Enquanto reina a falta de compromisso ideológico no Congresso, as mídias sociais são um terreno fértil para as bandeiras que muitos ainda carregam. As ideologias aparecem na Internet explicitamente ou nas entrelinhas. Existem posts que são verdadeiros panfletos políticos digitais e outros em que uma frase irônica do internauta já sugere quais são suas cores. O volume dos debates é grande. Quando se aproximam eleições ou quando um novo escândalo estoura, há uma chuva de almas lavadas na web. Há bandeiras de todos os tipos. Sociais-democratas de verdade, por exemplo, são os que menos falam (ou digitam). A direita está presente e em franca ascensão depois dos escândalos do mensalão - cabe lembrar que as classes que abarcam as contendas políticas nas mídias sociais estão situadas do meio da pirâmide para cima. A esquerda, como sempre, aparece dividida entre inúmeras facções que muitas vezes se autoenfrentam e esquecem da direita (mas é um bloco consistente e crescente).
Apesar de a direita estar por cima nos últimos tempos, um fato curioso me chamou a atenção: as pessoas mais inteligentes desse grupo (aqueles que são articulados, que têm bons argumentos, que defendem ideias e pontos de vista plausíveis) recusam o rótulo "direitista" e dizem que são de centro. Não são as mesmas que ficam postando fotos de Joaquim Barbosa, pedindo a ele que se candidate à Presidência, vendando os olhos para o DNA do mensalão. Existe todo tipo de ação e reação nessas batalhas políticas de Facebook. Outro dia, uma dessas imagens de Joaquim Barbosa foi "contra-atacada" pelo post de uma matéria publicada no Estadão (em 2010) em que o ministro aparece tomando um chopp no boteco enquanto estava de licença médica. Ou seja, um contra-ataque baixo, pois aquele erro do passado não abala os acertos do presente. Mas é comum o debate descambar para esse clima de rivalidade futebolística.
Quanto às ideologias "nanicas", como a extrema direita, aparecem no subtexto dos comentários de uma larga porcentagem de internautas (que talvez nem saibam disso), ou em forma de movimentos organizados - através de posts mal disfarçados, que carregam o estilo artístico da propaganda do III Reich.
Outro dia eu alertei uma amiga que compartilhou um post que pretendia ser o ponto de partida para um novo partido (mais um!). Li as propostas do partido: só tinha repressão, sectarismo e reação. Era um apanhado de medidas que podemos reduzir ao seguinte veredito: "o Brasil está afundando, vamos nos defender como pudermos e prender o máximo de gente possível em regime de trabalho forçado". Escrevi para ela pedindo que não se iludisse com esse tipo de solução, porque não funciona. Disse que os nazistas fizeram quase o mesmo na Alemanha, na crise entre as duas guerras mundiais. Alguns poucos podem até pensar o contrário: "no nazismo funcionou, afinal eles acabaram com a crise econômica e se tornaram novamente uma potência em poucos anos". A diferença é que o Brasil não está afundando, como estava a Alemanha. Estamos crescendo, enquanto a Europa é que parece naufragar em uma crise sem solução.
Obviamente, não acho que tudo vai bem aqui, mas acredito que estamos melhor do que em qualquer outra época. Os dois partidos que estão no topo da política nacional desde 1995 têm contas a acertar com o passado (e talvez com o presente), mas não são aventuras ideológicas. O PT e o PSDB possuem programas e ideais legítimos. Na história dos principais países da Europa há sempre partidos equivalentes ao PT e ao PSDB que foram fundamentais na conquista do padrão de vida que eles têm agora (ou tinham até 2008). Melhor que eles se reinventem para continuar na disputa, do que passarmos por mais uma febre de "reconstrução" ou "renovação" nacional.
O autor, Luís Paulo Domingues, é colaborador de Opinião