Política

Política de castração emperra em Bauru

Vitor Oshiro com Bruna Dias
| Tempo de leitura: 6 min

90 mil. É esta a população estimada de cães e gatos em Bauru. Se o número é volumoso, o mesmo não pode ser dito sobre a quantidade desses animais que é castrada. Segundo estimativas de Organizações Não-Governamentais (ONGs) e do próprio Centro de Controle de Zoonoses (CCZ), menos de 10% passaram pela castração. A falta de controle populacional gera o abandono e desemboca até na crise da leishmaniose, doença que Bauru enfrenta há uma década. O prefeito Rodrigo Agostinho estuda criar um departamento específico para enfrentar o problema.

A política de castração realmente está emperrada em Bauru. Algumas ONGs organizam mutirões com tal finalidade, porém alegam que falta ao município uma ação mais incisiva para amenizar a questão. Enquanto questões burocráticas continuam, os animais “não esperam” e continuam procriando em progressão geométrica. E isso resulta em um reflexo que todo mundo já percebeu: é crescente o número de animais abandonados nas ruas da cidade.

Sem se eximir de parte da responsabilidade, o poder público aponta que o principal problema é a irresponsabilidade dos proprietários de animais. No CCZ, é realizada somente a castração de animais adultos disponibilizados para adoção. Segundo a assessoria de comunicação da prefeitura, no ano de 2011, o CCZ realizou 22 castrações de cães e 221 em gatos. Em 2012, foram realizadas 50 castrações em cães e 245 em gatos.

“Realmente, não é um número grande. Mas não é nossa função principal fazer a castração. O poder público não tem essa atribuição. Castramos no CCZ para dar o exemplo”, explica José Rodrigues Gonçalves Neto, chefe do órgão. Ele acredita que a solução real seria a posse responsável.

Damair Pereira de Almeida, delegada da Sociedade de Proteção Animal Mountarat, critica, entretanto, o que considera uma passividade do poder público. “A posse responsável realmente é o caminho ideal, mas, se o poder público agisse de forma mais eficiente, a situação melhoraria muito. Não é porque não tem algo ideal que não se deve fazer a outra parte”.

Junto com a União Internacional Protetora dos Animais (Uipa), a Mountarat formou o Bem-Estar Animal, com mutirões que realizam cerca de 200 castrações gratuitas mensalmente. A iniciativa, porém, não dá conta da quantidade exponencial de nascimento de animais. “Ainda é um número ínfimo, justamente porque não temos apoio da prefeitura. Até lugar para fazermos as castrações é difícil”, reclama Damair.

Além do problema do abandono, o volume de animais incide diretamente na preocupante questão da leishmaniose, doença na qual os cães funcionam como reservatório doméstico do parasita. Este ano, a enfermidade já matou um homem de 76 anos na cidade. E, para se ter uma ideia da gravidade, segundo dados da Vigilância Epidemiológica, entre 2003 e 2012 foram registrados 430 casos, com 37 mortes.

Entraves

Mesmo entendendo o problema que tem em mãos, o prefeito Rodrigo Agostinho afirma que o porte de Bauru esbarra no que as ONGs pedem. “Em cidades menores, eles contratam uma clínica veterinária por um valor de até R$ 8 mil, que dispensa licitação, para castrar os animais. Aqui, eu não tenho como contratar uma única clínica para dar conta de toda a cidade. Seria muito complicado também contratar 20 ou 30 veterinários para os quadros da prefeitura para fazer esse trabalho nos bairros”. 

Apesar de assumir que a cidade não conta com estrutura para castração em massa, o chefe do Executivo sabe da importância da castração. “Não resolve o problema. O que a castração faz é, a médio e longo prazo, reduzir a população de animais na cidade. Reduzindo a população de animais você reduz também eventuais situações onde esses animais são colocados em situação de risco”.

