Geral

População critica as poucas horas de circulares nas ruas

Por Tisa Moraes | Colaborou Bruno Freitas, Marcele Tonelli, Thiago Vendrami e Marcus Liborio
| Tempo de leitura: 13 min

Os motoristas do transporte público circularam até as 8h30 com os ônibus coletivos, na manhã desta quinta-feira (27) em Bauru. Mesmo excedendo 30 minutos do horário previsto para recolher os circulares nas garagens, muitos usuários ficaram insatisfeitos e, alguns, nem sequer conseguiram tomar o ônibus.

“Para mim, este horário não adiantou em nada. Terei de ligar para o meu chefe me buscar”, reclamou Rudson Rocha, que estava em um dos pontos da avenida Rodrigues Alves.

Thiago Vendrami

População aguarda o circular em um dos pontos da avenida Rodrigues Alves

Algumas linhas registraram atrasos e eram vistas pela reportagem do JC circulando pela avenida Rodrigues Alves ainda em ativa por volta das 8h30, como é o caso dos coletivos com destino ao bairro Otávio Rasi, Parque Cerejeiras e Shopping. 

De acordo com o advogado da comissão dos trabalhadores, Hudson Chaves, os últimos ônibus chegaram às garagens após as 9h.

Uma semana sem trabalhar

Thiago Vendrami

A camareira Rita Veridiana ficou uma semana sem trabalhar por causa da greve e terá salário descontado

Uma camareira de 22 anos ficou uma semana sem trabalhar por não ter como levar o filho de 4 anos à escola. Rita Veridiana se viu obrigada a ficar em casa, na rua Nove de Julho, região do Parque Jaraguá, correndo o risco de perder o emprego.

“Eu trabalho em um hotel próximo à Praça da Paz. Normalmente, pego dois ônibus: um para levar meu filho à escola e outro para chegar ao trabalho”, explica.

A empresa onde Rita trabalha ofereceu mototáxi para os funcionários durante o período de paralisação dos ônibus em Bauru, mas de nada adiantou a ela. “Não tive escolha e permaneci em casa. Como vou transportar meu filho em uma moto?”, questiona.

Os dias em que a camareira ficou sem trabalhar serão descontados da folha de pagamento.

Já quem mora afastado do Centro da cidade enfrentou atrasos na linha de coletivos que percorrem os bairros. No Santa Edwirges, duas “aprendizes” de um supermercado aguardavam o circular em um dos pontos do bairro. “Já está atrasado”, dizia Jéssica Cristina Soares Gerlim, 16 anos.

Nesta semana, ela e a amiga, Bruna Silva Dias Rosa, de 17 anos, caminharam por cerca de três horas e meia para retornarem do mercado, na avenida Cruzeiro do Sul, para casa . “Tivemos que fazer isso duas vezes desde quando começou a greve. Não é sempre que a gente consegue carona”, explicou Bruna. 

Thiago Vendrami

As adolescentes Jéssica Soares (dir) e Bruna Silva (esq) esperavam pelo coletivo no Santa Edwirges; durante a greve, as duas chegaram a andar por três horas e meia a pé para voltar do trabalho 

Discussão

Thiago Vendrami

Os coletivos ficaram lotados na manhã desta quinta-feira

Uma pequena discussão envolveu motoristas e empresas de ônibus pouco antes dos veículos saírem, por volta das 5h de hoje. "As empresas estão dificultando de soltar os carros, porque querem que cada um saia na sua linha e não tem como, pois os horários são diferentes, alguns começariam depois das 6h", afirmou Valter Dutra, líder dos grevistas.

Os motoristas, portanto, seguiram a exigência da liminar de iniciar as atividades a partir das 5h, fazendo linhas diferentes na primeira volta, a fim de garantir o maior tempo possível nas ruas. Quem estiver no meio de um trajeto no horário das 8h, concluirá o percurso antes de retornar à garagem.

Nos demais horários, os ônibus deverão permanecer nas garagens, ao menos até que o Tribunal Regional do Trabalho (TRT), em Campinas, revise sua decisão.

Tudo o que aconteceu até quarta-feira à noite

Em despacho divulgado na quarta-feira (26), o desembargador Flavio Nunes Campos, do TRT, relator do caso, determinou que os circulares operassem com 70% da frota, nos horários de pico (5h às 8h e 17h às 20h), mas não fez referência aos horários de entrepico.

