É comum ver uma demanda das famílias das pessoas usuárias de drogas por uma internação psiquiátrica para seu tratamento. Outras vezes, esta demanda ocorre por parte de profissionais de saúde que encaminham a pessoa ao especialista e, às vezes, por parte do próprio paciente. Como é vista hoje em dia esta questão, ou seja, de internar alguém ou tratá-lo sem internação? Quando internar?
O consenso entre os médicos especialistas na área, fundamentado pela legislação e por pareceres dos conselhos de medicina, é de que existem algumas situações nas quais a internação é conduta de primeira escolha: são os casos em que o usuário apresenta riscos de autoagressão, de heteroagressão, de agressão à ordem pública, de exposição social ou incapacidade grave de manter cuidados consigo mesmo (higiene, alimentação, tomada de medicamentos), como no caso de pacientes em surtos psicóticos.
Com exceção do último caso, os profissionais levam em consideração apenas os casos de riscos imediatos. Por exemplo: interna-se uma pessoa dependente de álcool que fica agressiva quando bebe, chega alcoolizada à consulta e comenta que sairá de lá e matará o seu vizinho; esta mesma pessoa não seria internada para tratamento só pelo fato de abusar de bebidas e saber-se que o álcool aumenta, de modo geral, os comportamentos agressivos.
Além dessas situações, o médico especialista interna pacientes apenas após múltiplas tentativas malsucedidas de tratamento sem internação.
Por quanto tempo internar?
Antigamente, não era raro que internações por uso de álcool e drogas ilícitas durassem muitos meses. Hoje em dia, a maioria dos médicos especialistas, na maioria dos casos, interna apenas por períodos de semanas. O motivo desta atitude é que não há provas de que internações prolongadas levem a resultados melhores.
O que se deve fazer durante uma internação?
Ao contrário do que muitas pessoas pensam, alguns dias de abstinência são suficientes para o organismo eliminar a maior parte ou todas as drogas do organismo ("desintoxicação"). O restante do tratamento deve incluir a introdução de medicamentos (existem remédios comprovados apenas para o álcool, o tabaco e a heroína) e de uma psicoterapia que conscientize a pessoa do problema e a ajude a identificar as diversas funções que as drogas assumem em sua vida (os porquês psicológicos do uso, que se somam à dependência química).
Num segundo momento, podem ser desenvolvidas estratégias para ajudar a pessoa a viver sem usar drogas, quando sair de alta. Por exemplo: O que fazer quando todos estão bebendo numa festa e oferecem bebida a você? Como você vai dar ?aquela relaxada?, à noite, sem fumar seu baseado? O que fazer quando dá aquela fissura e você sente que não vai conseguir resistir?
A internação involuntária funciona?
A maioria dos estudos sugere que as internações involuntárias podem funcionar. As grandes questões que restam são se elas funcionam melhor, igual ou pior que outras formas de tratamento e quem pode decidir pelo usuário (e por quanto tempo esta decisão pode ser mantida), numa sociedade baseada em princípios democráticos e humanistas.
Ivan Mário Braun é médico psiquiatra, especialista em drogas de abuso, além de doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP e autor do livro "Drogas - Perguntas e Respostas (MG Editores, 2007).