No Dia do Médico, comemorado hoje, Bauru aparece como líder de uma estatística. Segundo pesquisa da Associação Paulista de Medicina (APM), a região possui o maior índice de usuários de planos de saúde que recorrem ao Sistema Único de Saúde (SUS) ou pagam consulta particular para receber o atendimento médico adequado.
O estudo, divulgado ontem em uma parceria com o Datafolha, mostra que, do total de pessoas que possuem convênio médico, 41% procuraram por atendimento particular ou pela rede pública nos últimos dois anos, mesmo pagando pelo plano. Os números se referem à região abrangida por Bauru, Marília, Assis e Itapetininga.
Com base nos cálculos da pesquisa, dos estimados 87.215 conveniados com mais de 18 anos de idade no município de Bauru, 35.758 teriam recorrido ao SUS ou a consultas e procedimentos particulares. O volume dos que relataram ter tido algum problema com o plano nos últimos dois anos, no entanto, é bem maior, chegando a 81% do total.
No Estado, a média de reclamantes é menor (79%), assim como a de usuários que buscaram atendimento fora do convênio (30%). Neste último quesito, a região em que Bauru está incluída ficou à frente de todas as demais, incluindo a Região Metropolitana (34%) e a própria Capital (38%).
Especialistas consultados pela reportagem são unânimes em concordar que as estatísticas refletem uma realidade sentida já há algum tempo pela população. A dificuldade enfrentada pelos planos para garantir tratamento médico de qualidade esbarra em questões econômicas, já que a tecnologia disponível criou uma infinidade de novos exames e procedimentos, tornando a medicina cada vez mais cara.
Fundo do poço
Da mesma forma, a explosão da demanda surgida com o aumento do poder de consumo de grande parte da população fez com que muitas operadoras, interessadas em ampliar a ávida clientela, expandissem seus serviços, mas sem a devida manutenção da qualidade. Com isso, famílias que contrataram planos passaram a enfrentar, em muitos casos, as mesmas dificuldades das que dependem do sistema público.
“A medicina chegou ao fundo do poço, não há nada a comemorar”, lamenta o urologista Carlos Alberto Monte Gobbo, responsável pela delegacia do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) em Bauru. “Minha expectativa é de que este modelo se esgote rapidamente para que a gente comece a rediscutir uma nova medicina, para que todos os cidadãos tenham acesso igualitário à saúde, novamente estatizada, dentro dos moldes do SUS idealizado pela Constituição de 1988”, completa.
Usuários de planos nas UPAs
A demora para a realização de consultas até mesmo nos pronto atendimentos de hospitais particulares tem levado muitos pacientes a procurar as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) mantidas pela Secretaria Municipal de Saúde.
Embora não haja estatística sobre o fenômeno, o anestesiologista e médico intensivista Luiz Antônio Bertozo Sabbag, diretor do Departamento de Urgência e Emergência (DUE) da secretaria, afirma que o número tem crescido a cada ano.
Além de serem construções novas, as quatro UPAs foram distribuídas nos bairros, justamente com a intenção de desafogar o atendimento até então concentrado no Pronto-Socorro Central (PSC). Com isso, em muitos casos, têm conseguido oferecer atendimento em menos tempo do que os pronto atendimentos da rede privada.
“São frequentes os casos de pacientes que vão às UPAs e, quando há necessidade de internação ou um exame mais complexo, informam que possuem plano. Só a partir de então elas passam a usar o convênio”, revela Sabbag.
Dia do Médico
A escolha da data de hoje para celebrar o Dia do Médico possui uma conotação religiosa. Segundo a Igreja, 18 de outubro é o Dia de São Lucas, que, em passagem bíblica, é referenciado pelo apóstolo Paulo como o “amado médico”.
Por este motivo, ele foi escolhido como padroeiro da profissão e, assim, passou-se a comemorar, também hoje, o Dia do Médico. Além do Brasil, países como Portugal, França, Espanha, Itália, Inglaterra, Canadá e Estados Unidos também comemoram a data.
Internações
No estudo, os percentuais de queixas sobre internações e cirurgias aparecem apenas com a subdivisão entre Capital, região metropolitana e Interior. No Interior, 45% dos usuários que precisaram ser internados relataram problemas. Do total, 36% reclamaram da falta de opções de hospitais, 16% por dificuldade ou demora para o plano autorizar a internação, 12% por demora na liberação de exames dentro do hospital durante o atendimento, 9% por falta de vaga no hospital procurado e 4% por negativa ou demora de transferência para hospital especializado e.
Ao todo, 25% de usuários do Interior tiveram problemas com cirurgias. Do total, 17% relataram problemas pela demora na autorização a cirurgia, 9% se queixaram pela falta de cobertura para materiais especiais e 4% devido à negativa de cobertura cirúrgica.