Esta lacuna fez com que o grupo dissidente do Sindicato dos Trabalhadores do Transporte Coletivo (Sindtran), que deflagrou a greve, entendesse que não haveria obrigatoriedade de funcionamento do serviço no restante do dia. Mas, pela Lei de Greve, ao menos 30% dos coletivos deveriam permanecer nas ruas. Por este motivo, a Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb) ingressou com recurso, pedindo para que o TRT esclareça sua decisão.

Em seu despacho, o desembargador Flavio Campos também menciona que a greve é um direito dos trabalhadores, o que gerou polêmica nas redes sociais e dentro da própria imprensa sobre uma possível decisão a respeito da legalidade do movimento. O julgamento, no entanto, ainda não ocorreu e depende não apenas da decisão do relator, mas de toda a Seção de Dissídios Coletivos do TRT, órgão colegiado composto por 12 magistrados. A informação foi prestada pela assessoria de imprensa do tribunal, que destacou que o caso deverá ser analisado dentro dos próximos dias.

Conciliação

Mas, para tentar antecipar uma conciliação, o procurador Luís Henrique Rafael, do Ministério Público do Trabalho (MPT), agendou, para as 14h de hoje, uma nova audiência com representantes do Sindtran, grupo dissidente, Emdurb e Associação das Empresas do Transporte Coletivo Urbano de Bauru (Transurb), formada pelas três operadoras do serviço na cidade – Grande Bauru, Baurutrans e Cidade Sem Limites. O prefeito Rodrigo Agostinho também confirmou presença.

Na primeira audiência realizada pelo MPT, no último dia 13, antes do início da greve, não houve avanço nas negociações, quando empresas e trabalhadores ainda se mostravam bastante inflexíveis. Sem conseguir ser atendida em suas reivindicações, a liderança do movimento recuou nesta semana, abrindo mão do aumento salarial de 12%. Permanecem na pauta o pedido de aumento de R$ 400,00 no vale-alimentação, aumento de R$ 400,00 pela cobrança de tarifa ou contratação imediata de cobradores, aumento da Participação dos Lucros e Resultados (PLR) da empresa para R$ 1.200,00 e estabilidade para os funcionários até o próximo dissídio, além do abono durante os dias parados. Outra demonstração de flexibilidade foi dada ontem, quando os motoristas voltaram às ruas com 70% da frota, embora com catraca livre. "Se cada ponto da proposta tiver avanço, poderemos encerrar a greve. E entre R$ 400,00 pela cobrança (de tarifa) e contratação de cobradores, a priorirade seria os cobradores", diz Dutra.

O TRT, por sua vez, também reduziu o percentual mínimo exigido de ônibus nas ruas de 100% para 70% da frota nos horários de pico. Nos demais horários, a obrigatoriedade inicial era de 80% mas, no despacho de ontem, nenhum índice foi citado. Diante disso, a Emdurb entende como vigente o teor da liminar anterior, com 80% dos trabalhadores no entrepico.

Após denúncia, acordo coletivo é registrado

No início da tarde de ontem, o advogado da comissão que lidera a greve dos motoristas, Hudson Chaves, divulgou nota à imprensa para informar que o acordo coletivo entre as empresas e o Sindicato dos Trabalhadores do Transporte Coletivo (Sindtran) não havia sido formalizado no Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e, portanto, não teria validade jurídica.

Consultado, o MTE informou que o acordo foi registrado ainda ontem e já está em vigor. Conforme o gerente regional da delegacia do ministério em Bauru, José Eduardo Rubo, o documento não foi protocolado antes porque a nova diretoria do Sindtran, eleita em fevereiro, só foi validada pelo ministério no dia 13 de junho. “Sem esta validação pelo sistema mediador do MTE, a diretoria não conseguia registrar o acordo. Não havia prazo máximo estabelecido para formalizá-lo, mas tudo foi regularizado ontem”, pontua. 

Para o advogado Hudson Chaves, o acordo coletivo foi firmado sem que as exigências da categoria fossem respeitadas. “O documento foi aprovado da maneira que melhor entenderam as empresas e o sindicato, sem participação da vontade geral dos trabalhadores”, frisa.

Ainda de acordo com ele, um abaixo-assinado que contou com a adesão de 376 motoristas – de um total de cerca de 500 empregados - comprova que eles não votaram favoravelmente ao acordo firmado entre sindicato e empresas.

