Ser

Permitir é melhor do que não saber

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 8 min

Não é discurso de pais. Os próprios jovens namorados acreditam nesta tese. Isto porque, em grande parte dos casos, na ausência do alvará, a "esticada" dos embalos de final de semana pode ocorrer mesmo sem o consentimento paterno ou materno. "Aconteceu da gente ficar junto o dia inteiro, ainda mais no começo", lembra Andreza Silva, 18 anos.

Atualmente, ela conta que não há problemas em passar a noite na casa do namorado Marcos Felipe, um ano mais velho. Mas no começo, justamente época em que ficavam mais "grudados", compara, a vida não era tão simples assim. Aliás, a permissão para essa rotina é recente, visto que estão juntos há quatro anos. "Minha mãe não deixava. Isso começou neste ano", testemunha.

Para ela, nada melhor do que a concessão para ficar na casa do namorado e poder recebê-lo sem embaraços. "Não tinha mais jeito. Hoje, eles (pais de ambos) veem com naturalidade", confia.


Na base da amizade

Mas para tudo na vida se dá um jeito. A distância da casa do par fez com que Isabella Mastengelli, 19 anos, unisse o útil ao agradável. Hoje, ela permanece na residência do namorado Murilo Fava, 20 anos, e vice-versa. "Não temos carteira de motorista, nem carro. Era difícil sair. A solução era ficarmos na casa um do outro. Ainda bem que nossas famílias se conheceram e ficaram muito amigas", comemora a jovem.

A flexibilidade proporcionada pela afinidade entre as famílias, no entanto, não significava (nem representa) carta branca para tudo. "Eu sempre dormi no quarto da irmã dele. Em casa, ele dorme na sala de TV, que tem um sofá-cama e é mais ampla. Ele até prefere assim", descreve a namorada. Dormir junto? "Acho que minha mãe não iria gostar", admite.

Ou seja, "modernices" também têm limites. "Durmo sempre no quarto da irmã dele que, na verdade, hoje é como se fosse uma irmã mais nova para mim. Temos muita afinidade, nos damos muito bem. Eu tenho apenas um irmão, ela também, conversamos bastante", enfatiza.

Não que o casal já não tenha dividido o mesmo quarto. "Já houve ocasiões em que dormimos juntos, mas foi em viagem, apenas no final de semana", salienta, esclarecendo ainda que o casal não viajou sozinho.


Difícil é encontrar quem queira falar sobre o assunto

Se o namoro já não é o mesmo, uma coisa é certa: o assunto "hóspede" é ainda um tabu. Foi difícil para a reportagem encontrar quem quisesse falar sobre ele. E sobre como resolveu o problema. Com a palavra, anônimos, pais que são modernos, mas não a ponto de escancarar essa modernidade em público. Vamos lá?

"Um dos motivos pelos quais convenci meu marido a deixar que o namorado da nossa filha ficasse em casa foi a segurança. Moramos em bairros distantes.  Nós no Santa Luzia, a família dele lá no Alto Paraíso. Ele vinha trazê-la para casa sempre de madrugada. Porque na casa dele a mãe liberava o quarto de visitas. Mas ?ai dela? se dormisse na rua! E dele também, meu marido era e é superconservador. Até que um dia foram assaltados. Passaram um horror. Por pouco ela não foi estuprada. Depois desse susto fui taxativa com meu marido: ele tinha que escolher, ou ela dormia lá, ou ele aqui. Resultado: ele dorme aqui todos os finais de semana"

Rita A, comerciária, mãe de Patrícia A, namorada de Rodolfo B, ambos com 20 anos

"Nunca tivemos problema com a violência. Mas isso sempre me preocupou, claro. Mas em primeiro lugar eu não gostava dessa coisa promíscua do namorado dela chegar (ele mora em São Carlos) e levá-la para uma república. Ela ficava lá... quase todo final de semana, por volta da meia-noite, uma hora da madrugada era eu que saía para ir buscá-la. Sempre rolando festas na república dos amigos dele.  Não gostava do ambiente. Comecei a invocar. Acho que rolava até drogas nesse ambiente, não a deixamos ir estudar fora para ficar longe dessa convivência. Meu marido também concordou.  Ainda mais que ela é filha única. Depois de baixar polícia numa dessas festas, decidimos em comum acordo: melhor ele vir direto para casa. Os dois gostaram. E hoje meu marido e ele são amigões e vai até buscá-lo na rodoviária.

