Bairros

Pedacinhos do Nordeste no Coração de São Paulo

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 9 min

O mundo é feito de escolhas


Deixar a capital da Bahia, Salvador, e mudar-se para o Interior de São Paulo, especificamente Bauru, em busca de melhores oportunidades de trabalho. Há 9 anos, esta foi a escolha feita pelo baiano Reinaldo Pires de Lima.


“Era temporada de emprego e soube que a cidade estava precisando de gente para trabalhar por meio de uns parentes que moravam aqui. Como na Bahia a situação estava difícil, decidi arriscar”, conta ele, que a princípio veio sozinho, mas pouco tempo depois trouxe a esposa e os dois filhos.


E se trabalhar era o objetivo de Reinaldo, ele o conquistou em pouco tempo: conseguiu, de cara, dois empregos, um como churrasqueiro, função que atuava das 7h às 17h30, e outro como garçom, das 17h30 às 2h. Com a vida tão corrida quanto seu sotaque, começou a colher os frutos que plantou.


“Foi uma época puxada, mas o sacrifício valeu a pena: desta forma consegui prosperar, comprar minha casa e abrir meu próprio restaurante”, conta ele, que se orgulha ainda de poder possibilitar o estudo dos filhos em escolas particulares. “O mais velho tem 21 anos e vai se formar administrador de empresas. O mais novo tem 12 anos e estuda em um ótimo colégio, aqui no Centro.”


Mas, nesta aventura, nem tudo foram flores. A fase de adaptação não foi fácil e Reinaldo chegou até mesmo a sofrer preconceito por parte de algumas pessoas.


“Teve gente que, quando ficou sabendo que eu sou nordestino, perguntou se eu sabia ler jornal. Muitos paulistas veem os nordestinos como peões, sem falar no estereótipo de preguiçoso”, aponta.


Da Bahia, Reinaldo tem saudade da praia e do clima de festa e amizade entre os conterrâneos.


“Neste aspecto, a Bahia é bem melhor. Lá é possível se divertir muito com pouco dinheiro. É só colocar algumas latinhas de cerveja dentro de um isopor e levar para a praia que está tudo certo. Aqui, qualquer lugar que se vá demanda muito dinheiro”, compara ele, que também sente falta da liberdade de vestimenta leve e do calor humano típicos do Nordeste.


“Lá ninguém se preocupa muito com roupa, sabe? Qualquer coisa está bom, até porque é muito quente. Aqui, não: as pessoas se importam muito com a vestimenta”, afirma.


No fim das contas, em um duelo entre Salvador e Bauru, o Coração de São Paulo acaba pesando mais. Tanto que Reinaldo não tem planos de voltar a morar na capital da Bahia. Voltar para lá, agora, só a passeio.

 

No remelexo do forró


Não dá para falar em Nordeste sem citar uma de suas danças típicas mais famosas: o forró. Fruto de uma mistura de ritmos, há quem diga que o nome forró surgiu de uma adaptação nordestina para o termo for all, que significa para todos.


Embora Bauru tenha mais de 10 mil legítimos representantes deste peculiar estilo de dança, é o bauruense Leon Souza Mastrangeli um dos responsáveis por difundir o forró na cidade.


Aprendiz do professor Domingos Meira e da bailarina Sally, Leon iniciou-se na dança após sofrer um acidente de carro, ainda criança.


“O médico indicou que eu fizesse aulas de balé e de dança de salão, que me ajudariam a recuperar os movimentos. Foi por conta disso que conheci o forró”, conta ele, que se apaixonou pela dança.


Leon começou efetivamente a dar aulas da modalidade na cidade em 2000, quando seu professor regressou a São Paulo e deu a ele a incumbência de continuar difundindo o forró no município.


“Dei aulas em várias casas, mas manter o forró é algo muito difícil. Isso porque o público é bem familiar, não costuma pagar caro para participar e, por outro lado, o aluguel dos espaços é muito caro”, justifica.


Depois de mais de dez anos de batalha, Leon abriu sua própria casa de forró, onde dá aulas às terças-feiras, quintas-feiras, sábados e domingos, em horários variados. Entre os alunos, tanto jovens universitários vindos de diversas partes do estado interessados no ritmo, quando nordestinos legítimos, com residência fixa ou de passagem pela cidade.


