Tribuna do Leitor

José Santino, Zico Godoy ou simplesmente Papai


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Pra mim, só Papai. É assim que eu sempre lhe chamei. Por algumas vezes senti vergonha por ser uma maneira diferente, fora de uso daqueles que quando muito os dizem "pai": as vezes velho, você.

Pra mim: Papai, o senhor... Ah! Suas bênçãos Papai! Foi assim que eu aprendi. Todos nós temos defeitos. Meu Pai não, só virtudes. Lembro-me que na minha infância ? tempos da ditadura ? não existia vale transporte e outros benefícios sociais.

Papai trabalhava na Sanbra (sim, Sanbra com "N" ? não entendia, pois a escola que eu freqüentava ensinava que antes de "B" e "P", só o "M" ? mas, o significado era: Sociedade Algodoeira do Nordeste Brasileiro). Papai sequer concluíra a antiga 4ª série do "grupo escolar". Ele ia e voltava do trabalho a pé ? cerca de 15 km ida e volta ? pois, como disse, naquela época não havia vale transporte e dinheiro para o transporte.

Morávamos no Parque Vista Alegre e ele cortava caminhos pelos trilhos da Cia Paulista, Estrada Noroeste para encurtar a caminhada e chegar ao trabalho na Vila Independência. Corria turnos de trabalho: das 7h às 16h; das 14h às 22h e das 22h às 7h, também não se falava em jornada de 6 horas pelo turno ininterrupto.

Certa ocasião à noite, no retorno do trabalho que terminara às 22h, foi parado na Baixada do Silvino pela Polícia Militar (acho que talvez ainda fosse a Força Pública de São Paulo, não sei). Pediram-lhe os documentos. Eram poucos os que tinham "RG" e Papai, cuidadoso como sempre, não carregava sua carteira de trabalho para não rasurá-la.

Papai então se voltou para a polícia e respondeu: - Eu trabalho na Sanbra. Acabei de sair agora as 10h (22h). O único documento ou prova que tenho está aqui ? falou mostrando-lhes a marmita vazia que trazia consigo nas mãos. Aquela atitude lhe valeu como indulto, mais do que qualquer passaporte diplomático daqueles buscados pelos amigos da Presidência da República. E foi assim que lhes disseram: - Estamos vendo que o senhor é um trabalhador. Porém, o aconselhamos que passe a trazer consigo sua carteira de trabalho para não ser confundido com baderneiros, comunistas, etc...

Aprendi ouvindo aquilo que Papai sempre me falou: "Podem me chamar do que for, mas não me chamem de vagabundo". Abraços, beijos... Te amo, papai. Mais uma vez peço-lhes suas bênçãos e que meu filho possa ver em mim um pouco do que vejo no senhor. Dedicado ao meu grande Pai: José Santino Sobrinho ou o Zico Godoy de Itaju.

Wagner Aparecido Santino

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