Entre os entrevistados do Interior, 8% já fizeram alguma reclamação, recurso ou notificação contra o plano de saúde. A negativa para cirurgia foi o motivo mais apontado pelos beneficiários que recorreram à Justiça.
Déficit de leitos
Por conta da ascensão de uma grande parcela da população à classe média, mais pessoas passaram a contratar os serviços dos planos de saúde, que não conseguiram acompanhar a demanda. Por mais que algumas operadoras tenham se esforçado para ampliar sua estrutura, de maneira geral a oferta é deficitária.
De acordo com o conselheiro do Cremesp, Carlos Alberto Monte Gobbo, o déficit já chega a 7 mil leitos no setor privado.
“A população, com atendimento cada vez pior no SUS, migrou maciçamente para os planos. Essa expansão abrupta não era esperada e criou-se um novo problema”, analisa.
Além disso, as tecnologias disponíveis trouxeram uma infinidade de novos exames e procedimentos para prolongar a vida humana, o que encareceu o custo médio dos tratamentos médicos. Neste contexto, os planos se veem em um delicado dilema de ordem financeira. “Seriam poucos os usuários que poderiam pagar o custo de todo atendimento disponível. Então, uma série de restrições são impostas pelos planos, senão a conta não fecha”, frisa.
Representante dos planos aponta 73% de satisfação
Ainda que as reclamações contra os planos de saúde sejam muitas, a pesquisa da Associação Paulista de Medicina (APM) revelou que o índice de satisfação dos usuários junto aos planos chega a 73% na região de Bauru. Na média estadual, este índice é menor, mas ainda considerável: 67%.
Por meio de nota, a Associação Brasileira de Medicina de Grupo (Abramge) – que engloba 42% dos planos de assistência médica do País – destacou que o setor privado de saúde realiza anualmente mais de um bilhão de procedimentos. Proporcionalmente, a proporção de reclamações registradas nos Procons contra planos de saúde seriam de duas a cada 100 mil procedimentos.
Ressalta ainda que pesquisa realizada neste mês pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), órgão que fiscaliza as operadoras de saúde, revelou que 72% dos usuários entrevistados estavam satisfeitos ou muito satisfeitos com seu plano de assistência médica.
Metodologia
Segundo a Associação Paulista de Medicina (APM), a pesquisa foi realizada junto à população adulta do Estado de São Paulo que utilizou planos de saúde dos últimos 24 meses. Foram consultados homens e mulheres, com 18 anos ou mais, pertencentes a todas as classes econômicas, que possuem plano ou seguro saúde como titulares ou dependentes. A amostra total é de 861 entrevistas, feitas em setembro deste ano. A margem de erro máxima é de três pontos percentuais, para mais ou para menos, considerando um nível de confiança de 95%.
Médicos pressionados
Embora destaque que existam planos de assistência suplementar que conseguem oferecer tratamento adequado a seus conveniados, o vereador e oftalmologista Raul Gonçalves de Paula reconhece que a maioria apresenta deficiências graves no serviço.
Com falta de profissionais e estrutura insuficiente para atender todos os usuários com quem firmou contrato, há empresas que, segundo Paula, pressionam os médicos a reduzir o volume de exames e procedimentos para tratar os pacientes.
“Os médicos são cerceados, sofrem pressão para não ampliar os gastos com a solicitação de exames, mesmo que eles sejam necessários. O tratamento é prejudicado e os pacientes, muitas vezes, ficam sem poder se escolha”, frisa.
Pronto atendimento é o serviço com mais queixas
A pesquisa da Associação Paulista de Medicina (APM) apontou que 68% dos usuários da região de Bauru já enfrentaram dificuldades em consultas médicas e 30%, na realização de exames. Já o pronto atendimento é o serviço com maior índice de problemas: 90% dos usuários apresentaram queixas.
No item consultas médicas, demora na marcação (52%), médico que saiu do plano (28%) e demora na autorização da consulta (26%) são as reclamações mais citadas pelos usuários da região em que Bauru foi incluída. Na sequência, aparecem a falta de médicos nas especialidades (20%), a espera para a autorização de exames durante a consulta (19%) e a restrição para realização de exames (10%).
Quanto aos exames e diagnósticos, as queixas mais recorrentes são sobre demora para agendamento (18%), tempo para autorização do exame ou procedimento (15%), poucas opções de laboratórios e clínicas especializadas (12%) e falta de cobertura de exame ou procedimento (12%).
Local de espera lotado é o principal problema apontado pelos usuários do pronto atendimento (81%). Demora para ser atendido também é um aspecto importante, mencionado por 66% dos usuários. Outras reclamações citadas são locais inadequados para receber medicação (25%), demora ou negativa para realização de procedimentos necessários (20%) e negativa de atendimento (10%).