Quando criança, ele queria partir com o trem da Noroeste para conhecer o mundo. Nessa tentativa, aos 11 anos Clodoaldo Meneguello Cardoso saiu de casa para estudar em um seminário, onde revolucionou ao estudar filosofia em uma faculdade comum, com direito a vestibular, trote e meninas na sala de aula.
Sem vocação para a vida religiosa, foi na época da faculdade que ele mergulhou no movimento estudantil, no tempo da ditadura militar. “Foi um período de muita luta, muita resistência. Nessa época, eu tive uma experiência forte também no campo teatral”, conta o professor Clodoaldo, que chegou a abandonar um mestrado para viver nos palcos.
Ligado à arte e já em Bauru, Clodoaldo foi um dos fundadores da Casa da Cultura da Sete de Setembro: “Fiz dois grandes festivais de teatro, até que os planos mudaram novamente”.
E aos 40 anos, o então professor de língua português assumiu novamente a filosofia, fez mestrado, doutorado e pós-doutorado. Fundou um núcleo de pesquisa sobre preconceito, projeto grande que ficou ainda maior a partir de 2007, com o Observatório de Educação em Direitos Humanos (ODEH), projeto da Universidade Estadual Paulista (Unesp) coordenado por ele.
JC - A filosofia e a sua infância se cruzaram?
Clodoaldo - A minha formação tem uma história ligada à filosofia, sim. Eu tive uma infância muito feliz. Eu vivi em várias e pequenas cidades da Noroeste porque meu pai era chefe de estação. Cresci em um ambiente de igrejas, com quermesses, procissões, fui coroinha... Nessa feliz infância, aos 11 anos eu resolvi sair de casa para estudar em um seminário. Então, a filosofia vem dessa minha formação clássica.
JC - O senhor queria ser padre?
Clodoaldo - Eu fiquei no seminário por toda a minha adolescência. Foi uma fase interessante, porque eu vivi e ajudei a provocar mudanças profundas no seminário. Nossa turma era muito revolucionária (risos).
JC - E quais foram essas revoluções?
Clodoaldo - Por exemplo, nós forçamos o diálogo com os padres, com a direção e fomos fazer filosofia longe do seminário, em faculdades comuns, com vestibular, trote, meninas na sala de aula.
JC - E por que o senhor não se tornou um padre?
Clodoaldo - Na realidade, eu fiquei muito tempo tentando entender o porquê da minha entrada no seminário, e não o contrário. Mas, depois de muita reflexão, eu descobri que entrei porque eu queria conhecer o mundo. Se o seminário fosse na minha cidade, provavelmente eu não teria ido. Como uma criança curiosa que eu fui, eu via o trem sumir na curva da estação e eu queria ir junto, queria saber o que havia além (risos). Outra coisa que eu percebi é que eu tinha uma vocação pública muito forte. E nesse sentido, professor, padre e artista estão todos no mesmo palco (risos). E foi essa expansividade quem dirigiu os meus projetos de vida.
Jornal da Cidade - Lecionar sempre esteve nos seus planos?
Clodoaldo - Ser professor é ter uma profissão privilegiada no sentido humano da palavra. Nessa profissão, pude unir o emprego e o trabalho. Parecem ser a mesma coisa, mas não são. O trabalho é uma ação humana, de realização humana. Ele está ligado à transformação das coisas, ao relacionamento entre as pessoas. Já o emprego está ligado ao salário, à sobrevivência. E, não necessariamente, essas duas coisas andam juntas. Eu tive a felicidade de tê-las durante toda a minha vida. Mesmo aposentado, eu continuo dando aulas em cursos de curta duração e leciono há quase 45 anos.
JC - O grave acidente de trânsito que o senhor sofreu em 2009 mexeu com o seu modo de ver a vida?
Clodoaldo - Eu estava dentro de um taxi, dentro da cidade, no momento do acidente... Quer dizer, a vida é um fiozinho. Eu fiquei mais sensível e introspectivo. Passei a pensar que a gente precisa valorizar o presente sem pensar no futuro. Eu gosto muito das lembranças do passado porque tive muitos momentos felizes. Não quero voltar ao passado, mas ele me dá forças para os atuais projetos.
JC - Quem é o homem Clodoaldo?
