Tribuna do Leitor

Médicos brasileiros e os cubanos - idealismo acuado


| Tempo de leitura: 3 min

Os médicos brasileiros foram para as ruas e, incitados pelas suas organizações de classe, deixaram claro a que vieram: são contra a vinda de médicos estrangeiros ao Brasil, principalmente os cubanos. A movimentação em Bauru ainda está intramuros, mas em algumas cidades vizinhas não, como em Botucatu, local da maior universidade de Medicina da região.

A questão é simples de ser tratada e resolvida. Não é preciso se alongar no assunto. O que mais vemos nas manchetes dos órgãos de imprensa é algo sobre a falta de atendimento aos mais carentes, nos postos do SUS, Prontos-Socorros e rincões do país. É sabido de concursos realizados sem que os médicos, mesmo com altos salários não se interessem por esses atendimentos. Preferem atender em grandes centros e algo bem ao estilo da formação deles hoje, quando os cursos sofreram muito com a retirada das disciplinas de Humanas dos seus currículos.

O profissional está sendo hoje no país preparado muito para o mercado, tendo sido desumanizado, perdendo aquele caráter do atendimento ao que não possui condições de pagá-lo pelo consulta. O profissional médico é um dos mais bem remunerados no país e mesmo assim esses salários não atraem os que foram formados e preparados para atuarem em outro campo, o da medicina privada, com melhores rendimentos e condições materiais.

O médico de hoje renega o atendimento ao pobre, faz pouco caso e só o faz quando ocorre uma compensação muito elevada. O caso de Bauru é o melhor exemplo. O caos estava instalado e só aceitaram atuar quando viram atendidas reivindicações de privilégios que nenhuma classe profissional possui.

Ganham os maiores salários dentro do poder público municipal e isso não fez com que o atendimento fosse normalizado ou melhorasse. Simplesmente voltaram a atuar, sem ao menos resolver a questão. O paliativo do paliativo. Isso se estende pelo país todo. Suas entidades de classe não pensam mais o país num todo, voltando seus olhos somente para os seus membros. O tal do juramento feito quando diplomados não passa de mera formalidade.

Hoje, para justificar a não concordância com a vinda dos cubanos, alegam que as condições de trabalho são péssimas, que falta isso e aquilo. Mentem e tentam nos enganar. Não fazem nem o atendimento básico, o mínimo exigido, o de atender e diminuir a deficiência de afeto, de contato com a população. Rejeitam isso, tiram o seu da reta e jogam toda a carga de culpa dos órgãos públicos. Eles estão em polvorosa, pois pressentem que a máscara está prestes a cair, o argumento será desqualificado quando os médicos cubanos começarem a atender e fazer o que pouco fizeram até agora, que é o de "estar aonde o povo está", como apregoa o refrão da música. Exigem muito e fazem pouco.

Vê-los nas ruas somente agora piora a questão. Fogem do questionamento principal e aproveitam do momento para tentar desviar o foco, encurralando o governo. Insensibilidade e demonstração de desvio de conduta. Vivemos numa sociedade onde o homem vale pouco e o deus vigente é o dinheiro. Nossos médicos atuam dentro desse esquema servil ao capital e rejeitam os que atuam dentro dos reais preceitos da medicina.

Os idealistas vivem hoje momentos de padecimento, sofrendo até perseguições quando buscam o caminho de pregação pelo lado ajustado das coisas. Na medicina não é diferente. Ou mudamos tudo ou tudo continuará como dantes. Pois que venham os cubanos, talvez sirvam para a guinada tão necessária na mentalidade de nossos profissionais.

Henrique Perazzi de Aquino - jornalista e professor de História (www.mafuadohpa.blogspot.com)

Comentários

Comentários