Economia & Negócios

Setor de serviços ?blinda? economia

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 4 min

O setor de serviços, que inclui o comércio, ‘blindou ‘a economia bauruense e foi o responsável por manter os indicadores em crescimento desde o início da crise econômica, iniciada em setembro de 2008. No País, a realidade foi a mesma, com o Produto Interno Bruto (PIB) específico de serviços crescendo 11,6% no período, mais do que o índice geral, que foi de 9,3%, segundo o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi).

 

Neide Carlos

Thaís Helena Badini foi contratada depois de dois anos fora do mercado de trabalho

Em Bauru, o PIB em 2010 foi de R$ 6,795 bilhões, sendo que o somente o setor de serviços respondeu por quase 77% deste montante. Para especialistas consultados pela reportagem, o fato de a cidade estar centrada no setor terciário acabou funcionando como proteção contra os efeitos da crise.


E os números comprovam a afirmativa. Em quatro anos e um trimestre de turbulência internacional, foram criadas 29.047 novas vagas de trabalho com carteira assinada na cidade, sendo que 22.281 foram geradas pelo comércio e, principalmente, serviços.


Ao todo, são 123.994 moradores formalmente empregados, ganhando, em média, salários de R$ 1.574,36, segundo o Ministério do Trabalho. “Neste período de pouco mais de quatro anos, a cidade se firmou como polo regional e recebeu vários empreendimentos, como o novo shopping, a consolidação de franquias, além da expansão de negócios nas áreas de saúde, educação e recuperadoras de crédito”, elenca o economista Reinaldo Cafeo.


Entre os que conseguiram se beneficiar desta onda de prosperidade está a jovem Thaís Helena Badini, 30 anos. Depois de ficar dois anos fora do mercado, ela foi contratada por um dos mais recentes empreendimentos da cidade, o Boulevard Shopping Nações, como supervisora de atendimento ao cliente.


“Já tinha experiência no ramo. No meu último emprego, trabalhei nesta área em uma companhia aérea que acabou saindo de Bauru”, lembra. Em agosto de 2010, desempregada, ela se descobriu grávida.


Aposta


Por um período, dedicou-se integralmente ao filho e, no ano passado, decidiu que era hora de voltar a trabalhar. Hoje, coordena uma equipe de 12 funcionários, distribuídos em três departamentos. “Na verdade, tinha me candidatado para outra vaga, e acabei sendo convidada para ser supervisora. Estou contratada há três meses e muito satisfeita com o meu trabalho”, frisa.


Segundo Cafeo, embora os salários oferecidos pelo setor terciário costumem ser menores que o da indústria, este segmento conseguiu manter a economia da cidade praticamente alheia à crise porque o governo federal apostou no incentivo ao consumo. E, com o crescimento da renda da população – que possibilitou a mobilidade social dos extratos de baixa renda para a classe média – o consumo se direciona para bens duráveis, como geladeiras e automóveis.  Posteriormente, são os serviços que mais crescem, com mais gastos em educação, saúde e lazer. “Estes setores continuaram investindo, porque a demanda não deixou de existir. Com maior renda e fácil acesso ao crédito, as pessoas gastaram mais. Mas é claro que esta estratégia do governo não é a solução para todos os problemas”, comenta, apontando para a necessidade de maiores investimentos que propiciem o crescimento de longo prazo.

 

Indústria cresce apenas 2% e agropecuária teve queda de 0,1%

De outubro de 2008 para cá, a indústria cresceu apenas 2% e a agropecuária ficou praticamente estagnada – com queda de 0,1%, segundo estudo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). De acordo com o levantamento, o resultado da indústria só não foi pior porque nele se insere a construção civil, que recebeu estímulos do governo federal, como o lançamento do programa habitacional Minha Casa, Minha Vida, e a desoneração tributária para a compra de materiais de construção.


Mas, em Bauru, o saldo da balança comercial da indústria (diferença entre exportações e importações) sentiu o golpe diante do cenário internacional adverso. Se em 2008 ela somava US$ 116,5 bilhões, caiu para US$ 84,3 bilhões em 2009 e para US$ 79,7 bilhões em 2011. A recuperação começou a ser esboçada apenas no ano passado, quando o saldo fechou em US$ 111,7 bilhões.


Para o diretor da regional de Bauru do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), Domingos Malandrino, são inúmeros os fatores que fizeram com que o setor tivesse o desempenho tão prejudicado. A principal delas é a perda de competitividade nos últimos 20 anos em função dos custos de produção, que envolvem transporte, carga tributária e energia elétrica, que até então era a mais cara do mundo. “Mesmo com a redução de 20%, agora, ela ainda continua sendo a terceira mais cara”, reclama.


Malandrino cita ainda a baixa produtividade do parque fabril, que pouco de moderniza, e a baixa qualificação de mão de obra, bem como a valorização cambial. “Aliado a isso, sofremos com a invasão de produtos chineses no País”, completa.


De acordo com o diretor regional, apenas mantiveram boa performance os setores que não sofreram concorrência direta das mercadorias asiáticas e aqueles que receberam incentivos do governo, como Imposto Sobre Produtos Industrializados (IPI) e desoneração da folha de pagamento. “Foram muito bem empresas dos ramos moveleiro, de máquinas e motores pesados, baterias e construção civil. Mas muitos estão patinando há anos”, conclui.

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