Bairros

Novos hábitos motivam plano de mobilidade

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 7 min

O maior número de adeptos do ciclismo já provoca também novos planos para absorver a crescente fatia desse tipo de trânsito na cidade. “Antes, quando eu saía para pedalar, não via ninguém nas trilhas. Hoje, a gente (ciclistas) se ‘tromba’, são aos montes”, observa Wagner Bisacchi, que, semanalmente, percorre rotas urbanas e rurais em Bauru e região.

Para organizar e dar maior segurança aos ciclistas, seja de final de semana ou para quem já vai trabalhar pedalando, a prefeitura trabalha num projeto de ciclorrotas, que pretende determinar os tipos de rotas para cada ocasião, bem como interligá-las. O plano, encabeçado pela equipe técnica da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb), segundo seu presidente, Nico Mondelli Júnior, pode sair do papel ainda neste ano.

O projeto, explica o chefe da pasta, começou a ser elaborado há cerca de um ano e meio e contou com a assessoria de ciclistas, que elencaram as principais rotas de fuga do tráfego de veículos mais acentuado, bem como vias para minimizar os efeitos da topografia de Bauru, longe de ser plana. “Saímos mesmo pedalando por toda a cidade, buscamos a menor declividade possível para as rotas bem como tirá-las das vias de alto tráfego”, detalha.

O levantamento, salienta o arquiteto João Felipe Lança, assessor da secretaria da presidência da empresa municipal, também levou em conta volume de circulação de ciclistas. De acordo com ele, um dos pontos de maior tráfego de bicicletas em Bauru é o viaduto Mauá, com passagem média diária de 70 ciclistas por hora, afirma ele. “A contagem foi realizada em pontos de afunilamento, como os viadutos Mauá e Antônio Eufrásio de Toledo”, exemplifica.

Dentro da proposta, inserida no projeto de mobilidade do município e previsto pelo Plano Diretor em 2008, está ainda a ideia de interligar todas as ciclovias e ciclofaixas existentes a ruas secundárias, ampliando a atual rede “cicloviária” da cidade.

Neste contexto, explicam os representantes da Emdurb, estariam as ciclorrotas (veja infográfico), onde as bicicletas dividiriam espaço com os carros, mas em menor volume do que nas grandes avenidas. “Além do grande fluxo de veículos motorizados, as principais avenidas de Bauru ficam em fundo de vale, dificultando o trajeto para o ciclista, com diferenças grandes de relevo”, observa o arquiteto Lança.

Junto ao estabelecimento das vias para trânsito de bicicleta e respectivas interligações – definidas ciclovias, “ciclofaixas”, “ciclorrotas” e “recreiovias” (leia infográfico) – está prevista também a distribuição de cartilhas educativas com os direitos, mas também deveres do ciclista no cumprimento à legislação de trânsito. “A estrutura para novos hábitos depende de nós”, assume Mondelli. “Mas também é preciso mudar a cultura”, enfatiza.

 

Qual a sua bike?

O barato ‘cansa’

Não basta apenas sair e pedalar por aí para adotar novos hábitos e, consequentemente, qualidade de vida. O modelo e utilizações adequados da bike são cruciais para um bom desempenho e prazer na atividade. Caso contrário, as primeiras pedaladas logo se transformam em fogo de palha e uma peça a mais para decorar a garagem.

Mesmo para ciclistas de primeira viagem, nem sempre o modelo mais em conta é o ideal. O barato, pode sair caro, orientam os mais experientes. O valor médio para investimento numa bicicleta com desempenho satisfatório para trilhas rurais, mas que também pode andar na cidade, está na faixa de R$ 1,8 mil, calculam lojistas do setor.

As bicicletas de magazine, entre R$ 300 e R$ 700, em média, podem servir para passeio leve no asfalto, mas são mais suscetíveis a manutenção corretiva. “Muitas peças precisam ser trocadas e com preço alto. No fim das contas, o barato sai caro na oficina”, acentua o ciclista Wagner Bisacchi, que também mantém oficina na bicicletaria de sua propriedade. “Só o valor desembolsado na troca de peças deixa a bicicleta com o preço de uma mais cara”, compara. “É preciso definir um objetivo claro, saber o que pretende”, orienta.

Definido o foco, ou melhor, a rota, o ciclista também deve estar antenado sobre a maneira como utiliza a bicicleta. Em muitas vezes, o desconforto causado por um selim mal  ajustado ou guidão fora das especificações para o tipo físico pode, ao invés de incentivar a prática esportiva, pode afastar, alerta Fábio de Oliveira, educador físico e fisioterapeuta. “Antes de usar é o mesmo que provar um terno no alfaiate”, ilustra.

