Um jogo duro e muito competitivo. É assim que é metaforizado o mercado de trabalho. Seguindo a mesma figura de linguagem, uma parcela importante desses jogadores vem preocupando. Por uma série de causas que passa por evoluções sociais, predileção por cursos superiores e até a proteção dos pais, os jovens têm demonstrado, segundo especialistas, excessivo desânimo para entrar e fazer parte desse jogo.
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João Rosan |
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Jovino Alves Rocha com o ? lho, Jeferson: jovem já fez uma série de cursos e busca estágio como designer |
O consultor de carreiras Sidnei Oliveira, que é expert nas gerações Y e Z e mentor de jovens, explica que o mercado de trabalho passou a ser encarado de forma diferente pela juventude ao longo das décadas.
As pessoas, segundo ele, que nasciam nos anos de 60 e 70, enxergavam o ingresso ao mercado de trabalho como a grande oportunidade de atender desejos pessoais que os pais não podiam suprir. “Mas isso foi mudando nas gerações seguintes”, afirma Oliveira, que é escritor de quatro livros sobre a temática e foi um dos palestrantes do evento “O Jovem e o Mercado de Trabalho”, realizado recentemente em Bauru.
Além da própria evolução que o País teve ao longo das décadas com a abertura de mais oportunidades e até com os próprios programas governamentais, uma conjunção de fatores contribuiu para tal mudança de comportamento da juventude.
Entre essas alterações, está o próprio pensamento daquelas pessoas que entraram cedo no mercado de trabalho, tiveram seus filhos e, hoje, essas crianças cresceram e se tornaram jovens.
“A família de hoje está provendo mais esses jovens. Os pais, que tiveram que trabalhar cedo, acabam sustentando os filhos mais tempo. É aquele tal negócio: ‘vou trabalhar para ele não precisar passar pelo que eu passei’”, destaca Oliveira.
E nessa ideia está embutida ainda uma cultura de nível superior. De acordo com o consultor, atualmente, os pais querem que, de uma forma ou de outra, os filhos cursem uma faculdade.
É uma premissa de que isso significará um futuro melhor e quase que um preconceito em relação aos cursos técnicos. Estes, por sua vez, são vistos como uma das soluções para o atual contexto.
Desânimo
“Quando esses jovens, providos pelos pais até mais tarde do que antes, saem da faculdade, eles não estão preparados. Encontram um mercado de trabalho mais duro do que o que foi projetado a eles. E quando falo em preparação, não é em termos acadêmicos. Eles não estão preparados em atitude”, complementa o consultor.
Sem essa atitude e ingressando só após a conclusão do ensino superior, os jovens mergulham em um estado de desânimo, teoriza Sidnei Oliveira.
“São aqueles jovens que ficam esperando encontrar o emprego ideal. Acham que cursaram uma faculdade e são merecedores de um emprego ideal. O que eu procuro passar a eles é que precisam entrar já no jogo”.
Porém, entrar no jogo não basta somente ingressar no mercado de trabalho. “Por conta desse desânimo, muitos ficam pulando de um emprego ao outro. Eles acabam sempre sendo tratados como novatos”, explica o especialista.
X, Y ou Z?
De qual geração você faz parte? A classificação sociológica depende da época em que você nasceu. A geração X é considerada a mais antiga, que engloba os nascidos na década de 70.
Já aqueles que nasceram nos anos 80 ficaram conhecidos como os membros da geração Y. Por alguns, são chamados de geração do milênio ou geração da Internet.
Por fim, veio a geração Z, representada pela maior parcela da juventude atual. Ou seja, os jovens que nasceram na segunda metade da década de 90.
Alguns filhos ainda seguem os ‘duros passos’ dos pais
Waldir Rodrigues, 43 anos, começou a trabalhar muito cedo. “Foi o que me deu aprendizagem”. Por isso, o servente de pedreiro não abriu mão que o filho Lucas Vinícius Rodrigues, 18, já ingressasse no mercado de trabalho assim que atingisse a idade permitida.
A história da família é uma exceção na tendência apontada pelo expert nas gerações Y e Z. E uma exceção que já deu resultado. Lucas Vinícius começou a trabalhar como mirim em uma delegacia aos 16 anos. “Quando fiz 18, fui efetivado como atendente”, conta o jovem, orgulhoso.
Ele, porém, pretende fazer no próximo ano faculdade de Direito para continuar “crescendo” na delegacia. O pai aprova a iniciativa. “Ele vai fazer o curso e trabalhar junto. Além de ajudar a pagar os estudos, ele já vai tendo os contatos lá dentro”, completa Waldir.