“Os nordestinos se interessam bastante. É o único lugar da cidade que oferece forró, então, eles fazem questão de conhecer e, nas aulas, deixam claro que são nordestinos”, conta Leon.


Entre a dança difundida por Leon e a praticada no Nordeste, algumas pequenas diferenças.


“No Nordeste, eles dançam mais agarradinhos, mesmo. No forró dançado em Bauru, tem mais passinhos, mais influência do samba rock”, diferencia.


Diferença que, para quem está distante da terrinha, pode ser facilmente ignorada.


“O que importa é a alegria, o clima de amizade... Isso eu garanto que os nordestinos vão encontrar no nosso forró”, frisa Leon.

 

Aonde o vento levar


Wellington Pereira Leite tinha 24 anos quando fechou os olhos, colocou o dedo indicador em um mapa do Estado de São Paulo e, depois de abrir, descobriu que viria para Bauru em busca de uma boa oportunidade de trabalho. E deste momento em diante, a sorte foi sua grande companheira.


“Eu morava em Brumado, na Bahia, e as possibilidades de crescimento profissional por lá eram poucas. Além disso, eu estava em busca de aventuras. Então, decidi sortear um lugar de São Paulo para me mudar. O acaso escolheu Bauru”, conta.


No bolso, Wellington tinha apenas o dinheiro para pagar alguns dias de pensão. Na mala, algumas roupas e a coragem. A sorte, ele mal imaginava, mas estava ao lado dele.



“Cheguei à cidade em um dia e no outro já estava empregado”, orgulha-se.


Mas, como acontece normalmente, levou um mês até que ele recebesse o primeiro salário. Como o dinheiro que tinha dava apenas para pagar a pensão, Wellington passou por muitos perrengues.


“Eu não tinha dinheiro nem para comer. No almoço, cada um dos meus colegas me dava um pouco de suas marmitas. Na janta, costumava ir a velórios para comer bolachinha e tomar café”, lembra, rindo.


Pouco tempo depois, os irmãos de Wellington e as ex-esposas de seu pai também deixaram a Bahia rumo a Bauru. Atualmente, seus 22 irmãos e mais alguns membros da família vivem no município.


Com o tempo, Wellington deixou o emprego na fábrica e passou a trabalhar como garçom, depois, como borracheiro, profissão que já atuava na Bahia, até juntar dinheiro para abrir sua própria borracharia, onde atualmente trabalham ele e dois de seus muitos irmãos.


“Deu tudo certo para mim. Agora, vou para Bahia umas três vezes por ano, ver meu pai, que tem um sítio lá, e volto. Morar lá não quero mais, não”, afirma ele, que se recorda de ter passado cerca de oito meses sem chuva.


Apesar de preferir Bauru a Brumado, Wellington sente falta da proximidade das pessoas e da tranquilidade baiana.


“Lá as pessoas são mais achegadas, entende? O calor humano é maior”, compara. “Tão próximas que meu pai teve 23 filhos”, brinca.

 

Tapioca e acarajé


Se depender da bauruense Miriam Aparecida de Oliveira Branco e da baiana Auriléa Gonçalves dos Santos, os nordestinos que vivem em Bauru nunca poderão reclamar que sentem falta da tapioca e do acarajé típicos de suas terras. Parceiras há nove anos, Miriam e Léa já conquistaram fama na cidade e tornaram-se as legítimas representantes das iguarias nordestinas em Bauru.


Miriam tornou-se uma “tapioqueira” de primeira por acaso, há 13 anos. Tudo começou em uma viagem a São Paulo, onde foi para comprar roupas para revender e, em um ponto próximo ao ônibus que ela embarcaria, encontrou com um cearense que fazia tapiocas.


“Vi que aquele homem não vencia fazer tapioca. A mulherada ficava louca ao lado dele, pedindo tapioca. Eu, para ajudar, me encostei do lado dele e comecei a receber o pagamento das pessoas e fazer o troco”, conta.


