Um crime recheado de técnica, investimento e preparação. Por todos esses ingredientes, os furtos a bancos já serviram de inspiração a incontáveis obras no cinema. Mas não é só na ficção que eles ocorrem. Casos recentes em Bauru denotam criminosos bem articulados agindo na cidade. No fim de semana, uma nova agência se tornou alvo e teve aproximadamente R$ 246,4 mil levados. A polícia considera os crimes altamente preocupantes.
O caso mais recente ocorreu no Santander, localizado na quadra 7 da rua Luiz Aleixo, na Vila Cardia, onde ladrões conseguiram arrombar o cofre da agência. O impressionante é que os criminosos agiram no início da madrugada de sábado, porém, o furto só foi notado ontem, quando os funcionários chegaram ao local.
De acordo com o boletim de ocorrência (BO), os bandidos teriam invadido a unidade por uma das janelas aos fundos do piso superior do banco. Com um maçarico, os ladrões cortaram a porta que dá acesso ao cofre central. Por pouco, conforme o JC apurou, algumas cortinas não pegaram fogo.
Câmeras de segurança presentes no local flagraram parte da ação, contudo, foram desligadas pelo bando. Segundo a PM, na imagem, que tem a data da noite de sexta-feira, é possível verificar um homem com a cabeça baixa indo em direção ao equipamento para desconectar o circuito.
No local, os bandidos deixaram duas bolsas vazias, uma luva preta, um pé de cabra, uma chave de fenda, uma camiseta cor salmão e um alicate ao chão.
O BO aponta que os bandidos teriam escalado os muros da frente da unidade para subir ao telhado e chegar aos fundos. Pegadas foram deixadas nas paredes e constatadas pela Polícia Técnica, que periciou a cena do crime.
A PM afirma que o estabelecimento possui alarme, porém, o equipamento não teria disparado. No BO, consta que havia uma luva sobre o sensor de movimento, que não foi acionado.
Policiais relataram também que a patrulha no local acontece com frequência. Mesmo assim, a ação não foi notada por ninguém.
Preocupante
Em um intervalo de menos de um mês, já foram três casos de furto qualificado em agências bancárias de Bauru (veja no quadro abaixo). O titular da Delegacia de Investigações Gerais (DIG), Kleber Granja, enxerga a situação como “absurdamente preocupante”.
“Esse tipo de crime resulta em uma soma muito alta em dinheiro. E isso, provavelmente, provoca uma capitalização ao crime. Talvez até para facções criminosas. Então, preocupa. E muito”, explica.
O delegado ainda aponta outro sintoma visível desses casos: a fragilidade dos bancos. Em dois dos furtos, demorou-se dois dias para descobrir o crime. “Não é preciso ser especialista para perceber que os protocolos de segurança das agências estão superados. Os bancos precisam investir mais em segurança”, finaliza.
Atendimento interrompido
Por conta da descoberta do furto, o atendimento na agência do Santander permaneceu interrompido durante toda a manhã. Apenas os caixas eletrônicos, que não sofreram danos com a ação, funcionavam.
Dezenas de clientes que chegavam ao local eram orientados a dirigirem-se para a unidade da mesma empresa na quadra da frente. Alguns, entretanto, perderam viagem, assim como o aposentado Jairo Cazaça, 63 anos. “Queria reclamar sobre um desconto que veio na minha conta. Não pode ser em outra agência, tem que ser nessa, mas, pelo jeito, hoje (ontem) não vai dar”, lamentou.
Em relação ao furto, a assessoria de comunicação do banco não deu mais informações. “O Santander confirma o furto qualificado na agência localizada na rua Luiz Aleixo, em Bauru, e informa que irá contribuir com as investigações policiais”, declarou, em nota.
‘Modalidades’ de crimes em bancos apontam a organização dos bandidos
Mas quem são esses criminosos que conseguem, por meio de furtos ou roubos, driblar a segurança dos bancos? Ainda não há pistas e nem indícios de que se trate de uma única quadrilha, porém, o que é perceptível é o nível de organização de cada caso.
De acordo com o oficial de relações públicas do 4.º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4º BPM-I), capitão Alan Terra, os criminosos que agem nas chamadas “saidinhas” de banco seriam a base dessa pirâmide. “Eles fazem ações elaboradas, mas fora do banco. Geralmente, conhecem a rotina da vítima”, afirma.
A complexidade das ações só cresce a partir daí. Há aqueles furtos qualificados com uso de maçaricos e explosivos. “Esses casos exigem outra técnica. São mais preparados. E há situações em que o criminoso tem um conhecimento fora do comum. Ele sabe exatamente o que fazer no caixa eletrônico e como manipular”, explica o capitão, referindo-se a um furto ocorrido no dia 15 e que resultou em um prejuízo misterioso de R$ 89 mil.
Além desses crimes, há ainda o assalto a banco. “Esse representa um alto nível de organização. São ações extremamente pensadas em que um erro pode causar a prisão do grupo ou a morte de várias pessoas. São ações mais calculistas”, finaliza o capitão Alan Terra.
Febraban afirma que ampliou investimentos em segurança
Questionada sobre uma suposta fragilidade nas agências bancárias, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) afirma que os investimentos aumentaram significativamente nos últimos anos. Segundo a assessoria de comunicação, foram gastos R$ 8,3 bilhões só em 2011.
A federação aponta ainda que prova disso é a diminuição no número de roubos. “Os assaltos diminuíram 83%, de 1.903 no ano 2000, para 322, em 2012”, declarou a Febraban, em nota.
Sobre os itens de segurança, o argumento da federação é de que é elaborado um plano que passa por análise na Polícia Federal. “Aprovado o plano, são instalados todos os equipamentos de segurança e mobiliário da agência”.
A Febraban complementa que desenvolve diversas parcerias com as polícias e com o Judiciário para combater a criminalidade, inclusive a que atua fora dos bancos. “A Febraban atua, portanto, tanto na elaboração de ações propositivas que visem à segurança dos bancos, dos funcionários e usuários, como também nas parcerias com órgãos públicos no combate à criminalidade”.
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