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Quem é a mãe do século 21?

Rose Araujo - Especial para o JC
| Tempo de leitura: 6 min

O dia na casa da empresária Ester Parreira começa cedo e agitado. Por volta das 6h20, a família pula da cama para uma longa jornada. Ela, o marido e os três filhos precisam seguir à risca os horários e compromissos planejados para que tudo flua naturalmente na rotina da família. Antes do sol nascer, eles preparam os filhos Letícia e Larissa, gêmeas de 8 anos, e o caçula Lucca, 4 anos, e levam-nos para a escola. Em seguida, vão para o trabalho e passam o dia na correria.

O reencontro com as crianças acontece ao anoitecer, quando a família retorna ao lar. "Das 24 horas do dia, devemos ficar apenas 13 horas juntos e destas, apenas cinco horas acordados. De segunda a sexta-feira, passamos muito pouco tempo juntos", afirma Ester.

Nesses raros momentos de convivência, é necessário colocar a vida em ordem e cuidar para que tudo saia perfeito no dia seguinte. Sendo assim, Ester e o marido, Edivan Araújo, se dividem nos cuidados com a casa e com as crianças. "Temos que fazer o jantar, participar dos estudos, preparar os uniformes e trocas de roupas, conversar sobre o dia e o que precisam, além de ler a agenda e também fazer um bom carinho nas crianças", quantifica.

Ela confessa que, se pudesse, trabalharia menos para ficar mais tempo com os filhos. Mas sabe que o mercado de trabalho ainda não permite tamanha flexibilidade. "A profissão consome a maior parte do nosso tempo e ainda precisamos nos dedicar para garantir esse espaço, pois buscamos a consolidação do nosso papel nessa área. Então, acredito que 99% das mulheres que trabalham fora sabem que não conseguem dar toda a atenção necessária aos filhos, mas elas buscam alternativas", frisa.

Para compensar a ausência diária, Ester diz que capricha nas doses de afeto. "Cada minuto é aproveitado. Todos os dias, conversamos sobre a rotina da escola, sobre qualquer probleminha ou história nova que eles tiverem para contar. Nosso tempo é extremamente valioso."

Mesmo assim, cobranças são inevitáveis. "Eles sempre questionam e querem saber quando teremos tempo para passear, brincar, nos divertir. Com muito amor, sempre me querem por perto. Se pudessem escolher, a mamãe sempre estaria ao lado. A Letícia tem uma frase que me derruba: ?Quem vai me abraçar se você não chegar??. Já a Larissa e o Lucca posam de grandes e fortes, dizendo que já entendem minha ausência, pois sabem que estou trabalhando."


Mulher-polvo

A psicóloga Flávia da Silva Ferreira Asbahr, docente do Departamento de Psicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, explica que o grande desafio da mulher de hoje é conseguir equilibrar todos os seus papéis de forma satisfatória. "A demanda profissional é grande. Como passa pouco tempo com o filho, é preciso compensar essa ausência de alguma forma, pois ela tem de avaliar como está formando esse sujeito para o mundo", salienta.

A educação dos filhos é um dos maiores desafios da mulher do século 21. Sem tempo para acompanhar o desenvolvimento da criança de forma minuciosa, é preciso ter foco para suprir as necessidades nos poucos momentos que sobram do dia.

Estabeleça prioridades

Estabelecer prioridades. Este é o caminho para conseguir atender às demandas e dar conta do recado, segundo a psicóloga Flávia da Silva Ferreira Asbahr. Ela, que além de docente na universidade é mãe de uma menina de 1 ano e 4 meses, está vivendo na prática essa realidade. "É preciso também buscar o apoio necessário, dividir tarefas e contar com ajuda extra para manter tudo organizado e funcionando perfeitamente".

Foi o que fez a analista de circulação Lissandra Mahnis. Mãe de Yan, 6 anos, e Lara, 2 anos, ela e o marido, o consultor do Sebrae Eduardo Ruiz, elegeram como meta a contratação de uma empregada doméstica. "Enxugamos gastos, economizamos e conseguimos contratar uma pessoa para nos ajudar. Ela cuida da casa e assim fico liberada para dar total atenção para as crianças quando chego do trabalho."

Agora que não precisa mais fazer o jantar e colocar roupa para lavar, Lissandra estabeleceu como regra curtir os pequenos. No limitado espaço de tempo que estão juntos durante a semana, a atenção é toda voltada para as prioridades deles. "Consigo fazer tarefa com o Yan, brincar e assistir a desenhos. Como o tempo de tomar banho e jantar é ?grande?, o que sobra para ficarmos juntos antes deles dormirem é pouco, mas é integral para eles. Me divido entre pintar as revistas de ?meninas? e fazer as atividades das revistas de ?meninos?, e também entre dar comidinha para as bonecas e jogar Candy Crush com o Yan", lista a mãe.

Lissandra tem consciência que o tempo é pouco, porém acredita que a intensidade no relacionamento supre essa lacuna. "Apesar de estarmos efetivamente juntos só no final do dia, acredito que consigo dar a atenção necessária a eles, pois tento fazer o máximo de coisas com as crianças nesse horário", reflete.

Para ela, a mulher de hoje é um polvo equilibrando os pratos (filhos, marido, família, trabalho, amigos, lazer...) em cada um dos seus braços para não deixá-los cair. "Na verdade, é uma mulher que, apesar de fazer tudo pelos filhos (e amá-los incondicionalmente), não abre mão e continua fazendo o que gosta, dando um jeitinho para encaixar cada coisa num pedacinho do tempo que tem", afirma.

Culpas e conflitos

A profissão exige dedicação e muitas vezes sai na frente no quesito prioridades. Para dar conta do trabalho, a mulher passa horas fora de casa ? e até mesmo dias ? e isso significa abrir mão da convivência diária com o filho. Nem sempre é possível lidar bem com a situação. "Já tive que ficar cinco dias longe por razões profissionais e doeu muito. Chorei tanto antes de embarcar que achava que não iria suportar. Mas deu tudo certo. Minha filha lidou melhor com a ausência do que eu, tenho certeza", conta a jornalista Liliane Ito de Lucena, mãe de Giovana, de 1 ano e 11 meses.

Liliane tem uma rede de apoio no dia a dia formada pelo marido, pelos pais e pelos sogros. "Sou uma sortuda!", comemora. Mas sabe que os desafios são grandes e exigem muito da mulher. "É cansativo, mas ser mãe dá uma dimensão maior a tudo o que você faz na vida. A vida ganha mais sentido, então você trabalha melhor, mesmo que esteja mais cansada. E você passa a ser mais serena, mais paciente, mais objetiva e realista também", afirma.

Para Ester, educar é uma tarefa de superação. E isso exige dedicação. "É um grande desafio transmitir educação, obediência, pois estes valores são essenciais para toda a vida. Para que eles possam caminhar e evoluir, sempre utilizo o diálogo e exemplos para mostrar a importância da gentileza e da educação em nossa casa. Porém, é claro que as crianças cometem deslizes e fazem suas birras e bagunças que me deixam de cabelos em pé."

A psicóloga Ester Petroni, frisa que não é necessário ficar 24 horas junto ao filho para educá-los. "A mãe está o tempo todo transmitindo valores, seja com seus exemplos ou com suas palavras. E, embora tenha a maior responsabilidade nessa criação, temos que lembrar que não é apenas ela que deve ensinar a criança. Cabe à família como um todo essa função", diz.

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