As teorias da Administração e da Economia não alteraram a essência dessas duas atividades humanas. Os fatos administrativos e econômicos são partes do sistema evolutivo da humanidade. O pensar e o agir, ao longo do tempo, foram criando sucessos, com recompensas prazerosas, e fracassos, com privações e sofrimento. Os sucessos estimularam a repetição e os fracassos, as rejeições. Assim o homem foi aprendendo a fazer aquilo que melhor o satisfazia e transmitindo aos outros, principalmente aos filhos. Primeiro, por via oral, atingindo apenas o seu grupo, depois pela escrita, chegando a todos os lugares. E nessa linha foi evoluindo da barbárie ao estado atual de civilização. O desenvolvimento da inteligência foi permitindo que além da explicação de como fazer, fosse procurando descobrir as causas dos sucessos e dos fracassos, e é assim que surgiram as teorias. Foram milênios até que surgissem as teorias que hoje formam os campos de estudo da Economia e da Administração.
Essas teorias evoluíram bastante, principalmente do século passado aos dias atuais, com a criação de escolas especializadas, a produção de livros em massa e o surgimento de palestrantes que formaram um mercado de alta remuneração. As mudanças tecnológicas, da manufatura à automação, e a evolução das comunicações, do telégrafo à internet, servindo de plataforma à globalização, ampliaram a complexidade das atividades econômico-administrativas e suas teorias. Contudo, os novos estudos, enriquecendo as teorias, não alteraram a essência nem de uma, nem de outra. O que produzia sucesso ou fracasso continua o mesmo, mudam apenas as explicações. O sucesso, pensando, planejando e organizando antes de fazer, levou Henri Fayol a formular os primeiros princípios da teoria da Administração. Adam Smith deu os primeiros passos da teoria econômica com os princípios da divisão do trabalho, da formação do preço, da qualidade, do lucro etc., traduzindo o que vinha sendo feito desde tempos imemoriais e que continua sendo feito até hoje.
Na essência da Economia e da Administração está o comportamento humano, determinado pelo egoísmo, pela lei do menor esforço, pelo desejo de poder e de aprovação social e por algumas virtudes. A teoria, interpretando os fatos e formulando princípios, serve para indicar caminhos, assinalar possibilidades de ganhos e alertar sobre possíveis prejuízos. Mas não pode garantir a sua eficácia e nem submeter o homem à sua obediência. O homem continua sendo levado pelos seus interesses, enquanto a teoria vai ganhando novas formulações. É assim que vemos as oscilações das economias privadas e dos países, com seus momentos de sucesso e suas crises. As análises das crises, invariavelmente, mostram a repetição dos erros: falta de planejamento, de prioridades e de controle; gastos maiores que os recursos disponíveis; assunção de riscos elevados, por ambição desmedida; fraudes, lesando clientes e o Estado e exploração do trabalho, a pior forma de manifestação do egoísmo.
Um comportamento característico, tanto das pessoas como das empresas e países, é o esquecimento das crises quando as coisas vão bem. Os sete anos de vacas gordas induzem à comilança e ao esquecimento de plantar e armazenar para nova estiagem. Os erros que levaram a uma crise são repetidos no período de prosperidade e provocam nova crise. Depois vêm as medidas intempestivas de cortes de despesas e de investimentos, para reverter a situação, muitas vezes com resultados negativos. Reportagem de capa da revista Exame de 21/8 mostra que empresas como a Vale do Rio Doce, que aproveitaram o momento de euforia para crescer sem limites, se esqueceram da eficiência. A Vale chegou a ser a maior mineradora do mundo, agora está vendendo parte do patrimônio para concentrar-se nas atividades mais lucrativas e na eficiência. Houve uma grande onda de fusões e aquisições, muitas com ajuda do dinheiro público do BNDES, e pouca preocupação com a competitividade. Em visita ao Brasil, dias atrás, um dos maiores teóricos de estratégia, o professor da Universidade Harvard, Michael Porter, atribui o avanço recente do país mais à bonança externa do que aos feitos domésticos. Criticou, também, o excesso de proteção, que leva à ineficiência. Outra matéria da mesma revista diz que agora é hora de encarar a competição e abrir o mercado, porque a defesa do mercado interno não foi suficiente para aumentar a produtividade do país. Para o presidente da Alpargatas, Márcio Utsch, há duas coisas que sempre funcionam bem quando estão abertas: paraquedas e economia.
O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru e membro da ABLetras