A greve dos funcionários das empresas que operam o transporte coletivo de Bauru atingiu em cheio o comércio central da cidade. Mesmo com a decisão do Tribunal Regional do Trabalho (TRT), de retorno dos ônibus, a cidade novamente amanheceu sem transporte coletivo ontem, e os reflexos foram bastante sentidos pelas lojas.
Douglas Reis |
|
|
Sem ônibus circulando na cidade, o movimento foi pequeno no Calçadão de Centro |
Considerado o melhor dia da semana para o comércio, o sábado foi atípico em Bauru. Ao contrário do que ocorre normalmente, o movimento no Calçadão da rua Batista de Carvalho estava ruim. Por volta das 10h, por exemplo, poucas pessoas circulavam pela principal via de comércio da cidade, o que se refletia nas lojas: a cena mais comum era o de vendedores parados, esperando pela clientela, que desta vez acabou ficando em casa.
Adileuza Gonçalves, gerente de uma loja de cosméticos na quadra 6 do Calçadão, afirmou que a queda em seu estabelecimento foi significativa. “Olha, desde ontem (sexta-feira), caiu 80% o movimento, a maioria depende de ônibus para vir ao Centro, e o Calçadão é popular, sem o transporte coletivo fica difícil para o pessoal. Sábado é o nosso melhor dia de vendas, e hoje (ontem), ficou bem comprometido. Neste horário (manhã), costuma ter fila na loja, nos caixas, agora não, está todo mundo parado. Este sábado certamente vai prejudicar os números no final do mês”, comenta Adileuza.
A greve também afetou a vida dos funcionários do comércio, que precisam encontrar alternativas. “Os funcionários que têm carro, acabam dando carona para quem mora perto, procuram alternativa, mas nós temos uma tolerância com os atrasos nesses dias, os funcionários não têm culpa, estão sem opção”, relata a gerente.
A operadora de caixa Aparecida Muniz, por exemplo, mora na Vila Santa Luzia e desde sexta-feira está vindo a pé até o local de trabalho, no Centro. “Ontem (sexta-feira), vim e voltei do trabalho a pé, levei 45 minutos, andando depressa. Quando vou de ônibus, levo no máximo 15 minutos. Sem ônibus é complicado”, explica.
“Mês sacrificado”
Apesar de ser tradicionalmente um mês bom para as vendas, em função do Dia dos Namorados, no dia 12, junho não deverá ser motivo para comemoração em 2013. De acordo com o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Bauru, Alceu Camargo, as vendas em comparação com 2012 serão menores. “Já estávamos projetando uma queda de 5% a 8% em relação ao ano passado. Agora, com a greve dos ônibus, que não sabemos quando vai se normalizar totalmente, essa redução pode chegar a até 10%. Este mês estamos sacrificados”, explica.
“Desde sexta-feira, estamos estimando uma média de 30% a 35% de queda nas vendas. E a quantidade de pessoas também caiu bastante, hoje (ontem), circulou uma média de 40% menos em relação a um sábado normal”, detalha Camargo. “O comércio possui uma importância grande para o Município, inclusive na arrecadação de impostos”, destaca.
“Nesta última semana, já tivemos uma queda por causa das manifestações, o pessoal sempre fica com um pouco de receio e isso se refletiu no comércio, e agora com esta greve complicou de vez, principalmente no Calçadão, que a maioria vem de ônibus”, cita o presidente da CDL.
Em relação à ausência de funcionários, os próprios comerciantes estão buscando soluções. “Na minha loja, por exemplo, nenhum funcionário faltou, mas tivemos que buscar alguns para que pudessem chegar. Agora, nos grandes magazines, fica mais difícil fazer isso, e a gente sabe que cerca de 10% dos funcionários acabaram faltando”, conclui Camargo.
Mototáxis
Um dos problemas relatados pelos bauruenses na sexta-feira foi o preço abusivo de muitos mototaxistas, que chegaram a cobrar mais de R$ 30,00 por corridas que não saiam por mais de R$ 10,00 em dias “normais”. Ontem, o movimento de mototáxis era menor, o que já era esperado por se tratar de um sábado.
A reportagem conversou com o mototaxista Reginaldo de Oliveira, que estava com crachá de identificação e colete, como rege a padronização para os cadastrados na Emdurb. Ele, inclusive, considerou inadequada a postura de quem vem praticando preços abusivos. “Estou trabalhando normalmente, e cobrando o preço que faço em qualquer dia. A greve pode estar acontecendo agora, mas o cliente está aí sempre, então estou trabalhando com os preços normais mesmo”, cita Oliveira. “Atendi mais os clientes de sempre mesmo, e alguns a mais por conta da greve”, explica.
Perguntamos quanto custaria uma corrida do local (Praça Rui Barbosa) até um ponto mais afastado, como a Vila Dutra ou o câmpus da Unesp, e o mototaxista afirmou que seria R$ 10,00. Para bairros mais próximos, como o Jardim Bela Vista, o preço seria na casa de R$ 6,00.
