estabelecendo multa e até interdição dos estabelecimentos que desrespeitam a norma, o próprio Estatuto da Criança e Adolescente (ECA), em seu artigo 243, veta a comercialização de bebidas alcoólicas para menores de 18 anos, com multa e prisão para quem o desrespeita.
No papel tudo está claro. Mas, na prática, a lei é ignorada, lamenta o promotor, citando estabelecimento de multas para diversas casas noturnas da cidade e região. Contudo, considera o integrante do Ministério Público, há necessidade de mais pulso firme quanto à fiscalização, muito esporádica, acredita. “Menor não pode nem entrar nesses estabelecimentos”, resume.
“Quase todos deixam entrar”, protesta ele, citando recente interdição de bar, na região central, por descumprimento da legislação.
Para ele, Bauru está na contramão de outras cidades, aonde é exigida documentação para todos os frequentadores de casas noturnas. “Não pode entrar menor, mas os estabelecimentos ignoram a lei”, acentua Pimentel.
Mês passado, um balanço divulgado pela Secretaria de Estado da Saúde mostrou que, desde novembro de 2011, quando a Lei passou a valer na prática, fiscais do Procon-SP e Vigilância Sanitária estadual multaram mais de mil estabelecimentos comerciais em todo o território paulista, por descumprirem a norma que veta a venda de álcool para menores. O estudo, realizado pelo governo, mostrou cumprimento por parte de 99,5% dos comerciantes.
Promotoria defende ‘linha dura’
Bauru, entretanto, na visão da promotoria, não se enquadraria neste exemplo. “Há fiscalização, por parte da Vigilância, Procon e Conselho Tutelar. Recentemente fizemos ação conjunta na Zona Sul, de madrugada, em parceria com as polícias. Mas acredito que o trabalho precisa ser mais incisivo”, considera.
Recentemente, o JC observou uma menor que foi a algumas lojas de conveniência da cidade, onde tentou comprar bebidas. Em duas ocasiões, não houve qualquer empecilho na aquisição de vodca. A bebida não foi consumida pela adolescente.
Em situações reais, porém, o consumo é alto e gera consequências. Somente neste ano, no Pronto-Socorro Municipal, quase 100 jovens foram atendidos em caráter emergencial por transtornos mentais e comportamentais em decorrência do uso de álcool. A faixa etária predominante, informa o P.S., por meio da assessoria de imprensa da prefeitura, é dos 12 aos 21 anos. Mês passado, foram 12 atendimentos, quase um a cada dois dias.
Em nota enviada pela assessoria de comunicação, a Secretaria de Estado da Saúde alega que a fiscalização sobre o cumprimento da Lei Antiácool, em Bauru e região, é constante e que a maioria dos estabelecimentos cumpre as normas. Conforme a pasta, Bauru segue os 99% de cumprimento verificados no Estado. “A fiscalização é constante, inclusive com a utilização de fiscais à paisana”, garante a secretaria.
Por meio do texto, a secretaria também apela para que a população colabore, denunciando estabelecimentos coniventes com o consumo de bebida por parte de menores. Denúncias podem ser feitas pelo site www.alcoolparamenoreseproibido.sp.gov.br ou telefone 0800 771 3541.
Primeiro gole ocorre já com 12 anos
Iniciação no álcool antecede até mesmo a entrada na adolescência; alcoolista internado relata drama iniciado aos 9 anos
Não precisa ser no bar. Em casa mesmo, até antes da entrada na adolescência, o risco da dependência alcóolica é uma constante. Seja por um inocente gole oferecido de pai para filho ou até tragos escondidos, a bebida está presente no cotidiano até das crianças. Especialistas e profissionais do ramo da saúde testemunham casos de embriaguez em até mesmo menores de 10 anos.
Hoje, Ademar* (pseudônimo) tem 44 anos. Interno do Esquadrão da Vida, comunidade terapêutica referência no combate ao alcoolismo, ele, que terá a identidade preservada, entretanto, tem um drama de longa data em parceria com o vício.
O primeiro gole, recorda, aconteceu aos cinco anos, em casa. Daí em diante, lembra-se, colecionou dissabores e, principalmente, ressentimentos, causados pela embriaguez. “Comecei a provar aos cinco e a beber aos nove, num casamento”, lembra ele. O convívio com a bebida, acreditava, era “amigável” e ele até conjugava com esportes de alto rendimento. “Disputei até campeonato internacional de ciclismo”, recorda.
Ele admite que só via o prazer que sentia, sem notar a saúde e estado emocional em xeque. “Comecei a beber ainda mais depois que o meu casamento acabou. Precisou que eu ficasse doente, com cirrose, para perceber a gravidade do problema”, relatou, por telefone, ao JC. “Quero me curar e ajudar a outras pessoas”, afirmou ele, que passa pela segunda internação.
Valéria Mouron Perri Gomes, psicóloga e diretora do Centro de Atendimento Psicossocial Alcool e Drogas (Caps/AD) de Bauru, confirma atendimento para menor de 12 anos no setor. “A maioria dos casos que chegam até nossos cuidados está entre os 16 e 18 anos, seja entre atendimento ambulatorial ou via mandado judicial para internação compulsória”, detalha, especificando que, nos casos de internação, preponderam envolvimento com outras sustâncias.
Para ela, um dos grandes problemas envolvendo adolescência e álcool é a dificuldade dos mesmos admitirem e até mesmo perceberem o problema. “O jovem não admite que está viciado. É a faixa etária na qual testa o limite dos pais e apenas veem a parte ‘legal’”, lamenta.
Também psicólogo, Cláudio Salviano trabalha no auxílio aos assistidos do Esquadrão da Vida. Ele também diagnostica idade cada vez mais precoce para iniciação no consumo alcoólico. “O número é alto (de jovens envolvidos) e ainda conjugado ao consumo de outras substâncias, como os energéticos e até substâncias ilícitas”, salienta. Para ele, desagregação familiar é um dos pilares do problema.
A conselheira tutelar Naiara Maria de Farias também acredita que a raiz do problema está em casa. “Por mais que se tenha fiscalização, se não houver conscientização, nada vai mudar”, opina, afirmando que o Conselho Tutelar promove blitze semanais nos estabelecimentos. “Há a denúncia, verificamos e o promotor pede a punição. Também trabalhamos com medidas preventivas. Mas os pais também precisam se conscientizar”, defende.
‘Quem deu bebida à minha filha?’
Mãe de uma adolescente de 16 anos, a dona de casa I. * (ela pediu para ter a identidade preservada) telefonou ao Jornal da Cidade semana passada, denunciando que a jovem teve acesso a bebidas alcoólicas, sem a sua autorização ou conhecimento, numa casa noturna da cidade. “Ela (a adolescente) não sai nunca, não deixo. Mas, nessa noite, ela foi dormir na casa de uma amiga, com quem saiu”, relata a mãe.
Segundo ela, a jovem teria se acidentado dentro da boate, provavelmente caído, acredita. “Minha filha mais velha quebrou os dois dentes da frente. Sei que ela bebeu lá dentro”, denuncia. “Além da bebida, me intriga como ela pode entrar se, na verdade, é proibido. É sinal de que o acesso de menores a esses locais acontece sem qualquer controle. É preciso que isso seja averiguado”, clama.