Clodoaldo - Eu sou o que eu sonho ser. Nós somos um pouco o que queremos ser amanhã. O sonho também constrói. A vida é um processo de autoconhecimento. À medida que você vai conhecendo o mundo e conhecendo outras pessoas, você conhece um pouco mais de você. Nós não somos seres prontos. O autoconhecimento e a autoconstrução são processos contínuos e é isso que é a vida. Em mim esse processo está ligado a projetos. A vida não tem um significado pronto.
JC - Quais foram os seus grandes projetos de vida?
Clodoaldo - O primeiro foi querer ser padre aos 11 anos. Depois, a faculdade de filosofia, feita na PUC de Campinas. Foi mais do que um projeto, foi uma paixão de anos de estudo profundo da filosofia. O movimento estudantil foi outro projeto, no tempo da ditadura militar. Foi um período de muita luta, muita resistência. Nessa época, eu tive uma experiência forte no campo teatral.
JC - Passou muito tempo sobre os palcos?
Clodoaldo - Fiz curso, trabalhei e consegui unir o teatro com o movimento estudantil. Eu fazia teatro político e acabei tendo uma experiência também com o movimento hippie. Passei dias em acampamento hippie, mas sempre como estudante de filosofia, eu queria conhecer tudo.
JC - A sua vinda para Bauru foi outro projeto?
Clodoaldo - Sim. Eu terminei a faculdade, fui para o Rio de Janeiro, onde morei um período em Petrópolis, e comecei um mestrado em filosofia. Entretanto, eu abandonei o mestrado e mergulhei no teatro. Mas a situação lá estava difícil e resolvi vir para Bauru, onde meus pais estavam morando. Aqui, comecei a dar aulas na Universidade Sagrado Coração (USC), fiz faculdade de Letras e resolvi assumir Bauru como minha terra, isso aos 25 anos e com muita viagem na bagagem.
JC - E qual foi o próximo passo?
Clodoaldo - Dediquei-me ao primeiro casamento, aos filhos e vi que precisava de um projeto social, algo que sempre me acompanhou. Peguei o teatro. Trabalhei muito tempo na Cultura, fui um dos fundadores da Casa da Cultura da Sete de Setembro, fiz dois grandes festivais de teatro no Municipal, enfim, dediquei-me muito às artes, até que os planos mudaram de direção novamente.
JC - E partiu para qual lado?
Clodoaldo - Voltei para a filosofia, minha antiga paixão. Eu era efetivo no Estado como professor de língua portuguesa e pedi demissão. Afastei-me do teatro e da parte cultural. Depois dos 40 anos, eu ingressei no mundo acadêmico, fiz mestrado, doutorado, pós-doutorado. Na filosofia, voltei-me para a questão ética. Fundei um núcleo de pesquisa sobre preconceito, um projeto grande que ficou ainda maior a partir de 2007, com o Observatório de Educação em Direitos Humanos (ODEH), um projeto da Universidade Estadual Paulista (Unesp) coordenado por mim. Pedi a aposentadoria para ficar ainda mais disponível para esse atual projeto, que é bastante longo.
JC - Quando a fotografia passou a ser um hobby para o senhor?
Clodoaldo - Isso aconteceu ainda no seminário. Um dos padres formou um grupo de alunos interessados em comunicação. E eu acabei começando lá. Aprendi e hoje é um hobby pessoal. Além de ser o fotógrafo da família (risos), eu gosto de pegar um tema qualquer e fazer ensaios. Fiz isso com o aniversário da cidade, por exemplo.
JC - Quando criança, o senhor queria seguir o trem para conhecer o mundo. Conheceu?
Clodoaldo - Ah, eu viajei muito. Na época da faculdade eu pegava muita carona (risos) e hoje viajo com minha atual esposa. Rosangela é uma grande companheira e também é professora. Na minha vida eu conheci alguns professores maravilhosos, quando o assunto é relacionamento com os alunos, e ela é um desses raros profissionais.
JC - E como começou a sua coleção de corujas?
Clodoaldo - O animal é o símbolo da filosofia e depois de ganhar os primeiros exemplares eu comecei a comprar os bibelôs, até que precisei estipular que levaria para casa apenas as peças feitas com materiais diferentes, porque uma coleção é uma coisa sem fim (risos).