Sempre que voltava para São Paulo para comprar roupas, a rotina se repetia, até que, certo dia, Miriam pediu que o cearense lhe ensinasse o segredo da tapioca.


“Eu dizia: puxa vida, conterrâneo, me ensine a fazer tapioca. Não serei sua concorrente... Eu sou lá da Bauru (sic)”, conta, imitando o sotaque nordestino.


O homem topou. Além de passar a receita à Miriam, ainda lhe ajudou a comprar os utensílios necessários para a produção da delícia. Contudo, chegando aqui, Miriam deixou a ideia engavetada por dois anos. Só a retomou quando percebeu que realmente podia ganhar dinheiro com aquilo.


“Precisava trabalhar e pedi para participar uma vez da Feira Ubá. Lá, fiz minhas tapiocas pela primeira vez, e as pessoas ficaram enlouquecidas. Foi quando pensei: deixa de ser besta, Miriam, vai fazer tapioca!”, relata, rindo.


Depois disso, montou uma barraquinha na rua Agenor Meira, no Centro, e começou a praticar o baianês, como ela chama o modo de falar imitando o sotaque baiano. Já craque, começou a vender tapioca na Praça da Paz e firmou uma parceria com a baiana Léa.


Léa, diferentemente de Miriam, não precisa imitar o sotaque nordestino. Nascida na divisa da Bahia com o Piauí, ela veio para Bauru há 11 anos, acompanhada dos dois filhos.  A princípio, não gostou muito da cidade.


“Não tem praia, não tem comida que eu gosto e as pessoas me olhavam diferente... Percebi que os paulistas, e mesmo os bauruenses, são muito seletivos. Eu não: faço amizade superfácil”, destaca.


E foi com uma comida típica de sua terra, o acarajé, que Léa descobriu que podia ganhar uma grana extra e conquistar o coração dos bauruenses e dos nordestinos que por aqui vivem. Mas, para isso, ele teve de aprender a fazer a iguaria.


“Acredita que, no Nordeste, eu nunca havia feito acarajé? Aprendi aqui, na marra”, conta, rindo.


Atualmente, ela trabalha em uma barraca fazendo tapioca de terça-feira à domingo e, na segunda-feira, vende seu acarajé junto da tapioca de Miriam, em uma casa, no Jardim Marambá.

 

Casa nordestina


Comer o que se gosta é um dos maiores prazeres dos seres humanos. Para os italianos, não há nada como “mangiare” uma bela polenta acompanhada de uma taça de vinho. Para os japoneses, o tradicional sushi, sashimi e derivados não podem faltar à mesa. Nas diferentes regiões brasileiras, isso não é diferente. Para os nordestinos, nada é tão prazeroso como se deliciar com comidas típicas da terra, como pratos como sarapatel, cuscuz, rabada, carne de sol, entre outras iguarias típicas da terra.


Pensando nisso é que o comerciante Fábio Barrezzi, proprietário do Empório Barres, decidiu abrir em Bauru uma casa especializada no comércio de produtos nordestinos.


“Morei muito tempo em São Paulo e lá é muito comum casas especializadas em produtos nordestinos. Quando me mudei para Bauru, há 8 anos, senti falta deste segmento de comércio, foi quando decidi abrir o Empório Barres”, conta.


A iniciativa deu certo e foi comemorada pelos nordestinos residentes na cidade.


“Nos primeiros meses, alguns clientes chegavam a ficar emocionados quando entravam na loja. Eles moravam em Bauru há muito tempo e diziam ter sentido muita falta de comer os pratos nordestinos”, conta.


Nas prateleiras do empório é possível encontrar produtos que vão da famosa e marcante carne de sol à manteiga de garrafa e farinhas nordestinas, mais consistentes que as dos paulistas. Além disso, itens como castanha de caju, feijão de corda e grãos a granel são comercializados no empório.


“São alimentos que vêm de fábricas situadas no Nordeste, o que faz toda a diferença para quem já morou lá”, conta Fábio, que diz que atualmente os nordestinos representam 40% de seu público. “É que hoje em dia, com a difusão das receitas na internet, outras pessoas, que não são nordestinas, também se interessam pela gastronomia do local e procuram o empório”, justifica.

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