Entre uma conversa e outra por mesas fartas, ecoa a pergunta: “E o seu Nikolaus, cadê?”. A resposta vem em forma de elegância: postado perto do jardim, o anfitrião surge feliz, em roupa de festa, para brindar a entrega de um sonho.
Neide Carlos |
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O mestre cervejeiro Nikolaus Engelmayer Bauernebl conta sua saga pessoal e a arte, das mais sensíveis, de produzir o bom chopp |
A profissão de cervejeiro está na família há nove gerações. “É bastante porque cada geração leva uns trinta e cinco anos para dar lugar a outra na vida produtiva”, comenta.
Nikolaus Engelmayer Bauernebl não perde o tempo de vista. E brinca com projeções. “Já tenho emprego para o futuro”, diz em alusão à cervejaria (ou sonho) que acaba de transformar em realidade em Bauru.
O menino de 12 anos que fugiu da guerra numa Europa incerta e violenta custaria a acreditar, se informado fosse por um vidente, que chegaria a esta altura da vida com tal realização. Mas chegou.
Da tormenta ao ‘presépio’
É uma história iniciada em 12 de janeiro de 1933. Foi diante desse calendário que Nikolaus nasceu em Budapest – capital e maior cidade da Hungria, às margens do rio Danúbio.
Todo o cuidado foi tomado - para que todo o cuidado resultasse em um parto perfeito, no melhor hospital da época.
Afinal, a família já havia enfrentado o trauma de perder um menino de seis anos, Constantino – que, aos 5, declamava poesias e se revelava encantado com os mistérios da fé. Era de rezar em altar e tudo. A saúde frágil calou as orações.
A proteção familiar para uma chegada não acidentada de Nikolaus era, portanto, plenamente justificável. E deu certo.
Mas o garoto saudável não chegou a um mundo tão receptivo assim. Tempos difíceis eram aqueles - antes e depois de 1933.
“Em 1938, a Tchecoslováquia acabou invadida pelos alemães – o que também ocorreu com a Hungria”, lembra Nikolaus.
Naquele mesmo ano, ele chegou a ser escolhido para cumprimentar o presidente húngaro durante desfile na cidade de Kassa Kosicte. Uma honra de difícil entendimento em plena infância. E daí? Era uma honra, e ponto.
A alegria pueril logo se transformaria em tormenta. A família já tinha cervejaria, e logo tudo ficaria para trás.
“Em 1944, já perto da derrota total alemã, fugimos da Hungria para a Áustria, onde fomos tachados de refugiados”, lembra. “A Áustria estava sem nada. Àquela altura, todos os serviços ficaram paralisados na cidade para a qual rumamos”.
A cidade de 1.500 habitantes era TraunKirchen – e parecia, segundo palavras de Nikolaus, um “presépio” de tão bucólica e aprazível, apesar dos estragos da Grande Guerra.
Ou seja: países que ficaram ao lado da Alemanha (por convicção ideológica ou por falta de forças de reação), como bem se sabe, tiveram sérias dificuldades no fim e no pós-guerra.
A Hungria, que chegou a ser invadida por Hitler (justamente em 1939) depois declararia-se “neutra” para buscar sua reconstrução sem a mão pesada dos vitoriosos Aliados.
A Áustria, por sua vez, fora invadida pelos alemães em 1938 – e também tinha muito trabalho de recomposição geopolítica pela frente. As cidades podiam estar paralisadas, mas as pessoas, não.
Ternos para os bailes
Envolvido em dúvidas e adversidades, o jovem Nikolaus – na Áustria e aos 12 anos – virou aprendiz de cervejeiro. “Pegava no pesado mesmo. Carregava o que era preciso, botava a mão na massa...)
Após três anos, leu num jornal que a maior cervejaria austríaca (Schwechat, de Viena) – montaria uma unidade em um país distante, quente, vibrante e acolhedor. “Fiz testes, fui aprovado”.
Como resultado direto, o Brasil entrou na rota de suas pretensões. “Em setembro de 1953, eu e um colega embarcamos até Santos. De lá, até São Paulo. E de lá, até Agudos, onde estava a cervejaria”.
Claro, houve barreiras culturais. “Mas o húngaro se adapta fácil. E guarda semelhanças com o povo brasileiro, como o gosto pela música, pelo convívio em sociedade e pela cerveja!”
Resumindo: três dias depois, Nikolaus já era sócio de um clube em Agudos – e já acumulava amizades, algumas, cruciais para aprender o novo idioma.
Ternos para bailes? Precisou encomendar por aqui mesmo. “Não trouxe. Por que traria? Diziam lá que eu só encontraria mato, o que era desconhecimento puro. Encontrei o futuro”.
‘Pão líquido’
Estabelecido em Agudos, o jovem cervejeiro – que também coordenava turnos de trabalho – viu a unidade que o acolheu, Vienense, ser adquirida pela Brahma. Nikolaus permaneceu.
“E, um dia, o mestre-cervejeiro perguntou se eu queria fazer pós na Alemanha. Eu disse: ‘Se a Brahma ajudar, vou nadando”.
Não que o interesse fosse sair definitivamente do Brasil, mas, sim, o de estudar lá fora – e de reencontrar parte da família.
Como já namorava Alair Prado (que viria ser a mãe de seus três filhos), acelerou o enlace formal para levá-la na viagem na condição de esposa.
Foi, fez a pós, abraçou a família e, de novo, despediu-se para voltar ao Brasil – agora como terceiro mestre-cervejeiro, aos 23 anos. Na rotina, degustação diária do “pão líquido” – como a bebida era chamada na Alemanha.
Condicionamento
Ao lado do trabalho com cerveja, esportes. “Sempre pratiquei”. Nikolaus, até pouquíssimo tempo, fazia natação. Hoje, vai de pilates.
E já que o assunto sempre borbulha em torno de sua vitalidade, uma dica ele entrega de bandeja: “Consuma salada”. E melhora a ideia: “Muita salada, reduzindo a carne vermelha no dia a dia”.
Já com esses hábitos na década de 60, seguiu em frente para turbinar a expansão da Brahma numa época em que trabalhar muito não concorria com pequeniques em família e prolongadas conversas de quarteirão. No ritmo do passado, chegou rápido ao presente.
Do macro ao micro
Foram, enfim, 43 anos de Brahma – inclusive assumindo comando cervejeiro a partir de 1976.
Após saída da empresa, em 1995, veio a experiência de quatro anos na Cervejaria dos Monges, em Bauru – para a qual desenvolveu a bebida de alto consumo na noite.
“Passei mesmo a gostar da ideia de apostar no conceito de micro-cervejaria após fazer parte de uma gigante do ramo”.
A possibilidade tentadora foi sendo curtida, amadurecida. Com a Servus, Nikolaus tem a seu lado os filhos Eleonora, Peter Klaus e Paulo Henrique – e, como observadoras, duas netas, filhas de Paulo: Carina (bióloga de 25 anos) e Amanda (que cursa engenharia química), 18.
“De uma forma ou de outra, elas estão na órbita dessa nossa área, da nossa antiga vocação cervejeira”. Ou seja: também são parte do futuro no qual o próprio Nikolaus faz questão de se inserir – afinal, como diz, tem um emprego para tocar. Com as bênçãos de São Floriano, protetor dos cervejeiros.
