Papa no Brasil: ele está no meio de nós. Está aqui no Brasil. Trouxe consigo a sua visível defesa da humildade, da simplicidade. A sua nítida luta contra formas de vaidade e individualismo. Ele está no meio de nós. Sua presença é vista: no meio do povo, em carro aberto; com roupas muito mais simples que as dos papas anteriores; com um anel papal que ele rejeitou que fosse de ouro. Papa Francisco, o papa da humildade! Que chegou a declarar, recentemente, que "os pastores devem ter o mesmo cheiro de suas ovelhas".
Defesa da humildade: o papa é um franciscano de coração. Ele defende o voto de pobreza. E não é a pobreza em si que é virtude, mas a humildade e simplicidade que decorrem dela. Por isso, é possível ter muito sucesso na carreira ? como aconteceu ao cardeal Bergóglio ? e continuar humilde. É possível ter dinheiro no bolso e continuar sendo simples; continuar rejeitando a ostentação e o exibicionismo. A humildade, então, é que é a grande virtude: que afirma o outro (o próximo) como sendo igual, não menor e nem maior. Para o humilde, todos são iguais. Ou seja, a humildade não gera uma "moral de escravos", como queria Nietzsche. A humildade é o exercício da igualdade entre as pessoas; é a crítica da arrogância. E a humildade não é coisa natural das pessoas. Para que exista, ela precisa ser aprendida, lembrada e exercitada sempre.
Crítica da vaidade: o vaidoso o é naturalmente. A vaidade alimenta-se dos instintos humanos mais básicos. Veja as crianças, como são egocêntricas. Veja os adolescentes, como são ávidos por autoafirmação. A defesa do "ego" humano (autopromoção pessoal) não precisa de quase nenhuma reflexão para existir. Por isso, é natural que todo ser humano seja muito vaidoso! De encontro a isso, o capitalismo contemporâneo, que estimula o individualismo, o consumismo e a ganância, tem aquecido ainda mais esse fogo natural da vaidade humana.
A falácia do consumismo: o marketing comercial tem prometido que a felicidade vem junto com os produtos comprados. Muitas novelas da Globo e filmes de Hollywood vendem um estilo de vida fútil, vaidoso e estadunidense. Isso leva milhões de pessoas a se endividarem para poder consumir luxo. Leva jovens a um hedonismo imediatista, a uma grande exposição física nas redes sociais da internet: fazendo com que a veneração do corpo sobreponha-se à valorização de virtudes da alma.
Uma resposta ao mundo: o mundo atual vive uma crise de liderança, uma crise de representação: um papa mais "socialista", então, é muito pertinente a estes tempos. O mundo atual vive uma crise de valores: um papa mais franciscano, que defende a simplicidade como virtude, então, é muito pertinente a estes tempos. O mundo atual vive uma nova forma de organização, mais horizontal, em rede, globalizada: um papa mais questionador, que valoriza o povo e critica certos elitismos, então, é muito pertinente a estes tempos. Ou seja, a pregação da humildade é, sem dúvida, uma bela resposta às dúvidas da contemporaneidade.
Lição de moral: a vivência da humildade na vida prática está nas grandes atitudes e também nos pequenos detalhes. Está no não exagero das roupas que se usa; na marca mais popular do carro que se compra; na maior discrição da casa em que se mora. A humildade pode estar também no olhar, no tom de voz, no sorriso e no aperto de mão respeitosos. Pode estar no político que consegue conviver no meio do povo; no professor que dialoga sinceramente com seus alunos; no policial que não abusa das pessoas (quer cidadãs ou criminosas); no empresário que desce do salto alto e convive humanamente com seus funcionários etc. Enfim, a humildade é predicado do respeito, da tolerância, da igualdade. Humildade é a lição que o papa Francisco (ele que sempre andou de ônibus) está tentando ensinar a este mundo, este mundo que, de fato, carece de boas lições como essa.
O autor, Wellington Anselmo Martins, criou o Blog: www.cafe-com-politica.blogspot.com