Neide Carlos |
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Vai um espetinho de gato? Na foto, Fabiane e Ruth Luchesi |
Você já parou para analisar as origens e o que querem dizer os nomes dos estabelecimentos comerciais que frequenta ou que encontra por seu caminho diário? Nos bairros de Bauru, algumas dessas casas comerciais ganham nomes criativos e até engraçados. E há quem garanta que diversificar na escolha do nome do comércio é uma boa tática para não ser esquecido.
Que atire a primeira pedra quem nunca comeu um espetinho de gato. Agora, e se esse espetinho for de angorá? “Gato de raça é sempre melhor”, brinca Fabiane Cristina Luchesi, dona dos “Espetinhos Angorá”, na Vila Cardia.
Fabiane começou vendendo espetinhos na calçada de um bar do bairro, até que há pouco mais de um ano teve a ideia de montar o seu próprio negócio, em casa, e ao lado da mãe, Ruth Luchesi. E o nome do bar nasceu movido pelo amor de Fabiane pelos bichanos e pela irreverência sugerida pela combinação das palavras “espetinhos e angorá”.
A comerciante brinca com o nome e lembra que crianças passam em frente ao bar e perguntam se o lugar é um pet shop, por causa das patinhas pintadas no muro. Mas nem todos entendem a brincadeira. A própria Ruth, por exemplo, gostaria de mudar o nome do estabelecimento. Mas Fabiane está bastante satisfeita com a reação dos clientes.
“Acho que nomes criativos prendem a atenção de quem passa pela rua e acabam sendo um convite para a porta de entrada. E os clientes brincam, fazem piadas, o que também gera amizade. Estou até pensando em colocar uma campainha para chamar o garçom com um som que imite um miado de gato”, sorri ao planejar.
Totó e só
A portinha é estreita, mas o nome chama a atenção de quem passa pela rua Primeiro de Agosto, no Centro de Bauru. “Loterias Totó e Só”. O estabelecimento é do simpático senhor Manoel de Souza, que herdou o comércio da família há algumas décadas. Mas o nome...
“Esse é um comércio de família que existe há mais de 55 anos. E o nome sempre despertou a curiosidade das pessoas que por aqui passam. Um ou outro ainda faz um comentário, mesmo com a pressa que as pessoas têm hoje em dia. Agora, não sei dizer ao certo o que significa. Pode ser por causa do nome de alguém, ou também pode ser uma brincadeira. Imagine, se o sujeito acerta na sorte, ganha um bom prêmio, vai se lembrar apenas do Totó”, brinca.
Acerte no nome
O nome de uma empresa deve ser escolhido com calma, prudência e bom senso, assim como o nome de um filho, aconselha Ana Carolina Pacheco, que é docente da área de marketing do Senac Bauru. Isso porque ao longo da trajetória organizacional, é o nome que irá externar os valores, se posicionar no mercado e causar boa ou má reputação entre os consumidores.
“É importante pensar a quem é destinado o negócio e, a partir do perfil deste público, pensar em um nome. É aconselhável fugir sempre de grafias e pronúncias difíceis e nomes muito longos. Quanto à criatividade, é tudo uma questão de como você irá trabalhar a sua marca, a que irá remetê-la, quais elementos gráficos você usará para ilustrá-la”, acrescenta.
‘Tem de tudo nesse vizinho’
Na Vila Industrial, mercado ganha nome para fidelizar clientes próximos
Imagine ter um vizinho onde você possa encontrar tudo o que a sua casa precisa. Foi nisso que o proprietário do supermercado “Vizinhão” pensou quando deu o nome ao estabelecimento montado há pouco mais de dois anos na Vila Industrial, segundo o gerente Robson Fernando Ferraresi.
De acordo com Robson, o intuito inicial foi montar um lugar que funcionasse realmente como aquele grande vizinho que te socorre em todas as necessidades. Faltou açúcar ou café bem na hora que a visita chegou? Ao lado está o vizinho para socorrer os moradores do bairro.
“Hoje os grandes supermercados atendem a cidade de ponta a ponta. Tem gente que se desloca grandes distâncias para fazer compras. Mas com um supermercado ao lado de casa, as pessoas não precisam ter esse trabalho. Por isso o nome Vizinhão também foi uma tentativa de gerar proximidade com a comunidade ao redor e fidelizar os clientes. E deu certo”, explica Robson.
Para a família Rodrigues, o nome não poderia ser mais propício para um supermercado da vizinhança. “Aqui, a gente conhece os funcionários e estamos perto de casa”, confessa Nilton César.
Um asilo diferente
“Uma senhora bem-humorada me ligou outro dia, porque estava precisando de pisos para a sua calçada, e me perguntou se eu estava recebendo internação porque ela estava cansada e precisando de uma casa de repouso. Começamos a rir. Esse tipo de brincadeira sempre acontece por causa do nome da minha loja”, conta Roberto Garcia Rodrigues, proprietário da loja “Asilo dos Azulejos”, na Vila Seabra.
O grande volume de material que Roberto mantém no estoque, grande maioria que não se fabrica mais, é rigorosamente organizado por ele desde 1985, quando o então desenhista paulistano decidiu trocar a prancheta pelo comércio em Bauru. “Dei tal nome para a loja porque vendo muita coisa antiga. Tenho peças de 1960. Coisas raras mesmo”.
De acordo com o comerciante, o nome da loja sempre chama a atenção dos clientes e, por conta disso, ele coleciona histórias. “Certa vez, eu contei para uma cliente que havia trazido o material que ela estava comprando do cemitério de São Paulo, mas esse é o nome que uma loja do mesmo ramo tem na Capital. Não teve jeito, mesmo explicando que cemitério é o nome de um comércio, ela não quis mais saber da compra”, recorda.
