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?Meu sonho é poder falar direito?

Nelson Gonçalves
| Tempo de leitura: 6 min

Perguntado qual era seu sonho, Matheus da Silva, bauruense do Jd. TV, 13 anos, não hesitou: “Quero uma bicicleta”... Mas para seu homônimo de Anamã (AM) a resposta na “ponta da língua” é outra: “Eu quero falar direito”. Extremamente tímido, vergonha visivelmente acumulada pelos anos de bullying que enfrentou em razão da deformidade nos lábios e na boca, o Matheus amazonense resistiu dois dias a falar com o jornalista durante a 7ª Expedição Fala Sorriso, realizada em Careiro (AM), uma ação voluntária coordenada pelo cirurgião Antonio Assunção com a realização de cirurgias lábio palatinas por lá duas vezes por ano. Esta última aconteceu entre os dias 14 e 20 de abril.  


A mãe Luzemira Bandeira contou o sofrimento pela angústia do filho: “É muito difícil. Tiram sarro dele na escola por causa dos dentinhos pra fora da boca”. Mãe de quatro, apenas o caçula Matheus tem o “problema”, conta ela.


“Ele tem boas notas na escola, mas é muito tímido, quase não fala. Ele nunca mamou, não conseguia pegar no peito. Eu usava um aparelho que injetava leite na boca dele. Ele sempre coloca a mão na boca, mas não adianta, não dá para esconder. Se Deus quiser as cirurgias vão deixar ele feliz”, confessa a mãe.    


Ao entrar na triagem, no atendimento ambulatorial da expedição, o adolescente já denunciou o comportamento comum a centenas, como ele: a mão sempre a frente da boca. Na avaliação, o cirurgião Antonio Assunção apontou a necessidade de cirurgia no maxilo. Os dois dentes para fora da boca iriam sofrer intervenção em outra etapa.


O dentista Marlos Tercioti, que integra a equipe de voluntários, explicou que o garoto terá de receber um corte na arcada superior, na frente, para permitir o “encaixe” dos dentes. Posteriormente, o tratamento com ajuda de aparelho poderá permitir ao ainda menino não tentar mais esconder a boca com a mão.



Resistente


Não foi nada fácil conversar com Matheus. No primeiro dia, ele não esboçou reação. Acostumado a não ter compreendido os sons que emite, o adolescente só começou a interagir no segundo dia, após brincadeiras e alguns abraços.


A tática que deu certo foi trazer para perto dele, no corredor de espera do hospital de Careiro (AM), o menino Edenilson da Cunha Gonçalves, de cinco anos, também de Anamã. Com o sorriso largo no rosto, Edenilson aceitou colo e, ao lado de Matheus, ofereceu involuntariamente a inocência própria dos garotos para servir de alento a Matheus.


Então, o adolescente, finalmente, deu atenção a uma foto do “antes e depois” das cirurgias realizadas em Edenilson. A mãe Luzemira também arregalou os olhos. Depois de algum tempo insistindo, mostrando os resultados das cirurgias em Edenilson, o garoto falou, ainda que em sons completamente fanhos: “Meu sonho é poder falar direito”.  A conversa prosseguiu e dele vieram os comentários: “Eu vou fazer a cirurgia e ficar bonito”; “Ninguém vai mangar de mim na escola”; “Eu vou ficar igual a ele, se Deus quiser”... apontou Matheus, sob o olhar de Edenilson.

 

Esperança repetida

No quarto dia da expedição em Careiro (AM), a psicóloga Maria da Graça, que além de atuar na orientação profissional dos pacientes e familiares traz na bagagem o diferencial de também ser portadora da deficiência, contou que a frase de Matheus da Silva está na “boca” de tantos outros.


Ao perguntar a Carolayne da Silva Araújo, de Manaquiri (AM), qual seu maior sonho, a resposta foi: “Meu sonho é falar direito”.


Já Reiki Lúbia, de 27 anos, que passou por várias intervenções cirúrgicas da equipe ao longo das sete expedições, recebeu bronca do médico Antonio Assunção. “Você está muito bem do ponto de vista estético, mas não fez os exercícios para melhorar a fala. Você pode ter a fala quase perfeita. Tem de fazer os exercícios, senão não adianta operar”.


