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De protegidas a protetoras

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 5 min

Que a mulher está ganhando cada dia mais espaço no mercado de trabalho e exercendo funções que até então eram consideradas exclusivamente masculinas não é novidade para ninguém. Porém, neste contexto, ainda há uma profissão em que a presença feminina causa certa surpresa: a segurança armada.

A exigência de força física, coragem, disciplina, sangue-frio, além de uma boa mira, são os requisitos que durante muito tempo colocaram os homens no comando quando o assunto é segurança. Mas isso está mudando.

Seja pela adrenalina, seja pela sensação de capacidade, a profissão tem atraído cada dia mais a atenção das mulheres, que encaram o ofício com naturalidade.

Daniele Reinaldo Sírio Mazzo, 36 anos, trabalha como segurança armada há cinco anos.  Antes disso, foi auxiliar de cozinha e trabalhou com decoração de alimentos. Decidiu mudar de profissão por influência do ex-marido.

“Ele era advogado e eu o acompanhava por toda parte: fazia petições, fazia bicos como segurança em boates, lidava com presos, entre outras coisas. Foi nesta época que me interessei pela segurança armada”, conta.

Para trocar a cozinha pelo coldre, Daniele fez um curso de formação de vigilante e, na sequência, começou a cobrir o almoço de seguranças que trabalhavam em bancos de Bauru. Um ano depois, passou a integrar o quadro de vigilantes armados.

“Para mim é uma coisa natural. Para se dar bem na profissão é preciso dedicação, respeito, educação, estar disposta a aprender e estar sempre alerta. Os resultados são fruto dessa somatória”, conta ela, que é mãe de quatro filhos e faz questão de manter a linha dura também em casa. “Eles me chamam de chefona. Eu admito: sempre mantive as rédeas curtas”.

Para se dar bem no trabalho, Daniele tem outro segredo: treina jiu-jitsu nas horas livres. Apaixonada pelo esporte, ela o considera de extrema importância para sua defesa pessoal.

“Uma vez um homem me perseguiu com uma faca e tentou abusar de mim. Não pensei duas vezes: bati nele”, lembra, orgulhosa.

Mas não é só a Daniele que encontrou na farda e no coldre uma paixão. Daniela Aparecida da Silva, 28 anos, também deixou de lado profissões como secretária, auxiliar de produção e vendedora para trabalhar como vigilante armada.

O desejo e a curiosidade de atuar na profissão são remanescentes da infância, época em que gostava de observar o comportamento das pessoas.

“Sempre quis isso para a minha vida. Pensei até em entrar na polícia, mas como depende de concurso fica mais difícil. Por isso, assim que pude fiz um curso de vigilância”, explica.

Daniela Aparecida trabalha como vigilante armada desde agosto desde ano. Para ganhar a vaga passou por testes e disputou com 100 mulheres.

“Não é o máximo que eu tenha conseguido?”, pergunta, demonstrando satisfação com o feito.

Mãe de três filhos e mulher de um comerciante, ela confessa que a profissão que escolheu causa um pouco de preocupação na família, mas nada a ponto de abalar sua segurança.

“Eles sempre me pedem cuidado, ficam preocupados... Mas eu sei o que estou fazendo e estou preparada para o que der e vier”, avisa, confiante, ela que pretende fazer curso para tornar-se supervisora na área.

 

Farda cor-de-rosa

A farda não favorece as mulheres. Nem se fosse cor-de-rosa seria mais delicada. É uma vestimenta tipicamente masculina que prioriza o conforto e a segurança e não a beleza. Vestindo ela, geralmente, as mulheres ficam com um visual mais masculinizado. Mas se usar um revólver na cintura não é motivo de dificuldade para elas, driblar a pouca beleza de uma farda muito menos.

“Isso é o de menos. A gente passa um batom, pinta o olho com um lápis, prende o cabelo bem direitinho...”, explica Daniele Reinaldo Sírio Mazzo, 36 anos, vigilante armada.

A tática é adotada também por Daniela Aparecida da Silva, 28 anos. “Não é porque trabalho com farda que tenho de ser menos feminina. Se não posso caprichar na roupa, capricho na maquiagem e no cabelo”, conta, deixando a vaidade falar mais alto. 

 

Mulher-coragem

Jéssy Almeida, 42 anos, é diretora da divisão de escolta armada de uma empresa de segurança de Bauru. Seu trabalho é coordenar e orientar 120 homens, cuidar da parte administrativa da empresa, participar de determinadas escoltas de cargas, e, não raras vezes, fazer papel de psicóloga e de amiga.

Apaixonada pelo que faz, ela se dedica 24 horas por dia ao trabalho. Mas se engana quem pensa que sua atual situação é realização de um sonho antigo. Isso porque Jéssy começou na profissão por acaso. Na verdade, não seria incorreto dizer que foi a profissão quem a escolheu.

“Comecei a trabalhar na empresa na parte de segurança eletrônica, há 18 anos. Certo dia, meu chefe veio até mim e me propôs um desafio: estruturar a divisão de escolta armada da cidade de São José dos Campos. Topei”, conta.

Para se dar bem na profissão tão predominantemente masculina, Jéssy usou de táticas tipicamente femininas: deixou a razão, em muitos momentos, falar mais alto que a emoção.

“Para conquistar respeito não é preciso ser grossa, carrancuda ou mal educada. É preciso equilibrar a razão e a emoção. Tenho de enxergar que não estou lidando somente com produtos, mas, sim, com pessoas. E que estas pessoas têm família. E que estas famílias devem estar tranquilas com o trabalho de seus entes, seguras e bem amparadas”, explica.

Mas somente o jogo de cintura não é suficiente para que Jéssy se mantenha na profissão. Além disso, é preciso coragem para enfrentar os desafios diários da vida que escolheu como, por exemplo, ter de lidar com tentativas de roubos de cargas e investigação sobre quadrilhas especializadas no crime.

“Sempre quando necessário participo de escoltas. Em muitas delas já notei, sim, pessoas seguindo caminhões. Felizmente nunca foi necessário agir, pois os suspeitos notaram a presença da paisana. Mas sei que é algo que pode acontecer a qualquer momento”, frisa.

Segundo ela, o aumento do interesse das mulheres por este tipo de serviço é constante, embora poucas cheguem a se arriscar na profissão.

“As mulheres têm muitos requisitos indispensáveis, como o cuidado, a atenção e o não envolvimento com prostituição nas estradas. Porém, poucas querem se submeter à rotina de viagens ou têm conhecimento suficiente das estradas”, pontua.

E se engana quem pensa que Jéssy está satisfeita com a atual situação de sua carreira.

“Vamos abrir uma nova filial e quero dobrar a minha equipe em 2013”, planeja.

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