Por uma questão de centímetros, explica o fisioterapeuta, sérias lesões podem ser evitadas. As pedaladas são otimizadas também ao ponto que o ciclista encontra o ângulo correto, seja na altura do selim e distância dos ombros para o guidão. “Não é simplesmente aumentar ou abaixar, não há uma receita de bolo. Fazemos um cálculo da altura e distância personalizado, com os ângulos adequados para cada ciclista”, diferencia o educador, que utiliza software específico para aferir ângulos e medidas.

Fábio também atenta para a clara definição do objetivo na hora de comprar a bike que, observa, não deve ser comprada apenas por ser a “mais barata”. “Veja bem o uso que vai fazer da bicicleta, pode ser urbano, de lazer, cicloviagem, trilhas, estradas. São muitas opções”, salienta.

“Não existe bike de qualidade ‘bem baratinha’. É preciso avaliar o custo x benefício sempre e pesquisar. O barato sai caro e cansa”, acrescenta.  “Uma boa bike permite bons ajustes. Comprar em bicicletaria é mais interessante. O vendedor pode ter mais experiência e orientá-lo melhor”, confia.

Outra boa alternativa é procurar por ciclistas experientes que, volta e meia, trocam boas bicicletas por equipamentos ainda melhores. “Quem está neste meio nunca vai estacionar”, incentiva a dentista Mariana Pereira Grassi que, há três anos, se dedica ao ciclismo de aventura. Ela também aconselha uma análise ergonômica antes de iniciar as pedaladas.

 

Selim:

Deve ser fixado no meio do curso de seu trilho e paralelo ao solo. (O avanço e recuo do selim esta relacionado com a posição de tronco e membros superiores).

A altura deve ser ajustada em uma altura em que a perna não fique totalmente esticada. Uma dica seria o ciclista sentado com os calcanhares apoiados na parte traseira do pedal, a perna deve ficar quase que completamente estendida.

A largura do selim é importante e deve ter largura suficiente para apoiar os ísquios (ossos do quadril).

Racionalidade

Trocar o “beco sem saída” cercado por fumaça, buzina e estresse, por um meio mais saudável, e econômico, de ir ao trabalho foi a opção do advogado Fábio Pereira Grassi. Há três anos, ao menos duas vezes por semana, ele pedala aproximados 6,5 quilômetros entre a casa onde mora, nos Altos da Cidade, até o Distrito Industrial.

Para ele, a substituição, ainda que parcial durante a semana, com trilhas de aventura nos dias de folga, é questão de racionalidade. “É racional deixar de gastar apenas com algo para ir e voltar. Além disso, deixamos espaço para quem precisa utilizar as ruas em tempo maior, como representantes comerciais por exemplo”, observa o advogado.

Ele admite que a tarefa, atualmente, não é das mais fáceis. “O relevo até que não é problema. A própria bicicleta absorve isso”, considera. A convivência entre bicicleta e veículos tracionados a motor, ou melhor, quem os conduz, é o diferencial negativo. “A questão do trânsito é sempre complicada. Não há tradição em respeitar o ciclista, mas também muita gente de bicicleta ignora suas obrigações nas ruas”, analisa.

Para ele, o grande desafio da cidade para abrigar maior número de ciclistas, em condições de mobilidade e segurança, é estabelecer interligações entre os diferentes pontos, seja através de ciclovias ou rotas alternativas ao grande fluxo de veículos a motor. “Se você der espaço para a bicicleta, ela vai ocupar”, aposta, acreditando numa virada contra a cultura de que se não temos carro, somos “mal-sucedidos”.

Fiscal no pedal

Ele fiscaliza o trânsito, na maioria dos casos, de veículos motorizados, mas não está a bordo de nenhum deles. Sobre pedais, Marcos Labão percorre os principais pontos da cidade a serviço do Grupo de Orientação de Trânsito (GOT), da Empresa  Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb).

O fato de usar a bicicleta não apenas como transporte para o trabalho, mas instrumento de profissão, diferencia o agente de trânsito, é a visão diferenciada sobre o convívio no trânsito entre motorizados, ciclistas e pedestres. “O olhar é outro. Vemos que falta consciência por parte do motorista, contudo, os ciclistas também, em boa parte, precisam seguir regras, como sinalizar a intenção, parar em cruzamentos e respeitar a mão de direção”, cita.

Labão é ciclista de longas datas e trilhas. Contudo, está há apenas um ano na Emdurb. Recentemente, ele foi procurado por representantes da empresa municipal para apontar quais seriam os principais pontos da cidade para abrigar rotas alternativas às ruas e avenidas de maior movimento e, desta forma, criar mecanismos para incentivar o uso da bicicleta como meio de transporte cotidiano em Bauru (leia nesta reportagem).

A partir do contato inicial, ele decidiu prestar concurso para fiscal de trânsito. “Ando de moutain bike há 20 anos, mas pedalo há 50”, comenta Labão, de 56 anos, que também diz ter trocado o automóvel e engarrafamentos por um estilo de vida e profissão mais saudáveis.

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