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?O ideal seria inaugurar um novo hospital?, diz Abrahim Dabus

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 4 min

Aceituno Jr.

O médico Abrahim Dabus participou ativamente da evolução da medicina e da profissão médica no município

Prestes a completar 88 anos, o ginecologista, obstetra e ex-deputado estadual Abrahim Dabus acompanhou e participou ativamente da evolução da medicina e da profissão médica em Bauru.

Um dos responsáveis pela instalação da Maternidade Santa Isabel, ele foi e continua sendo um dos mais respeitados profissionais da área, que se dedicou intensivamente - inclusive no âmbito político - ao atendimento de pacientes da rede pública de saúde.

Hoje aposentado, Abrahim vê com preocupação a atual insuficiência de leitos para atender toda a demanda da região, avalia que a cidade precisa de um novo hospital e sustenta, no Dia do Médico, que grande parte dos profissionais carece de boa formação para tratar seus pacientes de maneira adequada. Leia, abaixo, os principais trechos da entrevista concedida ontem ao Jornal da Cidade.


JC - Quando o senhor começou a atuar em Bauru?

Abrahim - Cheguei em 1950, vindo do Rio de Janeiro, onde me graduei. Ainda jovem, comecei trabalhando na Santa Casa de Misericórdia, no prédio que ainda fica ao lado do Hospital de Base. Trabalhava no Pronto-Socorro, nos casos de urgência e emergência.

JC - E como era a medicina naquela época?

Abrahim - Era uma medicina muito artesanal, não tínhamos anestesistas. Para fazer as cirurgias, utilizávamos as chamadas máscaras de Ombredane para anestesiar os pacientes por meio da inalação de éter. Progressivamente, a medicina foi evoluindo.

JC - Como foi esta evolução em Bauru?

Abrahim - Ainda na década de 1950, o Hospital de Base foi inaugurado. Fui transferido para lá e começamos a realizar cirurgias de maior porte, inclusive cardíacas, o que foi motivo de grande orgulho para a cidade. Outras especialidades foram sendo incorporadas, tínhamos um corpo clínico invejável. Mas havia uma divisão entre os profissionais que atuavam na rede pública e os que só trabalhavam na rede privada.

JC - O senhor participou da criação da Associação Hospitalar de Bauru (AHB)?

Abrahim - Isso foi bem depois (1977), quando eu já era deputado. Houve uma ruptura entre o corpo clínico e a direção do Hospital de Base. Interventores foram nomeados pelo governo para gerir o hospital e, então, criou-se a associação, que teve amplo apoio político.

JC - Mas, depois, acabou sendo extinta por conta do escândalo desencadeado pela Operação Odontoma.

Abrahim - Foi algo lamentável. Tudo que ocorreu posteriormente se deu por conta do desastre administrativo da diretoria da associação.

JC - Por quanto tempo o senhor foi deputado estadual?

Abrahim - Por 16 anos, a partir de 1970.

JC - E qual foi sua contribuição para a instalação da Maternidade Santa Isabel?

Abrahim - Por meu intermédio como deputado estadual, consegui fazer com que a maternidade fosse inaugurada, inclusive com a presença do então governador Paulo Egydio. Isso foi no final da década de 1970.

JC - Como o senhor avalia a saúde pública de Bauru hoje?

Abrahim - É preocupante. Mais de 40 municípios enviam seus pacientes de média e alta complexidade para a cidade e não há aporte financeiro para suportar toda esta demanda. O Hospital de Base está fisicamente deteriorado, com número de leitos reduzido, porque falta dinheiro.

JC - Qual seria a solução para contornar este momento crítico?

Abrahim - O ideal seria inaugurar um novo hospital, mas isso levaria muitos anos, tempo que, talvez, a cidade não possa esperar. O próprio secretário (de Estado da Saúde, David Uip), quando veio a Bauru, disse ser inviável reformar o HB, que está com estrutura defasada. O Centrinho também foi pensado para o atendimento específico das anomalias craniofaciais e não está adequado para outras cirurgias demandadas por um hospital geral. Precisamos de um hospital moderno, deste século, dimensionado para atender a demanda da região pelas próximas décadas.

JC - Hoje, no Dia do Médico, como o senhor avalia a atual situação da profissão?

Abrahim - Eu, que faço parte de uma geração que consolidou a assistência de saúde em Bauru, vejo com desprazer o fato de haver tantos médicos despreparados, oriundos de faculdades que foram criadas dentro de uma avalanche de novas instituições de ensino no País e que não se atentam para a importância da adequada formação desses profissionais. Estamos vivenciando um momento crítico quanto à qualificação dos médicos, que saem das faculdades sem uma visão tridimensional da profissão.

JC - Qual sua opinião sobre o Programa Mais Médicos?

Abrahim - É absurdo. Ninguém sabe se estes médicos estão habilitados a trabalhar em locais com pouca ou nenhuma estrutura para atendimento. Foi a saída que o governo encontrou para contornar a baixa remuneração oferecida pelo SUS, mas a falta de infraestrutura permanece e a penalizada continua sendo a população. É algo que envergonha nossa consciência profissional de médico.

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