“Jogaram Mentos na geração Coca-Cola”. O cartaz, que, ao parodiar a combinação ácida explosiva de substâncias, ironiza a fama de despolitizados da geração atual, era apenas um dos vários carregados pelos 6 mil manifestantes que pararam as principais avenidas de Bauru ontem. E, ao contrário do resto do Brasil, tal “combinação explosiva” não teve, mais uma vez, qualquer ato de violência. O trajeto fez questão de driblar os pontos onde poderia gerar alguma confusão.
Renata Marconi |
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Manifestantes iniciam trajeto na Praça Rui Barbosa com destino à Nações |
A estimativa de público oficial da Polícia Militar (PM) surpreendeu até quem estava na organização do protesto. Novamente, o marco zero foi a praça Rui Barbosa. Lá, eles definiram o percurso da manifestação.
Da praça, o grupo subiu pela Antônio Alves e desceu a Rodrigues Alves, até o cruzamento com a Nações Unidas. Ali, fizeram a primeira grande paralisação do trânsito. Vale destacar que não houve praticamente nenhuma bandeira ou camisa de partido político.
Dessa vez, mais organizado, o grupo era guiado por um carro de som e, assim, seguiu pela Nações Unidas. Bloqueavam as vias perpendiculares por onde passavam e alguns carros subiam nos canteiros para escapar da paralisação.
Da Nações, subiram para Duque de Caxias e depois rumaram até a Getúlio Vargas. Enquanto parte dos manifestantes queria passar pela prefeitura e até mesmo pela residência do prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB), os “puxadores” conseguiram driblar esses pontos para evitar problemas.
Além do carro de som, uma bateria também guiava os manifestantes. Os tradicionais “o povo acordou” e o “vem pra rua vem” eram alternados com uma série de novos cantos. Alguns trouxeram até as letras para distribuir.
Entre os manifestantes, estava a pensionista Ivete Muccio, 63 anos. “É muito positivo. Vim do Jardim Carolina só para participar. É lindo ver tantos jovens pensando assim”. Em determinado momento, ela subiu no carro de som e foi aclamada. A mesma aclamação a um motorista de ônibus que relembrou a greve de coletivos iniciada hoje.
Na Getúlio Vargas, veio um dos momentos mais simbólicos da manifestação. Na quadra 3 da avenida, todo os milhares sentaram no chão e entoaram o hino nacional.
Até quem não era brasileiro, entrou na onda. “Sou chileno. Estou aqui há seis meses em um intercâmbio na Unesp. É muito bonito ver isso. O Brasil está começando a ter essa consciência. No Chile, desde 2000, a galera vai às ruas. A América Latina tem que se unir”, disse o estudante Claudio Muñoz, 23.
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Renata Marconi |
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Manifestantes pedem que a população participe; afirmam que as mudanças só acontecem com lutas |
Discordância
No meio da Getúlio, o momento mais tenso da manifestação. Muitos queriam que o protesto rumasse para a avenida Marechal Rondon. Eis que surgiu uma preocupação que é exatamente exaltada como maior característica do protesto: a falta de liderança.
Após uma votação por aclamação bastante questionada feita de cima do carro de som, decidiram descer e voltar para a Nações Unidas. “A democracia é o ponto. Foi decidido todo mundo junto”, disse um dos organizadores, Igor Fernandes.
O mesmo impasse de trajeto já havia ocorrido, em menor grau, na saída da Rui Barbosa, quando alguns manifestantes queriam ir até a prefeitura. O ponto, contudo, preocupava, principalmente, os organizadores.
Mesmo após o bom senso tendo prevalecido – tendo em vista o absurdo e os riscos de ir até a rodovia -, alguns manifestantes reclamaram e pediam a ida até a rodovia. Sem sucesso.
Assim, a grande massa voltou para a Nações Unidas. Lá, dois outros pequenos problemas: uma jovem passou mal, porém, logo foi socorrida e um ônibus foi pichado com protestos contra o governo.
“Foram pontos muito pequenos. Foi tudo muito pacífico. Montamos uma operação de cerca de 150 policiais para dar segurança a todos”, explicou o comandante do 4º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4º BPM-I), tenente-coronel Walter Oliveira.
Da Nações, o grupo subiu novamente para a Duque e, após o longo, percurso voltou para a Getúlio Vargas. Lá, encerraram o percurso de 4h30 de duração com o hino nacional na íntegra. Finalmente, só ao ouvir a “pátria amada Brasil”, começou a dispersão.
Comissão do Transporte é nomeada
Atendendo à reivindicação dos manifestantes que se reuniram com vereadores de Bauru na última quarta-feira, foi criada, ontem, a comissão de parlamentares que irá realizar estudo sobre o transporte coletivo de Bauru. Foram nomeados, por meio de portaria, Roque José Ferreira (PT), como presidente, além de Arildo Lima Júnior (PSDB), Moisés Rossi (PPS), Renato Purini (PMDB) e Roberval Sakai (PP), cujas atribuições ainda serão definidas.
Segundo o presidente da Câmara Municipal de Bauru, Sandro Bussola, o grupo é o mesmo que integra a Comissão de Fiscalização e Controle. “A intenção é fazer um levantamento sobre a atual situação do transporte coletivo da cidade e apontar soluções no relatório final”, frisa.
A contar de amanhã, quando a portaria será publicada no Diário Oficial do Município, a comissão terá 30 dias para encerrar os trabalhos.
O próximo passo
Ao fim da manifestação, foi decidido qual será o próximo passo do grupo “Bauru Acordou”. Amanhã, será realizada, às 18h, uma assembleia geral no Parque Vitória Régia.
“Essa é uma assembleia. Não vai ser um ato. Vamos decidir exatamente quando faremos o próximo ato e até outras questões para entrar na pauta”, disse, ao microfone, Igor Fernandes.
PM montou cordão de isolamento na prefeitura
Mesmo contrariando parte dos manifestantes, a prefeitura não foi um dos pontos do trajeto. A PM, porém, fez questão de se precaver. Vários policiais foram deslocados para a praça das Cerejeiras, onde montaram amplo cordão de isolamento.
A própria administração também resolveu tomar medidas preventivas. Segundo a assessoria de comunicação do município, por volta das 16h, todos os funcionários do prédio e dos outros órgãos públicos das proximidades foram dispensados.
Um dos questionamentos dos presentes é se, ao evitar a prefeitura, a manifestação não estaria exercendo pouca pressão sobre o Executivo, uma vez que o poder já foi apontado como o único capaz de baixar a tarifa. “Olha o que fizemos hoje. Se o prefeito não sentir e ver isso, é melhor ele olhar com mais calma”, disse um dos organizadores Thyago Cézar.
Conforme o próprio Rodrigo Agostinho já havia adiantado ao JC, ele não participou dos protestos.
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