O exemplo não deve parar por aí. Questionado se vai começar a trabalhar assim que puder, o caçula Luan Robert Rodrigues, 9 anos, não titubeia. “Claro que vou”.
Sem foco ‘patinam’
Não é somente a experiência que propicia uma carreira profissional. Estratégia com foco delimitado, persistência, rede de colaboradores e mais o básico mix de cursos e um currículo apresentável são indispensáveis para chamar atenção na multidão de quem busca um emprego.
Uma ação da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-SP) na praça Rui Barbosa atraiu, na última sexta-feira, pessoas interessadas em sua carreira profissional, seja para arrumar um emprego ou conseguir uma ocupação melhor.
O presidente da ABRH-SP, Almiro dos Reis Neto, comenta que as empresas geralmente procuram jovens que já tenham alguma experiência. “Isso dificulta para eles”, acrescenta.
Para encurtar o caminho de entrada ao mercado de trabalho, Jovino Alves Rocha, 48 anos, e seu filho, Jeferson Rodrigues Rocha, 16 anos, buscaram o auxílio no ABRH na Praça, evento que contou com o apoio do Jornal da Cidade.
Pai e filho obtiveram o encaminhamento de Jeferson para uma entrevista de estágio no programa Menor Aprendiz. Jovino comenta que discute com o filho o melhor caminho para sua vida profissional.
O pai relembra que, aos 11 anos, já integrava a Guarda Mirim, em Presidente Prudente. “Não tive essa chance”, pontua.
Jovino cita que, para seu filho furar a barreira imposta aos jovens no mercado de trabalho, há um investimento prévio em educação, informação e persistência.
Jeferson cursa o segundo ano do ensino médio em escola pública. Tem no currículo cursos de web designer, designer gráfico e informática. Com esse perfil, ele busca um estágio na área de design, vaga que poderá obter já na entrevista após encaminhamento do Centro de Integração Empresa-Escola (Ciee).
Solução pode estar em cursos técnicos
O secretário de Emprego e Relações do Trabalho do Estado de São Paulo, Tadeu Morais, acredita que os cursos técnicos podem ser uma boa solução para romper com essa tendência de jovens desanimados e desengajados.
“Hoje, faltam tecnólogos no mercado de trabalho. Então, acredito que fazer um curso técnico é algo que compensa bastante. É algo mais rápido que uma faculdade e que tem um resultado. Depois, o profissional pode ir se qualificando mais, com um curso superior, por exemplo”, pontua.
Nesse sentido, existem as Escolas Técnicas Estaduais (Etecs). “O Estado ainda tem uma série de outros programas de qualificação como o Via Rápido, o Aprendiz Paulista e o Jovem Cidadão”.
Em Bauru, além desses, há o Time do Emprego, que monta grupos de discussões, trocas de experiência e treinamentos. “Em Marília, esse programa está dando ótimos resultados. Para se ter uma ideia, de um grupo de 100 pessoas, 70 conseguem o emprego”, completa o secretário.
Outro exemplo de bons resultados que Tadeu Morais aponta é o Sistema S. “São oferecidos serviços que também acabam sendo ótimas oportunidades para os jovens, mas muitos cursos acabam ficando com as vagas vazias”, conclui.
Concorrência até de estrangeiros
Tendo em vista o comportamento desanimado dos jovens, as empresas acabam recorrendo a outro tipo de mão de obra. Nesse ponto, os trabalhadores que estão começando enfrentam mais um obstáculo: a concorrência.
“Muitas empresas estão trazendo profissionais veteranos de volta. Essa é outra dificuldade para o jovem. Antes, quando uma pessoa de 20 anos entrava no mercado de trabalho, a de 50 já estava saindo. Hoje, isso é muito diferente. Pelo contrário: os de 50 estão se qualificando mais”, destaca o consultor Sidnei Oliveira.
Quando não são os veteranos, a briga pelo espaço é com estrangeiros. O especialista afirma que se fala muito da questão dos médicos, porém, revela que é uma tendência em outros setores.
“Na Europa e nos Estados Unidos, por exemplo. É difícil um jovem formado conseguir atuar em sua área. Eles estão sendo importados pelo Brasil. Sabendo da dificuldade em seu país, chegam aqui formados, sabendo outra língua e com o diferencial que eu falo tanto: a atitude”.