A jovem acabou se transformando em uma espécie de porta voz junto a familiares com filhos com fissura ou a ausência do palato. Reiki não se cansava de conversar com mães e crianças da importância de realizar as cirurgias, seguir à risco o tratamento pelos anos seguintes e, sobretudo, ter esperança.

Balanço da expedição

Ação voluntária, a expedição Fala Sorriso atendeu de abril passado a 50 pacientes atendidos, tendo realizado 24 operações e 35 procedimentos cirúrgicos, sem intercorrencias.


A equipe foi composta pelo coordenador Antonio Guedes Alcofoado Assunção, além de Rosa de Fatima de Oliveira Dolo, Nelson Itaberá Gonçalves, Maria Cecilia Simõoes Guidio, Marlos Giuliano Tercioti, Paulo Sergio Tabacow, Maria Aparecida Aranha, Isabel Aurélia Lisboa, Maria da Graça Mazarin Araújo, Marcelo Mazarin Bicudo e Antonio Tomazoli.


O médico Assunção: “No Brasil a saúde está na dependência da política. E o povo pobre é quem paga esta enorme conta com impensável cota de sofrimento. Isto precisa mudar. De outro lado, na ação voluntária, as condições de trabalho para a equipe estão muito aquém do que deve ser”.

 

Quando a vida começa no céu da boca

Aos 49 anos, mãe de 14 filhos, a mãe Eliana Souza da Silva viajou um dia e meio de barco para mudar seu rosto

 

 

A mãe Eliana Souza da Silva: “Eu tinha vergonha de mim quando era pequena. Mangavam de mim, mas eu não desisti”

A mãe de 14 filhos Eliana Souza da Silva, 49 anos, de Coari (AM), fez questão de gravar depoimento em vídeo para demarcar o sonho de voltar para casa com os lábios cortados. Cortados, agora, pelo bisturi do cirurgião Antonio Assunção em uma das 24 intervenções de origem lábio palatina realizadas em Careiro (AM).


“Eu tinha vergonha de mim quando era pequena. Ficava no quarto e quando saia os meninos ficavam mangando. Mas eu sempre pedi a Deus que um dia tudo ia mudar. Eu estou aqui, vim de longe e vou voltar para casa com um novo visual”, disse ainda na triagem para os procedimentos cirúrgicos da expedição Fala Sorriso.


O médico Assunção conta que a carga genética é presente nos pacientes portadores da fissura nos lábios ou do nascimento sem o palato. “Ela traz uma informação incomum para o histórico de atendimentos nesses anos. Não consta ninguém na família com a fissura, pelo menos das gerações que ela pode nos passar”, menciona.


Para realizar o sonho de menina, “ter a boca bonita”, como diz, Eliana viajou um dia e meio de barco até Manaus. De lá, outro transporte a levou até Careiro, onde ficou concentrada a expedição. Ironia ou não, a distância não está entre as maiores ente os pacientes. Se valendo do rio como estrada, muitos viajam quatro dias em barcos para receber o tratamento.


“Eu trabalho na roça e quando eu tinha 17 anos o Josué disse que queria namorar comigo. Eu disse a ele que não ia botar filhos no mundo, casar, para depois ele me largar por uma mulher bonita. Mas ele disse que me aceitava desse jeito mesmo, com o defeito na boca. Casei e tenho 14 filhos e nenhum graças a Deus tem esse defeito (fissura)”, conta.


Mas, entre a roça de mandioca e o papel de mãe, dos quais 10 filhos foram gerados por parteira, no meio da floresta, Eliana cuidou de duas questões essenciais: “Todos os meus filhos estudam. O mais velho tem 28 anos. Realizei esse sonho. E eu nunca perdi a esperança de mudar minha boca. Agora eu vou voltar pra casa sorrindo”, reforça.


Animada com o resultado antes mesmo de ser operada, Eliana gravou um depoimento ao marido: “Olha Josué, olha eu falando com o defeito pela última vez. Eu vou voltar pra casa com novo visual, tudo diferente. Vou beijar você sem esse defeito na boca, pode esperar”.


E para as mães, ela disse: “Tragam os filhos para tratar. Eu sou mãe como vocês e sei como é difícil conviver com isso. Não vai ficar lamentando porque teve filho com defeito como o meu. Cuide de seu filho e ele vai te agradecer quando ficar grande”.

 

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