Segundo o grupo dissidente, o acordo coletivo já firmado foi fraudulento, pois contou com participação de trabalhadores de outras categorias. O sindicato nega e questiona a legalidade da greve.

Retorno tranquilo

A saída dos ônibus de dentro das garagens das empresas de transporte coletivo de Bauru foi tranquila e não demandou acompanhamento da Polícia Militar. De acordo com o líder do movimento grevista, Valter Dutra, não há previsão para o retorno de toda a frota nos horários normais.

A reportagem do JC acompanhou, dentro de alguns ônibus, a volta para casa dos usuários na primeira hora de retorno do serviço. Tudo ocorreu de forma tranquila e sem contratempos. “Trabalho nos Altos da Cidade e moro no Parque Santa Edwirges. Só consegui trabalhar durante esses dias graças ao sacrifício do meu marido, que me levava, ia para o trabalho dele e depois voltava para me buscar”, contou a comerciante Rosa Gomes de Alencar.

Malavolta Jr.

Claudia Xavier relata dias extenuantes sem ônibus

Já para Claudia Xavier, que trabalha no Centro e reside no Jardim Bela Vista, a rotina nesses dias sem o transporte coletivo tem sido extenuante. “Preciso ir para o serviço a pé, trabalho em pé e depois, cansada do expediente, também tenho que voltar a pé. É muito cansativo”, detalhou ela, que comentou ainda sobre o abuso dos preços cobrados por mototaxistas. “Eles cobravam R$ 20,00 pela corrida, um absurdo”, finalizou a comerciante.

Apesar do retorno em alguns horários, os usuários do transporte coletivo de Bauru continuam apreensivos, já que nem sempre será possível utilizar os circulares devido à restrição dos horários de funcionamento do serviço.

Contra-ataque

Por meio de nota, a Associação das Empresas do Transporte Coletivo Urbano de Bauru (Transurb) informou que tomou conhecimento sobre a circulação dos ônibus sem cobrança de passagens. No entendimento da entidade, que é formada pela Grande Bauru, Baurutrans e Cidade Sem Limites, os motoristas descumprem decisão do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) ao operar com catraca livre.

A Transurb esclarece ainda que tomará as medidas judiciais cabíveis contra a decisão dos funcionários. Conforme o JC apurou, a empresa ainda não considera iniciar demissões por justa causa dos funcionários em greve, que ficaram de braços cruzados mesmo depois de serem notificados pelo TRT a voltar ao trabalho.

Motoristas do Paraná

Cerca de 40 motoristas rodoviários vindos de outras cidades do Estado e do Paraná chegaram a Bauru na noite de anteontem a pedido das três empresas que operam o serviço de transporte coletivo em Bauru. Segundo o JC apurou, eles já seriam funcionários dessas empresas e foram trazidos para garantir a circulação dos ônibus caso os motoristas de Bauru não voltassem ao trabalho.

De acordo com o líder do movimento grevista, Valter Dutra, os 40 homens vieram à cidade sem saber que seus colegas estavam em greve. “São pais de família e trabalhadores como nós. Eles não saírem é uma segurança a mais, pois não se sabe a reação de alguns motoristas e da própria população. Eles foram enganados pelas empresas”, garante.

Conselho de usuários planeja protesto

O Conselho Municipal dos Usuários do Transporte Coletivo e Urbano de Bauru informou, ontem, que pretende mobilizar um protesto em frente à Câmara Municipal e à sede da prefeitura caso os circulares não voltarem a operar normalmente até hoje. Segundo o presidente da entidade, Pedro Valentim, a manifestação poderá ser marcada já para a próxima sexta-feira, conforme decisão tomada em reunião realizada ontem junto à liderança do conselho. “Toda a população será convocada a participar”, frisa.

Além do protesto, a entidade promete, ainda hoje, denunciar ao Ministério Público do Trabalho (MPT) as empresas responsáveis pelo transporte público em Bauru e a Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb), reguladora do serviço. “Vamos representar contra a ineficiência administrativa e a falta de fiscalização diante dos mototaxistas não regulamentados, que estão extorquindo a população com cobrança de preços abusivos”, detalha.