Por isso, Agostinho discute com o Conselho Municipal de Proteção e Defesa dos Animais (Comupda) a criação de uma unidade móvel que visitaria as zonas periféricas da cidade e que, por meio de uma triagem, selecionaria cães e gatos de donos de baixa renda para serem castrados. “Nós estudamos a criação desta unidade móvel, que seria como uma clínica, mas somente com a estrutura básica necessária para a castração”.


Prefeito estuda criar departamento específico para tratar do problema

O prefeito Rodrigo Agostinho argumenta que uma das principais amarras que emperram a política de castração é justamente o fato de o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) estar subordinado à Secretaria Municipal de Saúde. Assim, a verba que chega é a mesma destinada ao Sistema Único de Saúde (SUS) e não pode ser revertida à causa animal.

“A verba da saúde é o que chamamos de carimbada. O TCE (Tribunal de Contas do Estado) não aceita que essa verba seja usada para uma política de castração de animais, por exemplo. Apesar de ser uma questão de saúde, não há esse entendimento”, aponta o prefeito.

Por isso, Agostinho estuda a criação de um departamento específico que cuidaria desse tema. “Poderia ser uma divisão. Estamos estudando ainda. O conselho (Comupda) está organizando uma estratégia municipal de posse responsável. Mas, se fosse algo fora da saúde, conseguiríamos usar verba separada nesses projetos”.

Assim como fez com o Departamento de Água e Esgoto (DAE) recentemente, Rodrigo Agostinho finaliza nos próximos dias a reestruturação da prefeitura. É nessa nova estrutura que a divisão para conduzir projetos, como o de castração, seria criada. “Devo enviar essa proposta à Câmara dentro de 30 dias”, finaliza.


É preciso até enganar

A pessoa adota um animal castrado, mas nem sabe disso. O CCZ de Bauru utiliza até de tal artimanha para tentar amenizar a questão do aumento populacional canino e felino. É que, segundo José Rodrigues Gonçalves Neto, chefe do órgão, existe ainda preconceito contra a castração.

“Além de todo o contexto, há uma cultura que precisa ser mudada. Tem muita gente que não quer um animal castrado. Por conta disso, começamos a fazer a esterilização química, que não é visível fisicamente, nos animais machos. Assim, a pessoa adota sem saber que ele não pode reproduzir”, revela.


Voluntariado

Quando o assunto é proteção aos animais, a sensibilidade emana de toda a população bauruense. Nas redes sociais, principalmente, é possível ver postagens todos os dias de fotos de cães encontrados, abandonados e outros que precisam de ajuda.

ONGs como a Uipa e Mountarat se organizam como podem para realizar as castrações de animais cujos donos são de baixa renda. “Nós fazemos castrações gratuitas todas as semanas. Temos o apoio de patrocinadores e de muitos veterinários voluntários. Em Tibiriçá, castramos 80% da população canina”, aponta Damair Pereira de Almeida, da Mountarat.

A população de baixa renda que se interessar na castração gratuita pode procurar a Mountarat por meio do telefone (14) 3019-1211 e realizar cadastro.


Antes da castração, Zara ficou prenhe de 10 filhotes

Após ser abandonada, a vira-lata Zara encontrou finalmente um lar. A cachorra foi acolhida pelo empresário e professor Vitor Carrara, 33 anos. Entretanto, a adoção, que tinha o objetivo de contribuir com a causa animal, teve praticamente um efeito inverso. Em uma escapada, Zara ficou prenhe.

“Nós adotamos a Zara justamente para ajudar. Mas teve um dia em que ela escapou e, em questão de minutos, ficou prenhe de dez filhotes. Nós queríamos ajudar e acabamos tendo mais esse monte de cachorrinhos”, conta Carrara.

Sem abandoná-los, ele teve muito trabalho para encaminhar todos os filhotes. “Conseguimos doar para pessoas que cuidavam bem”. Porém, depois, aprenderam a lição. No final do ano passado, no mutirão do Bem-Estar Animal, Zara foi castrada.

“Não tivemos dúvidas em castrar. E a Zara não teve nenhuma alteração. Foi o certo a se fazer”, finaliza Vitor Carrara.

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