Solange C, contabilista, mãe de Deborah V. e sogra de Ricardo F, 21 e 23 anos, respectivamente


"Hoje eles vão se casar. Mas no começo o pai dela reagiu mal. Em casa de ferreiro, espeto é de pau, porque ele é psicólogo. Mas a ciumeira era grande. E tinha dias que ele passava o domingo na cama ou no clube só porque o namorado da Marcela havia dormido lá. Eu ficava superdividida. Só que cada vez que o namorado dela chegava, a gente desalojava o Mateus, meu filho mais novo. Era um perereco. Dava dó dos três. Do Mateus desalojado, da Marcela que embirrava porque achava um absurdo o que o pai fazia e do próprio namorado, o Rodrigo, que ficava constrangido com a situação. Todos sofriam. Os três, ou os quatro porque o Sérgio sofreu muito e eu também. Tudo só melhorou depois que os dois se formaram e foram trabalhar em São Paulo.  Lá eles vivem juntos, chegam e vão direto para o quarto que era dela quando solteira. Mesmo assim, eles se casam esta semana. E acho que o pai vai relaxar mais"

Elizabete, funcionária pública


"Talvez por eu ser mulher e ter sido mãe solteira aos 14anos, daquelas que tinha o maior medo do pai, ser expulsa de casa, acolhida por uma tia, ficou mais fácil. Eu entendi perfeitamente a situação da Gabriela. Sempre permiti que ela namorasse. Aliás, queria até que fosse em casa. E logo que ela ficou menstruada a levei ao ginecologista. Fez todas as prevenções. E eu falava muito na cabeça dela. Deu certo. Mas claro não deixei que ela transformasse nossa casa, seu quarto, em um motel. Nada disso. Tudo no maior respeito.  O namoro precisou ficar sério para ele entrar para dormir, e acabou ficando tanto que ainda hoje moram comigo".

Joana, que aos 35 anos é avó de uma menina de 1 ano, a Nataly, filha da Gabriela, que mora com a mãe. Em tempo: os bisavós da Nataly adoram a bisneta, e o pai de Joana até se esqueceu que expulsou a filha de casa - "Os tempos mudam", diz ele com a netinha no colo. Mas não quis posar para a foto. O pastor da igreja dele não veria isso com bons olhos."Porque ele vive me dizendo que eles todos vivem em pecado", argumenta. É a única mágoa que transparece. Expulsaria sua filha de novo de casa, seo João? "Não, não. Não vale a pena. Eu era muito ignorante, mas Jesus abriu minha cabeça. Todos temos que perdoar"


"Posso parecer um pai diferente e pode ser também porque sou pai de três meninos. Mas comigo não tem essa de ?cuidem da sua cabrita porque meus bodes estão soltos?. Quando o Rogério meu mais velho, há um ano, trouxe a Deise para dentro de casa, eu fui claro com a minha esposa, nada de hipocrisia, a gente sabe o que eles fazem quando estão fora. A namorada dele é de Londrina, os dois estudam em Curitiba, fazem arquitetura, moram em repúblicas separadas, mas... No  Ano Novo fomos todos para a praia. Ficaram no mesmo quarto no chalé que alugamos. Na Páscoa também ela veio para cá. Tudo bem,  ajeitamos uns colchonetes para eles no chão do quarto de visitas. Só que sei que quando meu filho vai para Londrina não rola a mesma compreensão. Acho bobagem, o bom é se comunicar, confiar"

A.S.L, médico


Dicas de especialistas

?Limite é bom e os jovens gostam disso.

É aconselhável e dá mais certo o relacionamento em que são definidas regras, limites claros de horário e dias da semana para receber o/a hóspede. Cabe aos pais ditarem  essas regras

?Todos precisam ficar bem à vontade com isso. Fazer de conta que é moderno, engolir o casal, só vai trazer rancor e gerar constrangimentos

?A liberdade deve ser dosada. Liberar a casa não é confundir com libertinagem.  A experimentação é válida, mas não ocorre do jeito que se pensa. É preciso estabelecer limites e conhecer bem as parcerias antes de trazer para casa. Isso vale para todas as relações, até para amizades, não é mesmo?

?A sexualidade está aflorada, mas o casal precisa saber respeitar todos da casa. Gemidos, nem pensar!

?Quem está chegando deve respeitar os limites e costumes da casa. Isso definirá a boa convivência entre todos. Se a família acorda cedo e toma o café antes das 9h, não há motivo para a rotina ser mudada. Aliás, assim o/a hóspede se sentirá mais acolhido

?É de bom tom ajudar nas tarefas domésticas. Quem chega, tem até por civilidade que colaborar

?Por fim, esta é para os pais: tratem os filhos, homens e mulheres, da mesma forma. Não deve haver distinção nem de sexo, nem de idade. O que for permitido para os mais velhos, deve ser para os mais novos quando chegar a hora. Isso é coerência.

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