Comércio estuda pedir indenização na Justiça

Amargando prejuízos desde o início da greve dos motoristas do transporte coletivo, os lojistas da região central de Bauru estudam ingressar com ação na Justiça para requerer indenização das empresas responsáveis pelo serviço e da prefeitura. Segundo Alceu Camargo, presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), os comerciantes já registram queda de 70% nas vendas desde a última sexta-feira, quando a paralisação teve início.

“O prejuízo é enorme. Fora isso, muitos funcionários não conseguem chegar ao trabalho e são obrigados a faltar. As lojas pequenas, que contam com poucos trabalhadores, estão tendo de buscar esse pessoal em casa. É um gasto a mais dentro de uma situação crítica”, lamenta.

De acordo com Camargo, a CDL pretende esperar até o final desta semana para que o serviço de transporte coletivo se regularize. “Caso contrário, nossa ideia é acionar judicialmente quem responde pelo serviço”, adianta.

Mais do mesmo

Com uma mochila nas costas e aparentando cansaço, Guilherme se mostrou indignado com os prejuízos causados pela greve à população. Mesmo informando usar pouco o transporte coletivo em Bauru, a mesma opinião era dividida pelo caminhoneiro Edvaldo Gomes, 47 anos. “E se eu precisasse do ônibus para uma emergência? Ficaria na mão”, observa.

Mas não são somente os trabalhadores que sofrem com a paralisação do transporte público. A reportagem do JC percorreu diversos pontos da cidade e observou um grande número de jovens caminhando pelas ruas.

A estudante Jaqueline Alba Ferreira, 18 anos, voltava do Hospital Estadual, onde acompanhou a irmã em uma consulta. Ela mora próximo à Universidade Sagrado Coração (USC) e teria de ir a pé a mais dois compromissos à tarde. “Levei mais de uma hora para chegar até o hospital e vou levar o mesmo tempo para chegar em casa. À tarde, tenho cursinho e estágio em locais diferentes e longe um do outro. O táxi custa mais de R$ 20,00. É complicado pagar essa quantia toda vez que preciso sair”, diz.

‘Já deu’

O mesmo dilema era vivido pela dona de casa Ângela Maria dos Santos, 47 anos, moradora do Jardim Tangarás, que após 1h30 de caminhada para ir ao posto de saúde mais próximo voltava para casa. “Precisava pegar uma guia para exames médicos, por isso tive que ir até o posto do Redentor. Minha filha também está perdendo dias de curso porque não tem ônibus para ir para ao Centro e não temos carro. Essa greve já deu o que tinha que dar, está na hora de voltar”, reclama a usuária do transporte público.

No Núcleo Octávio Rasi, assim como no Centro de Bauru, a cena observada era a mesma: os pontos vazios e pessoas pegando carona por todos os lados.

“O pessoal aqui do bairro tomou chuva hoje cedo para descer para o Centro a pé. Estou duas horas atrasado no serviço e esperando carona para não perder o dia”, reforça o agente de uma clínica de repouso da cidade, Marcos Paulo Moraes, 39 anos, criticando a extensão da greve.

Milhares ficam sem ônibus de manhã

Pelo sexto dia consecutivo sem transporte coletivo, milhares de bauruenses, entre trabalhadores e estudantes, precisaram improvisar ontem de manhã para chegar ao destino desejado. Muitos, sem dispor de meios próprios e para não pagarem o valor abusivo cobrado por alguns mototaxistas, optaram por longas caminhadas.

É o caso do técnico em laboratório Guilherme Augusto Sanches, 28 anos, que, para chegar ao trabalho, teria de enfrentar uma jornada de quase duas horas a pé. “Eu moro no Mary Dota e vou caminhando até a Unesp, onde trabalho. Tenho que sair de casa mais de uma hora e meia antes e, mesmo assim, estou atrasado”, diz.

Dormindo fora

Para contornar a falta do transporte público, a decoradora Ana Paula Oliveira Legnari, 28 anos, aumentou em R$ 100,00 o valor pago para uma amiga ajudante do lar para que ela pudesse passar a noite com seus filhos nos últimos três dias. “Eles estão indo para a escola à tarde e ficando com ela nos outros horários. Estou dormindo na casa da minha avó para pegar carona com meu tio até meu emprego. Os mototáxis estavam cobrando até R$ 25,00 para me levar até o Centro. Não tem condições! Até quando a população vai sofrer com isso?”, questiona a decoradora, moradora do Pousada da Esperança 2.

Comentários

Comentários