Bairros

Maioria das praças fica no papel

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 5 min

Neide Carlos

Terreno onde deveria haver uma praça no Santa Edwirges

Na grande área onde moradores poderiam usufruir de momentos de lazer, há apenas mato, entulho e restos de queimada. Localizado na quadra 2 da alameda Troia, no Parque Santa Edwirges, o terreno que deveria abrigar uma praça não tem previsão para deixar de ser um espaço inútil em meio às casas.

Assim como ele, cerca de 390 áreas destinadas à mesma finalidade ainda aguardam investimento da Prefeitura de Bauru. Segundo levantamento elaborado pela própria Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma), 65% dos 600 lotes reservados para a construção de praças na cidade não possuem nenhum tipo de urbanização.

E, nas áreas que já receberam algum tipo de investimento, não são raros os exemplos de abandono, má conservação e depredação, salvo algumas destacadas exceções. Segundo o prefeito Rodrigo Agostinho, a meta de sua gestão é construir ao menos dez praças por ano em Bauru, embora, em 2013, apenas uma tenha sido concluída até o momento, no Parque Santa Edwirges (em uma área bem menor do que a citada nesta reportagem), segundo informações prestadas pela Semma.

Rodrigo afirma que ao menos outras duas, no Parque Sabiás e no Jardim Niceia, já estão em fase de execução, bem como a urbanização do Bosque do Parque União. “Nos últimos quatro anos, fizemos mais de 50 novas praças. Em muitas, instalamos playgrounds e academias ao ar livre”, frisa.

Mas, mais do que construir, a prefeitura enfrenta uma grande dificuldade para manter estes espaços públicos. O terreno ainda intocado do Parque Santa Edwirges é apenas um caso emblemático da ausência de áreas de lazer na cidade. Morador do bairro há mais oito anos, Daniel Severino do Prado, 35 anos, conta que o local é foco constante de incêndios, o que traz fuligem e mau cheiro para as casas, além de risco para as crianças.

“Seria bom se fizessem um parquinho aqui, com campinho para as crianças brincarem. Elas ficam jogando bola na rua, enquanto a praça vira depósito de lixo e entulho”, comenta. Mas, em vários bairros, mesmo quando a praça existe, os problemas não desaparecem.

Abandono

É o caso de uma área localizada entre as ruas Dulce Duarte Carrijo e Manoel Rodrigues Maduro, no Núcleo Edson Francisco da Silva, o Bauru 16. Dotado de playground e um campinho de terra, o terreno está com mato alto e conta com pouca iluminação à noite. “O pessoal aproveita para ficar escondido, usando droga. É revoltante, porque compromete a segurança do bairro”, reclama o morador José Wilson Moreira, 57 anos.

A situação de vandalismo e abandono se repete, apenas para citar alguns exemplos, em praças de Vila Falcão e Núcleo Nova Esperança (leia mais abaixo). No Jardim Estoril, região nobre da cidade, há até armação de ferro dos bancos de concreto exposta e árvore caída invadindo parte da rua.

Segundo o secretário municipal de Meio Ambiente, Valcirlei Gonçalves da Silva, o número de funcionários de que a pasta dispõe é insuficiente diante de toda a demanda. Ao todo, são 60 funcionários para capinação e limpeza e outros dez para os serviços de jardinagem.

Além de dar conta de cuidar das praças já urbanizadas e dos lotes ainda sem investimento, eles ainda respondem pela manutenção de outros terrenos da prefeitura, bem como de árvores e jardins de creches e unidades de saúde. “O correto seria fazer a poda e capinação de cada praça a cada 30 dias. Mas, com o pessoal que temos, só conseguimos fazer a cada 60 dias. Queríamos chegar em 45 dias, mas é bem difícil”, reconhece. 


Dobro de funcionários

De acordo com o secretário municipal de Meio Ambiente, Valcirlei Gonçalves da Silva, a pasta precisaria do dobro do número atual de funcionários para que fosse possível “fazer apenas o básico” da manutenção necessária em terrenos destinados a praças e nos locais em que elas já existem. “Teria trabalho para mais 60 funcionários, tranquilamente”, garante.


Prioridades

O prefeito Rodrigo Agostinho argumenta que os recursos da prefeitura são investidos de acordo com uma escala de prioridades que respeita, inclusive, os anseios da população. Nesse sentido, ele afirma que a implantação de galerias e pavimentação asfáltica devem chegar primeiro aos bairros, para então cogitar-se a possibilidade de implantação de espaços de lazer.

“Se as prioridades são invertidas, a população fica revoltada, mas é muito mais fácil e barato construir uma praça”, frisa. De acordo com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma), uma praça simples tem custo médio de R$ 100 mil.

Para fazê-la, no entanto, a pasta depende não apenas de recursos, mas também de maquinários que precisam ser emprestados da Secretaria Municipal de Obras, que está sobrecarregada justamente com a execução de serviços estabelecidos como prioritários pelo prefeito.


Ideal

Embora considere que as praças possuem importante função social e de lazer, o prefeito Rodrigo Agostinho afirma que o ideal seria a cidade dispor de grandes áreas verdes de múltiplo uso, tais como o Jardim Botânico e o Parque Vitória Régia, espalhadas pelos bairros. “Além de serem mais úteis em termos de recreação, também tem a função de conter a água da chuva. Mas, pela forma desordenada com que Bauru cresceu, sobraram apenas pequenas áreas”, lamenta. 


Praça é casa de morador de rua há dois anos

Há cerca de dois anos, uma praça localizada no Núcleo Nova Esperança tornou-se a casa do morador de rua Gregório Medina Maciel, 64 anos. Com direito a um fogão, panelas e três colchões, nos últimos dias ele tem dividido o espaço com outros dois amigos, na rua Gustavo Martins de Oliveira.

Vindo do Mato Grosso do Sul, Gregório constituiu família em Bauru e abandonou tudo em razão do álcool. Para sobreviver, diz que faz pequenos ‘bicos’ como pedreiro, quando oportunidades aparecem.

“Reconheço que sou alcoólatra. Não quero dar trabalho para ninguém e também não quero ter de dar satisfação para ninguém. Meus filhos estão todos criados e não preciso mais dessa vida de abrir e fechar portão”, afirma, dizendo ter consciência da sua condição solitária. “Às vezes fico preocupado, mas melhor estar sozinho do que mal acompanhado”, completa.

 

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