Em relação à fiscalização da atividade, o presidente da Emdurb, Nico Mondelli, admite a carência de profissionais. “São cinco pessoas para fiscalizar os transportes especiais, táxis e mototáxis, e esse número diminui nos finais de semana. Acabamos tendo que focar em alguns pontos, como a região central, mas a própria população pode colaborar, denunciando preços abusivos, ligando para a Emdurb a partir de segunda-feira. É importante saber o número da placa”, comenta Mondelli.
Em relação aos pontos de ônibus, que ainda estavam com muita gente na sexta-feira, mesmo com a greve anunciada, o cenário já era diferente ontem. Poucas pessoas estavam nos pontos das principais avenidas da cidade, como a Rodrigues Alves, a Nações Unidas e a Duque de Caxias.
Líder da paralisação some
O Tribunal Regional do Trabalho (TRT) determinou na sexta-feira o retorno dos ônibus sob pena de multa diária de R$ 100 mil ao grupo que está organizando a greve. A ausência dos coletivos nas ruas também pode configurar abandono coletivo de trabalho e desobediência, sob o risco de gerar demissões por justa causa. As regras, no entanto, só passam a valer a partir do momento em que um oficial da Justiça do Trabalho conseguir localizar Valter Dutra Pereira, líder do grupo dissidente do Sindicato dos Trabalhadores do Transporte Coletivo (Sindtran), que deflagrou a paralisação.
O líder do movimento, contudo, não foi encontrado pela reportagem do JC. Ele teria ido até a garagem das empresas Grande Bauru e Baurutrans, mas os próprios funcionários da empresa alegaram que não sabiam onde Dutra estava. Um oficial da Justiça do Trabalho também tentou durante todo o dia localizar Dutra para entregar a intimação do TRT.
O advogado Hudson Chaves informou ontem que Dutra não tinha sido notificado pela Justiça sobre a liminar. Chaves defende que a Emdurb não teria legitimidade para pleitear a liminar concedida pelo TRT. “Como é um dissídio de greve, quem é parte legítima são as empresas e os empregados, que seria a comissão. A Emdurb não pode figurar nesse polo. Eu vejo que, ele (Valter Dutra Pereira) sendo intimado, nós temos grandes chances de derrubar essa liminar”, afirma.
Para o advogado, a Emdurb deveria cobrar uma solução das empresas de ônibus e pressioná-la para que se feche um acordo ou coloque os ônibus em circulação. Ele cita que a Emdurb deveria se basear na lei que autoriza a concessão a fim de tomar medidas contra a empresa. “Isso não está acontecendo”, disse.
Emdurb estuda medidas
O presidente da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb), Nico Mondelli, não escondeu o descontentamento com a situação gerada pela greve. “Já houve um acordo coletivo, que começa a valer agora, no próximo mês eles (motoristas) já terão aumento. A gente não entende esta paralisação agora, e a Emdurb vai tomar uma posição”, explica.
Até mesmo as empresas podem ser punidas. “O contrato prevê multa diária em caso de problemas no atendimento ao usuário, e isso já aconteceu em outubro do ano passado, quando teve outra greve”, relata Mondelli, descartando a possibilidade de haver quebra de contrato. “As empresas também não tem culpa da paralisação, então uma medida como esta seria drástica. Até mesmo no caso de multas cabe recurso, é normal”, finaliza.
Já a Transurb (associação das empresas de transporte coletivo), informou que as empresas estão prontas para retomar o serviço, e inclusive fizeram o procedimento normal ontem de buscar os trabalhadores para o início do expediente.
Conselho vai mover ação
Pedro Valentim, presidente do Conselho Municipal dos Usuários do Transporte Coletivo, informou ontem que a entidade vai entrar com uma ação civil pública contra a oposição sindical (que está organizando a paralisação), a Emdurb e também contra as empresas que operam o transporte coletivo em Bauru.
“Fizemos um boletim de ocorrência na sexta-feira, pelo fato do percentual mínimo (30%) não ter sido cumprido, e quem está pagando com isso é o usuário. Na terça-feira, vamos entrar com uma ação civil pública devido a esta situação, é o terceiro ano seguido que temos greve no transporte coletivo da cidade”, pontua Valentim.
O presidente do Conselho cobra ainda um plano de emergência por parte da Emdurb. “Precisa haver um Plano B, como a Polícia Militar ou o Tiro de Guerra disponibilizar pessoas para conduzir os ônibus em caso de greve dos motoristas”, explica.
Empresas: ‘100% prontas para pôr ônibus na rua’
Um comunicado da Transurb, associação que representa as concessionárias do transporte coletivo, ressaltou ontem que “as empresas estão, como sempre estiveram, 100% prontas para pôr os ônibus nas ruas, em obediência à decisão do Tribunal Regional do Trabalho (TRT), em Campinas”. As empresas salientam que os motoristas se recusaram a colocar a frota na rua, não cumprindo nem mesmo a exigência legal de liberação de 30% dos ônibus para garantir o transporte mínimo dos trabalhadores em geral, por se tratar de um serviço público essencial.