O estoque de cerca de 30 mil metros quadrados abrange uma variedade enorme de azulejos, pisos cantoneiras e tudo o que mais existe em cerâmicas, porcelanatos e afins. “São coisas do tempo das vovós”, brinca.
E por falar em brincadeira, para o comerciante, bom humor é fundamental. Ele alega ser muito brincalhão porque a vida é curta demais e não pode ser desperdiçada com coisas negativas. “Por isso também dei um nome criativo para a minha loja, para chamar a atenção. Ah, outra coisa curiosa que acontece é o fato das pessoas ligarem com o pensamento na Vila Vicentina. Sempre deixo o número da Vila perto do telefone, porque não é raro eu receber ligações de gente querendo fazer doações ou falar com alguém do asilo”, diz.
‘Pimenta nos pés’
Uma loja que chama a atenção pelo trocadilho sugerido pelo nome é a “Pé de Pimenta”, com dois endereços na região central de Bauru. Para a comerciante Marilda Rufino, as pimentas transmitem sensualidade por causa do seu formato e cor. “Já os sapatos femininos também chamam a atenção pela sensualidade que oferecem, principalmente se forem de salto. E eu gosto de pimentas, então juntei tudo e surgiu o nome”.
Entretanto, Marilda recorda que a loja nasceu como “Café com Pimenta”, nome que não pegou porque as pessoas achavam que se tratava de uma cafeteria. “Mas do novo nome as pessoas gostaram. Acham forte e marcante, como as pimentas mesmo”.
A comerciante ainda destaca a importância de pensar bem na escolha do nome comercial de uma loja. Para ela, além de criativo, o nome precisa marcar visualmente.
Quando o apelido vira negócio
Populares, eles também estampam fachadas de estabelecimentos nos bairros
Quem nunca viu ou ao menos ouvir falar sobre um bar do “Toninho’, mecânica do “Tonhão”, açougue do “Baixinho”... Em muitos casos, as características físicas geram apelidos ainda na infância e estes acompanham seus “donos” por toda a vida. Há quem, inclusive, use-os como marketing na hora de montar um negócio.
Roberto Vieira Mota, por exemplo, é conhecido desde menino como “Zóio” por causa da vermelhidão causada por uma alergia. Mas engana-se quem pensa que em algum momento ele se incomodou com o apelido, ao contrário, transformou a sua popularidade em negócio e marca registrada de um negócio próprio montado no Parque Bela Vista.
“Ninguém me conhece por Roberto, apenas por Zóio. E isso pegou a ponto de meus amigos me darem a ideia de batizar a minha borracharia com esse nome. Meus clientes gostaram da ideia. É um nome diferente e engraçado para uma borracharia”, conta.
E histórias não faltam para o irreverente Zóio por causa deste seu apelido. “Como o meu olho está sempre vermelho, já fui parado pela polícia por suspeita de uso de entorpecentes. Dou risada quando isso acontece”, diz com bom humor.
Borracharia do ‘Testa’
Jeferson Edson Luiz é prova de que um apelido que não agrada é o que fica. Desde o início da adolescência, quando ainda vivia no estado de Minhas Gerais, ele é conhecido como “Testa”. No início o apelido não agradou, mas o tornou popular e, por isso, ele decidiu adotar o nome inusitado e até usá-lo com marketing para a sua borracharia.
“Eu tive vários apelidos quando criança. Já me chamaram de pé grande, cabeção, pirulito, caveira... E, como eu nunca me importei com nenhum deles, eles não pegaram. Já no início da adolescência, eu vivia de boné por achar que o acessório me deixava com uma boa imagem. Até que tiraram o boné da minha cabeça em uma brincadeira e passaram a me chamar de testa. Eu não gostei, até arrumei briga por causa disso, mas não teve jeito, o apelido pegou mesmo”, lembra.
Depois de um tempo, Jeferson se tornou popular por causa do apelido e não se importou mais. Até gostou e o trouxe na bagagem quando se mudou com a família para Bauru. “Não sei o que acontece, mas um adolescente com apelido ganha popularidade. E eu gostei disso”.
Há 7 anos, Jeferson aproveitou a popularidade do apelido para dar nome ao seu próprio negócio, montado na avenida Duque de Caxias, região da Vila Mesquita. E quando um cliente pergunta por telefone quem está falando do outro lado da linha, não é Jeferson quem responde, mas sim o Testa. “E quando me perguntam o porquê do apelido, basta tirar o boné”, sorri ao contar.
No ‘Kopi Loco’, de tudo um pouco
No comércio de bairro, os apelidos dos proprietários não ganham destaque somente em borracharias ou oficinas. Entre os mais variados artigos como vassouras, doces, bijuterias, acessórios femininos, produtos de higiene e limpeza, artigos de decoração... Está o comerciante José Carlos Pole Alvarez, ou melhor, o Kopi, como é conhecido desde criança.
Foi por causa do apelido recebido há mais de 40 anos que o comerciante resolveu nomear a sua loja montada na Vila Dutra e batizada de “Kopi Loco”. E, segundo ele, as pessoas gostam do nome, entre os motivos, está o fato do apelido mostrar de quem é o comércio.
“Eu acredito que as pessoas preferem comprar em estabelecimentos de gente conhecida. Ao menos aqui no bairro é assim”, defende. Já a cliente Nilza Hunzicher diz que o nome do lugar é diferente e, por isso, também chama a atenção dos moradores.
